Diário de bordoFogueira
Estava lendo uma pequena biografia de Freud, daquelas da L&PM, quando um trecho me chamou a atenção. Freud perdeu o Prêmio Nobel para um obscuro médico vienense chamado Robert Barany, que havia observado espasmos dos músculos do olho quando se introduzia água fria ou quente nos ouvidos. Depois dessa, amigo velho, duvido que você ainda acredite nesses confetes da vaidade que seduzem a tanta gente.
Guerra
No livro Totem e Tabu, Freud compara o organismo de uma pessoa com distúrbios mentais ao organismo da sociedade como um todo. Assim, ele previu a escalada do mal de Adolf Hitler e seus comparsas com bastante antecedência.
Cinema
No domingo peguei, sem querer, o filme Hitler – A Ascensão do Mal, de Christian Duguay, com a interpretação magnífica do ator Robert Carlyle, que faz um Hitler jovem, completamente maníaco. É assustador ver o nascimento de uma coisa tão hedionda. No dia anterior eu tinha visto um documentário sobre a invasão de um país do leste europeu pelos nazistas. A cena em que eles levam judeus para um terreno baldio, fuzilam todos e enterram numa vala comum é de arrepiar. A imagem do soldado atirando na nuca de um sujeito totalmente indefeso me deixou com ânsias de vômito (eu ainda me incomodo com isso).
Filme
Depois eu vi um documentário sobre a amizade do cineasta alemão Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. As imagens sobre os bastidores das filmagens de Aguirre - A Cólera dos Deuses, Fitzcarraldo, Nosferatu, Woizeck... Puxa, o cinema já foi menos boçal. Ali estava o casamento artístico entre duas grandes personalidades do cinema. Um diretor durão e um ator maluco, cheio de chiliques de prima dona. Demais!
Show
No sábado à noite estava procurando algo para ver na TV e esbarrei com um show de Elvis Presley, em 1973. Elvis ainda não tinha virado uma baleia, mas já usava aquela roupa engraçada. Enxugava lencinhos no rosto para dar às fãs alucinadas, beijava as meninas, rebolava a pélvis. Era o início da derrocada. O rock já havia devastado sua auto-estima com loucos do tipo Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos mortos. Logo Elvis iria se juntar a eles. Mas fez um show impecável, cantou todos os hits e emocionou a multidão presente ao estádio. Olha que ele ainda lotava estádios, não eram os salões de Las Vegas do fim da vida.
Literatura
Aproveitei as “férias” para ler também o Almanaque Armorial, de Ariano Suassuna. Tirando o magnífico texto sobre o artista plástico pernambucano Francisco Brennand e uma análise perfeita sobre o Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, o resto é só para fãs. O velho paraibano sabe muito bem fazer seu marketing pessoal, agora percebo. Olhaí, Fernando Monteiro!
Estética
Eu tenho um CD do Quarteto Armorial que é tão bom quanto um outro que eu tenho de Van Morrison. Sonho com o DVD com a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, pois sei que me dará tanto prazer quanto uma ópera rock do The Who. Trenzinho Caipira, de Villa Lobos é tão emocionante para mim quanto Strawberry Fields, dos Beatles.
Cinema
Sempre desconfiei que Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Santo Guerreiro Contra o Dragão da Maldade, de Glauber Rocha tinham profundas semelhanças com Pedra Bonita e Gangaceiros, de José Lins do Rêgo. Só malucos puristas podem se dar ao luxo de torcer o nariz para os livros de Zé Lins. Eles foram o fogo da paixão de minha juventude.
Alpinismo
Só loucos de pedra escrevem livros pensando em alcançar as alturas de Dante, Cervantes ou Shakespeare. Esses caras escalaram verdadeiros Everestes literários. Eu me conformo em subir o Morro do Careca, se muito. Por sinal, subi muitas vezes (quando ainda era permitido) e ele era bem mais recheado de árvores e dunas. Lá de cima você via a mais bonita paisagem de Natal.
Conforto
No livro Sobre Homens e Montanhas, do jornalista americano Jon Krakauer (aquele do livro Na Natureza Selvagem) tem um trecho em que ele conta os horrores de ficar deitado numa minúscula barraca embaixo de uma tempestade de neve. Poucos de nós vamos passar por isso algum dia. Mas fica uma lição subjacente sobre esse nosso costume de viver no conforto. Um pouco de ascetismo no dia-a-dia pode resolver o problema, coisa que não sei fazer, claro. Uma longa caminhada, um jejum forçado, uma viagem de ônibus para o Seridó, sempre podem colocar as coisas no lugar e você não vai reclamar tanto diante de uma fila de banco.
Originalidade
A leitura do livro Montaigne, de Marcelo Coelho é um ótimo antídoto para quem acha que ainda pode escrever alguma coisa original. Montaigne era um plagiador genial, transformando textos alheios em seus, sem nenhum problema para o conjunto geral de sua obra. Shakespeare também fazia isso. Pegava um texto conhecido na sua época e transformava em algo seu e muito melhor. Fico imaginando o sorriso malicioso em suas bocas enquanto faziam isso.
Teatro
O que está acontecendo com o teatro brasileiro? Outro dia vi uma entrevista com Barbara Heliodora e ela disse que o problema é que há muito desleixo, muita gente sem vontade de fazer algo bem feito. Eu acrescentaria que há muito elitismo também. Os grandes textos de teatro podem muito bem sair das caras salas teatrais (que fiquem com as peças caça-níqueis que Hilneth Correia traz para Natal) e irem para as ruas, para as periferias. Não apenas os grandes textos, mas também os menores, os mais recentes. Os grandes homens do poder e da cultura deviam pensar mais nisso. Sai barato e pode dar bons resultados.
Livro
Terminei de ler o livro de Camile Paglia, Personas Sexuais, e confesso que nunca mais vou ler William Blake e Emily Dickinson da mesma maneira. Percebi muitos exageros da parte dela, principalmente no que se refere ao modo como sexualiza demais suas análises literárias. Seu grande erro é ignorar autores que não se enquadram em seu roteiro pré-concebido para justificar sua tese. Ela esquece solenemente, por exemplo, a poesia de Rimbaud, fundamental no processo de formação da literatura ocidental. Como ela não viu personas sexuais na poesia deste sublime homossexual? Mas ela acerta muitas vezes. Principalmente nas artes plásticas. É interessante notar que toda obra de arte é filha de outra ou de outras.
Música
“Ai coração leviano, não sabe o que fez do meu...”. No meu mais novo DVD de Paulinho da Viola.
Incluído em: 04/11/2008
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