Diário de bordo

Fogueira
Estava lendo uma pequena biografia de Freud, daquelas da L&PM, quando um trecho me chamou a atenção. Freud perdeu o Prêmio Nobel para um obscuro médico vienense chamado Robert Barany, que havia observado espasmos dos músculos do olho quando se introduzia água fria ou quente nos ouvidos. Depois dessa, amigo velho, duvido que você ainda acredite nesses confetes da vaidade que seduzem a tanta gente.

Guerra
No livro Totem e Tabu, Freud compara o organismo de uma pessoa com distúrbios mentais ao organismo da sociedade como um todo. Assim, ele previu a escalada do mal de Adolf Hitler e seus comparsas com bastante antecedência.

Cinema
No domingo peguei, sem querer, o filme Hitler – A Ascensão do Mal, de Christian Duguay, com a interpretação magnífica do ator Robert Carlyle, que faz um Hitler jovem, completamente maníaco. É assustador ver o nascimento de uma coisa tão hedionda. No dia anterior eu tinha visto um documentário sobre a invasão de um país do leste europeu pelos nazistas. A cena em que eles levam judeus para um terreno baldio, fuzilam todos e enterram numa vala comum é de arrepiar. A imagem do soldado atirando na nuca de um sujeito totalmente indefeso me deixou com ânsias de vômito (eu ainda me incomodo com isso).

Filme
Depois eu vi um documentário sobre a amizade do cineasta alemão Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. As imagens sobre os bastidores das filmagens de Aguirre - A Cólera dos Deuses, Fitzcarraldo, Nosferatu, Woizeck... Puxa, o cinema já foi menos boçal. Ali estava o casamento artístico entre duas grandes personalidades do cinema. Um diretor durão e um ator maluco, cheio de chiliques de prima dona. Demais!

Show
No sábado à noite estava procurando algo para ver na TV e esbarrei com um show de Elvis Presley, em 1973. Elvis ainda não tinha virado uma baleia, mas já usava aquela roupa engraçada. Enxugava lencinhos no rosto para dar às fãs alucinadas, beijava as meninas, rebolava a pélvis. Era o início da derrocada. O rock já havia devastado sua auto-estima com loucos do tipo Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, todos mortos. Logo Elvis iria se juntar a eles. Mas fez um show impecável, cantou todos os hits e emocionou a multidão presente ao estádio. Olha que ele ainda lotava estádios, não eram os salões de Las Vegas do fim da vida.

Literatura
Aproveitei as “férias” para ler também o Almanaque Armorial, de Ariano Suassuna. Tirando o magnífico texto sobre o artista plástico pernambucano Francisco Brennand e uma análise perfeita sobre o Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, o resto é só para fãs. O velho paraibano sabe muito bem fazer seu marketing pessoal, agora percebo. Olhaí, Fernando Monteiro!

Estética
Eu tenho um CD do Quarteto Armorial que é tão bom quanto um outro que eu tenho de Van Morrison. Sonho com o DVD com a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, pois sei que me dará tanto prazer quanto uma ópera rock do The Who. Trenzinho Caipira, de Villa Lobos é tão emocionante para mim quanto Strawberry Fields, dos Beatles.

Cinema
Sempre desconfiei que Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Santo Guerreiro Contra o Dragão da Maldade, de Glauber Rocha tinham profundas semelhanças com Pedra Bonita e Gangaceiros, de José Lins do Rêgo. Só malucos puristas podem se dar ao luxo de torcer o nariz para os livros de Zé Lins. Eles foram o fogo da paixão de minha juventude.

Alpinismo
Só loucos de pedra escrevem livros pensando em alcançar as alturas de Dante, Cervantes ou Shakespeare. Esses caras escalaram verdadeiros Everestes literários. Eu me conformo em subir o Morro do Careca, se muito. Por sinal, subi muitas vezes (quando ainda era permitido) e ele era bem mais recheado de árvores e dunas. Lá de cima você via a mais bonita paisagem de Natal.

Conforto
No livro Sobre Homens e Montanhas, do jornalista americano Jon Krakauer (aquele do livro Na Natureza Selvagem) tem um trecho em que ele conta os horrores de ficar deitado numa minúscula barraca embaixo de uma tempestade de neve. Poucos de nós vamos passar por isso algum dia. Mas fica uma lição subjacente sobre esse nosso costume de viver no conforto. Um pouco de ascetismo no dia-a-dia pode resolver o problema, coisa que não sei fazer, claro. Uma longa caminhada, um jejum forçado, uma viagem de ônibus para o Seridó, sempre podem colocar as coisas no lugar e você não vai reclamar tanto diante de uma fila de banco.

Originalidade
A leitura do livro Montaigne, de Marcelo Coelho é um ótimo antídoto para quem acha que ainda pode escrever alguma coisa original. Montaigne era um plagiador genial, transformando textos alheios em seus, sem nenhum problema para o conjunto geral de sua obra. Shakespeare também fazia isso. Pegava um texto conhecido na sua época e transformava em algo seu e muito melhor. Fico imaginando o sorriso malicioso em suas bocas enquanto faziam isso.

Teatro
O que está acontecendo com o teatro brasileiro? Outro dia vi uma entrevista com Barbara Heliodora e ela disse que o problema é que há muito desleixo, muita gente sem vontade de fazer algo bem feito. Eu acrescentaria que há muito elitismo também. Os grandes textos de teatro podem muito bem sair das caras salas teatrais (que fiquem com as peças caça-níqueis que Hilneth Correia traz para Natal) e irem para as ruas, para as periferias. Não apenas os grandes textos, mas também os menores, os mais recentes. Os grandes homens do poder e da cultura deviam pensar mais nisso. Sai barato e pode dar bons resultados.

Livro
Terminei de ler o livro de Camile Paglia, Personas Sexuais, e confesso que nunca mais vou ler William Blake e Emily Dickinson da mesma maneira. Percebi muitos exageros da parte dela, principalmente no que se refere ao modo como sexualiza demais suas análises literárias. Seu grande erro é ignorar autores que não se enquadram em seu roteiro pré-concebido para justificar sua tese. Ela esquece solenemente, por exemplo, a poesia de Rimbaud, fundamental no processo de formação da literatura ocidental. Como ela não viu personas sexuais na poesia deste sublime homossexual? Mas ela acerta muitas vezes. Principalmente nas artes plásticas. É interessante notar que toda obra de arte é filha de outra ou de outras.

Música
“Ai coração leviano, não sabe o que fez do meu...”. No meu mais novo DVD de Paulinho da Viola.




Incluído em: 04/11/2008


Futebol e memória

Tenho uma enorme dificuldade para chorar. Só choro se tiver de pileque. Aí eu vou à forra, tiro o atraso. Mas hoje pela manhã, abri a revista Piauí para ler uma matéria sobre Nilton Santos, o célebre craque do Botafogo e da Seleção Brasileira. Não pude conter as lágrimas. Nilton Santos está com 83 anos, sofre o mal de Alzheimer, agravado por uma dengue hemorrágica. Vive de uma parca aposentadoria da Legião Brasileira de Assistência e da ajuda do dirigente do Botafogo.

Nasci em 1959 e minha infância foi toda impregnada pela vitória da Seleção Brasileira em 1958. Na Copa de 1962, o Brasil repetiu o feito e mais uma vez Nilton Santos estava lá garantindo a festa. Na minha casa tinha discos com a narrativa de todos os jogos das duas Copas, pôsteres das Seleções vitoriosas, e flâmulas lindas comemorando os dois grandes feitos. Nilton Santos foi o grande herói dessas Copas.

Melhor: Nilton Santos foi quem convenceu os dirigentes do Botafogo e o Mundo que as pernas tortas de Garrincha não eram defeitos e sim virtudes. Cresci vendo as fotos deste grande homem nas revistas de futebol. Não sei por que não escolhi o Botafogo como meu time de paixão. Acho que era ainda muito pequeno para tomar tais decisões. Acabei escolhendo o Flamengo por causa do fenômeno Zico.

Depois acompanhei a derrocada de Garrincha através das revistas da época e sempre aquele homem altivo a seu lado, apoiando, incentivando e nunca se decepcionando com a queda do amigo. Quando a televisão substituiu a imprensa em nosso interesse sempre via orgulhoso a figura de Nilton Santos, com sua fala mansa, seu jeito de gentleman, um homem de outro tempo.

Quando Garrincha morreu, lá estava ele na televisão, tentando dar dignidade a uma morte infame. E assim era a cada Copa do Mundo. Era só começar a temporada de jogos e lá vinha Nilton Santos dizer alguma coisa, dar sua opinião sempre abalizada. Para mim era sempre um momento de prazer ouvir e ver aquele craque de outrora. Se existe alguém que eu poderia chamar de herói, este seria Nilton Santos, o maior lateral-esquerdo de todos os tempos.

Agora eu o imagino num quarto de hospital ao lado da esposa, vendo as trevas chegando devagar, suas pernas de ouro agora sem utilidade, sua mente privilegiada esquecendo aos poucos os grandes lances, a bola arremessada de um lado a outro do campo com absoluta precisão no pé do atacante. Essa é a verdadeira dimensão da vida humana.

Por isso nesta manhã que já faz parte do passado, chorei feito um menino. Como no dia em que meu pai saiu de bicicleta, xingando o mundo porque o Brasil perdeu a Copa de 66. E depois rimos como duas crianças, quando o Brasil arrebatou a Copa de 70, e não tinha mais Nilton Santos. Nunca mais as Copas foram do mesmo jeito.

Na adolescência amarguei as derrotas de Zico, o grande craque sem Copas. Na vida adulta ignorei solenemente duas Copas do Mundo: aquela do pênalti de Baggio, a outra de Ronaldinho humilhando o goleiro alemão, Oliver Khan. Perdi a graça. Torço por torcer. Não ligo mais. Mas não vou esquecer nunca a elegância de Nilton Santos, e aqui sozinho, torço para que receba a hora final o mais tarde possível, com a mesma grandeza com que armou suas jogadas divinas. Viva, Nilton Santos, viva muito, mesmo que sua mente vá se apagando aos poucos. Mesmo que não dê tempo de chegar a cura através das células-tronco. Você continuará vivendo na memória dos que ainda se lembram das suas jogadas.




Incluído em: 01/10/2008


A religião é uma invenção humana

Desde que despertei para o mundo sempre me preocupei com religião. Menino ainda, fiquei encantado com o ritual da Santa Missa, o teatro repetido semanalmente, o mesmo rito, o mesmo drama e sempre inesgotável. Mas também o aroma de incenso, o tilintar dos sininhos, a matraca, o badalar dos sinos, as procissões, os paramentos. O pavor de ver aquele corpo encharcado em sangue. Tudo aquilo me maravilhava e causava horror.

Ao chegar à juventude as coisas foram se complicando. Primeiro Sartre, depois Nietzsche. Mas principalmente o olhar crítico para o vazio de toda aquela cena. A hipocrisia das pessoas que participavam daquilo tudo sem pensar. Depois, depois mesmo, a enxurrada de leituras rumo ao conhecimento que ainda hoje busco.

Assim fui me afastando gradativamente da religião e hoje só freqüento igrejas em consideração a pessoas queridas. Mas, sempre involuntariamente, talvez por essa educação católica primordial, digo coisas sem sentido como: “graças a Deus, se Deus quiser, Deus lhe abençoe”, apenas pelo hábito de dizer.

E respeito a religiosidade dos outros.

Fato curioso: adoro ler a Bíblia em busca de alta literatura.

E não sou louco de duvidar da qualidade literária dos textos de São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.
Acredito na existência de Jesus como um bom homem que veio ao mundo e revolucionou o seu tempo com idéias básicas de perdão e amor ao próximo. Queria mudar sua própria religião, o judaísmo e foi assassinado.

O que percebo é que todas as religiões parecem ter a mesma raiz no paganismo, nas religiões antigas, nos egípcios, judaicos, gregos e romanos.

Até mesmo as religiosidades pré-históricas com suas crenças pela deusa da fertilidade, pelo sol, pelas estações da natureza, etc.

Tudo foi adaptado para atender as necessidades de cada época. E por causa disso se fez muita guerra, muita matança e muita arte também.

Que seria de nós sem Michelangelo, Bach, Dante? Toda a arte sacra dos ortodoxos até os católicos e protestantes?

Olha que não estou nem falando de todo o legado do Islã, que tem suas raízes no cristianismo, mas não fizeram a ponte com a filosofia grega e ficaram parados lá pelo século 13.

O budismo não é uma religião, é mais uma filosofia de vida muito interessante pela idéia de negação da materialidade.

Não desconheço as riquezas artísticas legadas por cada religião.

Não desconheço sua importância para manter as massas apaziguadas.

No entanto, acho que cada um deve decidir no que acreditar.

Eu prefiro o ateísmo de Freud.

Eu prefiro o deísmo de Einstein.

Eu prefiro a filosofia e acredito que tudo é finito.

Tudo não passa do velho rito da natureza, começo, meio e fim e depois recomeçar tudo de novo, até que o universo encolha e se expanda de novo.

A religião é uma invenção humana.




Incluído em: 22/09/2008


Diário de Bordo

Natal
Pronto. Agora estou mais calmo e posso dizer: estou em Natal novamente. Olho as esquinas como se acariciasse a bunda da mulher amada. Assim, com delicadeza, roçando a mão de leve no morro de aclive suave. Sim, o Morro do Careca, que (não sei se vocês já notaram), está ficando mais careca dos lados, no topo, duas falhas que crescem a cada dia. Natal é de uma beleza que sufoca, principalmente quando faz uma lua como àquela de ontem. Zeca Baleiro cantava um blues sob uma guitarra que lembrava muito Ry Cooder. A latinha de cerveja na mão e o sorriso da minha amada na frente. Sei não...

Jornalismo
Fiquei assustado com a repercussão do texto do Patrício Júnior. Não queria deixá-lo tão exposto. Mas ele já estava exposto mesmo lá no digizap. Acho que ele é um bom garoto que vai amadurecer. Certa vez eu escrevi uma barbaridade na Tribuna do Norte e um leitor escreveu uma carta me esculhambando. O mínimo que o cara disse foi: “vai arranjar uma lavagem de roupa”. Passei a noite em claro, mas aquilo me fez um bem danado. Nunca mais deixei a soberba tomar conta de mim.

Modernidade
Pois bem, no dia em que as torres gêmeas caíram, eu estava com uma colega repórter no Centro Administrativo e ao passar por uma TV ligada nós vimos aquela fumaça saindo de um dos prédios e ficamos boquiabertos. O vigilante ainda nos disse: “parece que foi um avião que bateu no prédio”. Nós saímos correndo para a TN e ainda vimos a queda das torres, ao vivo.

Mais modernidade
Um amigo me ligou e estava comemorando o que ele considerava uma grande resposta do mundo árabe à arrogância dos EUA em se meter nos assuntos particulares de outros países. Mas eu fiquei cá comigo cismando. Tentando entender aquela merda toda. Olhei para a História e pensei nos romanos. A humanidade é assim mesmo: impérios precisam mostrar sua força sob pena de serem esmagados por outros. Se os seres humanos tivessem evoluído não precisariam ter matado aquele bom filósofo chamado Jesus lá na Palestina (depois usaram as palavras do pobre homem para matar e ganhar dinheiro). Não precisariam gastar bilhões em guerras quando esse dinheiro poderia ser bem aplicado na felicidade humana.

Pós-modernidade
Então, vindo para o trabalho passou em minha mente o sorriso de Bin Laden quando as torres caíram e era o sorriso demente de uma criança perversa. Passou em minha mente o sorriso de Bush e era o sorriso perverso de um adulto doente. Ele ganhou um prêmio com aquilo. Nunca um governante foi tão agraciado com a sorte como este canalha ex-alcóolatra.

Contemporaneidade
Talvez seja por isso que eu não suporto pessoas que usam o fato de não beberem álcool para dar lições aos que bebem. Fodam-se. Eu bebo sim e gosto dos amigos que bebem. Mas não era isso que eu queria falar. Pessoas inocentes morrem todos os dias por decisões de uma meia dúzia de poderosos filhos da puta. Usam a ideologia para massacrar os mais fracos. Eu fico com o pacifismo de Ghandi, eu fico com o pacifismo de Mandela. Esses sim, são os verdadeiros estadistas. O resto é merda.

Guerra
No meio da semana eu li na internet que essa imbecil que é vice de McCain, uma tal de Palin, falou que se a Rússia invadir a Geórgia ela não descarta uma guerra para proteger os aliados da OTAN. Puta que pariu! Eu não acreditei que estava vivendo no mesmo mundo que essa mulher, mas estou. Eu queria que Einstein ainda tivesse vivo pra ouvir isso, caralho. Tem mais: eu fico puto com esse frisson em torno do Obama. Tudo bem que ele é negro e simpático, mas é tão intervencionista como qualquer político americano, meu irmão.

Paz
Estou dando um tempo para poder visitar os amigos. Abimael, Jairo, Tácito, Adriano, Mário Ivo, Enéas, Moura, Mó, Pablo, Peixoto, Carlos Magno, ufa... Beco da Lama, Ceará-Mirim, Pium... Sentar com eles, de preferência numa mesa à beira-mar, e beber cerveja despreocupadamente, jogando conversa fora. Depois dou um pulinho em Mossoró para dar um abraço em Túlio Ratto, Cid Augusto e Marcos Almeida. O resto é bobagem.




Incluído em: 15/09/2008


Você pode viajar sem sair de casa

Estava assistindo a um documentário no Canal Brasil sobre Machado de Assis. Era um filme bonito, cheio de lirismo, falando sobre as ruas e bairros do Rio antigo. O ator Tonico Pereira lia trechos do livro Memorial de Aires e as imagens se sucediam sem pressa, quase que reverenciando o Bruxo do Cosme Velho, como era chamado o escritor. Logo em seguida fui na minha estante procurar alguma coisa de Machado para relembrar antigas leituras. Não havia nada, todos os livros sumiram na cinza das horas e nas mudanças sucessivas que marcaram minha vida até agora.

Fiz uma peregrinação pelos sebos da Cidade Alta e encontrei os principais livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Memorial de Aires e Esaú e Jacó. Quase todos em edições primorosas de capa dura. E reiniciei a leitura do grande mestre. Que maravilhas me aguardam!

Agora fico pensando. Tudo começou com um mero contato com uma mídia moderna, no caso a televisão e após ver as imagens veio-me a vontade de ler algo sobre o assunto. Dizem que a internet tem feito o mesmo com jovens leitores. Depois que eles entram em contato com informações sobre determinadas obras, muitos correm para os livros para lerem mais do mesmo assunto. Acho que a tecnologia moderna é uma grande ferramenta para a aquisição de conhecimento.

Especialistas dizem que o livro ainda é a tecnologia mais avançada de leitura já inventada pelo homem. Realmente, o mergulho em uma leitura de qualidade, muitas vezes agradável, é como uma viagem repleta de aventuras. Outro dia, estava lendo o livro A Arte da Viagem, do filósofo Alain de Botton, em que ele revela que muitas vezes uma viagem dentro de seu próprio quarto, rua, bairro, cidade pode ser muito mais interessante do que aquela mirabolante viagem que você sonha em fazer pelas ilhas gregas, Paris, Londres, Roma, Nova York, etc. Para que esta viagem possa ser plenamente usufruída, não basta você ter rios de dinheiro e zero de sabedoria de vida. É preciso muito mais. E a leitura pode lhe conseguir isso.

Quando criança, minhas viagens eram feitas nas bibliotecas públicas das cidades onde vivi. Hoje não freqüento mais bibliotecas, prefiro ter meus próprios livros. Mas ainda sinto saudade das tardes livres que passei lendo nas bibliotecas de minhas escolas de interior. Agora olhando o mundo moderno, a velocidade das informações na internet, o fascínio que exerce nos jovens sites de conversação como o Orkut, fico pensando se muitos não ganhariam mais tempo lendo um bom livro de Machado de Assis. Que viagem pelo Rio de Janeiro antigo eles poderiam fazer!

Só para se ter uma idéia do que as ferramentas modernas de informação são capazes, digitei no Google o nome da Livraria Cultura e fiz a busca do nome Rio de Janeiro como título de livros (isso pode ser feito com qualquer grande livraria do Brasil na internet) e encontrei 212 títulos, só sobre o Rio de Janeiro. Leitura para todos os gostos. É só escolher um livro e iniciar a viagem sem medo de balas perdidas.

Muita gente acha que a televisão e a internet só servem para deixar as pessoas mais burras. É um engano. Você tem o controle remoto e o mouser nas mãos para buscar o que for melhor na sua formação como ser humano. A TV ainda oferece bons programas educativos e culturais e a internet é um mundo de informação útil. Basta saber viajar.




Incluído em: 09/09/2008


Diário de bordo

Sábado
Mais uma vez uma grande festança no Sêbado, de Marcos Almeida. Que grande figura! Entre muitos convidados estava o cantor Carlos André que é autor de uma penca de sucessos e fez parceria até com João do Vale. Depois, esticando a noite, um bate papo com Cid Augusto, Túlio Ratto e Laélio Ferreira na pracinha em frente à igreja. Engraçado, Laélio é a cara de Jards Macalé.

Domingo
Acordei no domingo com vontade de escutar Seu Jorge. Peguei o CD que ele divide com Ana Carolina e coloquei no volume ideal. Suas vozes encheram o quarto do hotel. Muito legal aquela canção sobre o cara que mora em São Gonçalo e não consegue ir ver a namorada. É uma espécie de crônica urbana mostrando como o cara está fodido. “O orelhão da rua estava escangalhado, meu cartão tava zerado... Hoje a ponte engarrafou e eu fiquei a pé”. Para quem não sabe São Gonçalo é um bairro de Niterói e eu já passei uns tempos por lá, na casa de uma tia. É muito longe do Rio, cara.

Viagem
Aí o domingo ficou todo colorido de azul e sol. Atravessei a rua, peguei um táxi e fui para Areia Branca. Isso já está virando um vício. Andei quase a cidade toda a pé. Só mesmo quem é de lá pode fazer isso sem algum perigo. Quando anoitece a cidade fica perigosa, isso já acontece na maioria das cidades do interior por causa do crack.

Volta
Na volta caí de novo no turbilhão da campanha. Mas é bom ver que Mossoró tem um pôr-do-sol dos mais lindos que já vi. As pessoas são muito hospitaleiras, gostam de dar informações e são completamente apaixonadas pela cidade. Tem um trecho de Mossoró que é todo ladeado por uma vegetação característica de carnaubal, coisa muito bonita de se ver.

Artista
Quem pega uma pista que passa por fora de Mossoró, para buscar restaurantes de comidas típicas, não deixa de notar uma escultura enorme, um carro espetado por um garfo gigante. É uma escultura de Guaraci Gabriel que tem muito prestígio por aqui.

Livro
A leitura de Personas Sexuais, de Camille Paglia diverte as minhas noites. Agora ela faz uma viagem profunda pela história da arte e faz observações incríveis, jamais imaginadas por quem já se interessou por artes plásticas. Na maioria das vezes fico com um risinho no canto da boca, sem querer acreditar muito nela. Mas gosto de sua agudeza de pensamento. Gosto do respeito que ela tem por Freud.

Mulheres
Elas são o mistério da vida. Maravilhosas e inexplicáveis. Mona Lisa não é de perto tão misteriosa quanto qualquer mulher que encontramos por aí nos shoppings da vida e convidamos para tomar um café.




Incluído em: 27/08/2008




O livro de Camile Paglia

Conforme havia prometido, aí vai meu primeiro comentário sobre o livro “Personas Sexuais”, de Camile Paglia. Estou ainda no primeiro capítulo e já se instalou uma febre que não me deixa sossegar. Ela diz, entre outras coisas, que nós humanos somos meros brinquedos da natureza. Não temos controle sobre ela e por isso precisamos da cultura para poder segurar a onda (pois é, foi com uma onda que a tsunami arrastou milhares de vidas para o além) e precisamos da religião para nosso consolo e para poder dominar o medo. Só essa idéia já me deixou louco, pra lá de Marrakesh, como diziam os dos anos 60. Esse ateísmo que nos remete a Freud muito me agrada.

Estilo
Camile Paglia escreve aforismos. São frases telegráficas. Não vemos períodos longos, complicados. Outra coisa, ela escreve gostoso, como um papo de um amigo inteligente na mesa do bar, ou no máximo, uma palestra na sala de aula com poucos alunos. Quando eu entrei para o curso de Comunicação Social, em 1979, Camile Paglia começava a fazer rebuliço no mundo acadêmico. Este livro é dessa época, mas ainda continua muito atual. Lembro que eu o vi na vitrine da Cooperativa Cultural do campus e fiquei ali namorando com a capa, sem poder comprá-lo por causa do preço. Aí, um dia desses estava fuçando nos sebos de Mossoró, e lá estava o precioso livro de capa vermelha com uma foto na capa que lembra os parangolés de Hélio Oiticica. Comprei na hora e corri para o hotel com um cola de papel na mão para reconstituí-lo carinhosamente (a capa estava meio solta na frente). Agora ele está aqui na minha cabeceira. Leio lentamente para não acabar logo e provavelmente vou lê-lo de novo.

Mulheres
Um dos pontos curiosos do livro é que Camile Paglia não poupa as feministas, mas também não deixa barato para os homens. Os homens temem as mulheres porque elas são a essência da vida. Elas podem parir e isso eles não conseguem aceitar. Nas religiões pagãs as mulheres são as deusas da fertilidade, os homens são secundários. Quando o judaísmo inaugura sua religião, a mulher é colocada em segundo plano. É a vingança dos machos. No cristianismo a mulher é virgem e os homens é que mandam. Os muçulmanos exacerbam o poder masculino. No budismo o corpo é eliminado, não existe sexo. Achei que Paglia não foi muito feliz em suas análises do budismo, muitas vezes confusa. Tem parágrafos em que ela parece viajar na maionese e não diz coisa com coisa. Mas é muito interessante.

Links
Lá pelas tantas eu caí na risada com um trecho em que ela fala sobre a vagina dentada. Os homens têm medo das mulheres porque eles saem de dentro delas sempre menores, murchos, comidos pela vagina. Não tem como não lembrar da vagina dentada das “Pelejas de Ojuara”, de Nei Leandro de Castro. A literatura é isso: a conversa de um texto com outro.

Disco
Esqueci de trazer meu disco da Nação Zumbi, sob o comando de Lúcio Maia. Mas suas músicas não saem de minha cabeça. “No coração das trevas estou...” Ou então: “O inferno não é tão longe, eu sei...”. Olhando a foto da mulher atingida pelo bombardeio dos russos na Geórgia, seu corpo gordo, a roupa rasgada e suja de cinzas, as feridas abertas, os braços estendidos num pedido de socorro inútil, a frieza de quem fez a foto... meus amigos, me desculpem, engoli as lágrimas com raiva e fiquei com a cara amarrada o resto do dia.

Fotografia
Mas eu perdôo o fotógrafo. Talvez essa seja sua única maneira de suportar o horror, mostrando-o para o mundo. Eu sei que esses caras muitas vezes acabam pirando e voltam para casa em farrapos. É a vida, é o mundo em que vivemos. O Marquês de Sade escreveu sobre isso. O mal está em nós, humanos. Não podemos evitar sempre. O assassinato é a regra geral. É a hora dos assassinos de que falava Rimbaud.

Demônio
Lendo o texto de Pablo Capistrano aqui no nosso SP, no link só para Prosa, encontrei lá seu questionamento sobre o demônio. Lembrei de uma coisa que eu li outro dia, mas não sei dizer agora de quem foi. O cara dizia que, se não existe Deus também não existe Diabo. Um depende do outro para existir. Um é o adversário do outro. Pelo menos em tese, porque em Jó o Diabo goza de uma estranha intimidade com Deus. Os dois parecem dois compadres apostando em qual momento o mané vai pedir penico e blasfemar contra o patrão. Deus pede até um favor, “não atente contra a vida de meu camarada”. Não é interessante?

Exílio
Por hoje vou ficando por aqui. Quero dizer a todos vocês que, meu único consolo aqui na terra onde Lampião dançou o xote, é encontrá-los no Substantivo Plural. Acho divertido, acho legal ouvir suas vozes através dos textos, das notinhas. Fiquei deleitado com o texto de Lívio sobre Elvis Presley. Rejuvenesci com o texto de Denise sobre os homens de meia-idade. Os poemas de Carmen sobre Angicos (embora ela não cite a cidade). Estou com saudades de todos, de Vinicius (não o poeta, meu neto), de Abimael, de Tácito, das tardes saborosas com Jairo, na Kritérion, do Beco da Lama, do Buraco da Catita, até mesmo da velha Tribuna do Norte (quem diria). Estou contando os dias para voltar.




Incluído em: 15/08/2008




Trip

Mais um final de semana em Areia Branca, passeata de meu primo Macedo que é candidato a prefeito do lugar. Grande sujeito. Todos os meus amigos da infância (até mesmo os já falecidos que compareceram em forma de lembrança), puxa vida. Cada esquina, cada pedaço de muro, de calçada, cada algarobeira velha ou nova, cada barco, cada pessoa são motivos de volta aos verdes anos. Esse negócio de ver o passado da gente passando em câmara lenta é bom, mas dói pra danado. No meio da noite encontro Raimundão, um grande músico local que também é meu primo. Aí ele tocou uma música dedicada a Negruta, um falecido baterista que fez história em Areia Branca. Estávamos à margem do Rio Ivipanim. Troço emocionante demais pra se suportar sóbrio.

Aldeia
Sim, eu amo minha aldeia, mas não suporto ficar muito tempo longe de Natal. A saudade já começa a incomodar. Areia Branca é a minha mãe. Natal é a mulher que me adotou. Ou seria o contrário? Natal me deu “régua e compasso”, como diria Gil. Para todos os lugares que vou levo Natal comigo. Então as duas cidades se misturam e se completam em meu imaginário, ambas nascidas à margem de um rio. Carrego essas duas amadas comigo como se fosse um marido infiel.

Livros
Esta semana está sendo realizada a feira de livros aqui em Mossoró. Já sei que vou encontrar um bocado de amigos por lá. Um pedacinho de Natal nas terras da resistência. Mossoró é sertão e é mar. Basta se afastar uns poucos quilômetros. O cangaço é onipresente e aqui se gosta muito de cordel. Tem um bocado de poetas cordelistas. Eu gostava muito de cordel quando era menino perambulando pela feira em Macau (vivi alguns anos em Macau). Hoje não sinto muita empatia com essa forma de arte. Mas sei que ali tem muita musicalidade e a sabedoria do povo.

Música
Tem uma música de Alceu Valença que diz “mamãe, eu ontem passei mal e me lembrei de você... mamãe!”

Cinema
Tem um filme de Win Wenders em que o personagem lava pratos cantando uma canção mexicana (que ele aprendeu em algum momento de sua fuga da dor que o oprimia).

Pessoas
As pessoas nem sempre são o que vemos nas fotografias. Elas um dia foram pele e carícia. Um dia sorriram para nós com aquele encanto causado pelo bem querer. Um dia tiveram voz e calor. Depois elas somem nas brumas do esquecimento e viram uma fotografia que costumamos acariciar com os olhos para não perder o costume.




Incluído em: 05/08/2008




Filósofo

Giles Deleuze estava dizendo outro dia em uma entrevista na TV que todo filósofo é criador de personagens, embora nenhum deles tenha escrito um romance. Disse também que Sartre tentou escrever romances, mas acabou fazendo filosofia mesmo. Disse que os grande escritores são grandes perceptos, ou seja, são capazes de percepções que a maioria dos mortais não alcança. Citou exemplos como Spinoza, Aristóteles e Nietzsche, mas poderia ter citado muito mais. Deleuze está velho na entrevista e com uma tosse catarrenta de quem fumou muito. Uma inteligência fascinante.

Livro
Carlos Peixoto me deu um livro de arqueologia chamado “Depois do Gelo”, de Steven Mithen. Um dia Mário Ivo me ligou perguntando o que eu estava lendo, eu disse que estava lendo um livro de arqueologia, e aí ele riu, arqueologia? Pois é, a fome de ler é tão grande que a gente acaba lendo de tudo. Mas voltando ao livro. O autor fala de pessoas caminhando sobre a terra há 10 mil anos, construindo aldeias que são apagadas pelo tempo e enterradas para sempre na poeira, deixando rastros de suas culturas e alguma religiosidade pagã. Fica difícil acreditar na mitologia católica depois disso, sabe? Uma curiosidade é ele falar de Niéde Guidon, uma arqueóloga que andou por aqui dando aulas para algumas amigas minhas da UFRN. Ele não leva ela muito a sério.

Música
River, de Madeleine Peyroux e K. D. Lang é como navegar um rio de águas mansas. Nem fui atrás de ver a letra, fiquei embalado pelas vozes e melodia. Puro deleite.

Cinema
Teorema, de Pier Paolo Pasolini, com Terence Stamp e Silvana Mangano. Não sei se gosto mais do escracho com a burguesia ou da fúria erótica do personagem. Aquele cara no deserto me faz lembrar muito a estética de Glauber Rocha. Aliás, andam querendo fazer releituras sacanas de Glauber. É cegueira não ver os clássicos que ele deixou para a humanidade, apesar dos exageros na filmografia final. Sei não.

Televisão
Vi outro dia uma discussão sobre o programa do Chacrinha. Muniz Sodré, autor de uma teoria sobre o grotesco na comunicação, foi muito feliz em suas observações ao dizer que não há lugar para o Chacrinha na televisão moderna, por que tudo ficou muito chato, muito politicamente correto. O padrão Globo foi tão eficaz nesse sentido que nem suas concorrentes mais bregas têm coragem de fazer um programa criativo como o de Cha-crinha. Lembro que certa noite, em São Paulo, vi um programa chamado Perdidos na Noite e, de repente, surgia um sujeito maluco qualquer como Lobão no meio da noite para falar o que desse na telha. Este programa era de ninguém menos que o chato do Faustão que aporrinha todo mundo que não tem TV paga nos domingos da vida.

Teatro
Tem uma peça de Jean Paul Sartre intitulada “Entre Quatro Paredes”. É uma das três ou quatro peças modernas que incluo em minhas preferências. Algumas pessoas são colocadas em uma sala e condenadas a conviverem para sempre. Daí surge a frase lapidar “o inferno são os outros”. Nunca vi metáfora mais perfeita da convivência humana. Vivendo aqui na solidão de meu quarto tenho plena consciência disso. Como existe gente chata, meu Deus.




Incluído em: 31/07/2008




Link

Pablo Capistrano diz uma coisa mais ou menos assim: os paraísos artificiais são poesia em tempo real, mas matam. Isso me faz lembrar Emil Cioran um filósofo muito em voga em tempos idos. Ele dizia também que certas pessoas viviam a poesia, mas eram incapazes de fazê-la. É interessante como certas leituras se entrelaçam no tempo e no espaço. Um dia um rapaz de camisa de seda da Revista Bravo disse que Cioran era um diluidor. Aí eu fiquei pensando se ele não seria esse tipo incapaz de fazer poesia, mas lembrei que ele também era incapaz de escrevê-la.

Poeta
Estava vendo outro dia na televisão um documentário sobre Maiakovski e sua geração. Toda aquela arte maravilhosa e transgressora a serviço de um estado totalitário que queria vê-la morta e viu. Nos tempos de faculdade muitos de nós andávamos com um livrinho dentro da bolsa, que era uma tradução de Maiakovski pelos irmãos Campos e Boris Schnaiderman. Na folha de rosto tinha uma foto do poeta quando jovem, os cabelos desgrenhados, o olhar feroz, penetrante.

Disco
Parecia uma foto de Bob Dylan na capa de um disco que a gente não parava de escutar. Era Highway 61 Revisited, o supra-sumo da rebeldia que havia mudado a vida de algumas pessoas da geração anterior. Aquele roqueiro cantava coisas que mais pareciam letras de poemas.

Músico
No verão passado comprei um CD de Zeca Baleiro em que ele cantava uma balada que dizia: “não quero envelhecer como o poeta que lê Maiakovski na loja de conveniência”. Achei muito irônico e muito legal isso, porque talvez eu seja esse sujeito da letra.

Trip
Fiz uma viagem no final de semana a Grossos para visitar parentes. Mais uma vez a beleza escandalosa das salinas, o rio Ivipanim visto do outro lado e a voz de Amy Winehouse dizendo “as lágrimas secas que eles têm” e “eu nunca te amei”... “éramos apenas amigos”... etc.

Livro
No quarto do hotel minha principal diversão é ler um livrinho de capa amarela chamado “Libertinagem - Estrela da Manhã”, de Manuel Bandeira, que eu comprei num sebo de Mossoró. São versos tão absurdamente simples e perfeitos, que sempre me vem a idéia de que Manuel Bandeira causou um mal muito grande à literatura brasileira, por fazer pensar que é fácil escrever poesia. Mas não é não. Escrever assim é que é difícil.

Vida
A mão pesada do Partido Comunista foi tão sufocante para Maiakovski que ele meteu uma bala no peito. Muitos anos depois um grupo teatral brasileiro o ressuscitou com a peça “O Percevejo”, em que um homem é congelado por 50 anos e acorda no futuro. A música da peça virou um grande sucesso de Caetano Veloso na voz de Gal Costa. “Ressuscita-me, ainda que mais não seja, porque sou poeta e ansiava o futuro...”




Incluído em: 24/07/2008


Mídia

A semana foi marcada por um certo estranhamento na mídia brasileira. Enquanto as TVs parecem gozar com as imagens de figurões algemados, alguns jornalistas dos jornais impressos levantam algumas dúvidas sobe a espetacularização dessas prisões em operações de nomes esdrúxulos. Acho que todos os cidadãos deveriam ter os direitos iguais. A mocinha que roubou uma lata de manteiga e ficou presa além do tempo necessário deveria ter os mesmos direitos do banqueiro que desviou milhões. Se a pessoa tem endereço fixo e se propõe a prestar os devidos esclarecimentos na delegacia e não oferece qualquer risco à integridade física de outras pessoas, precisa mesmo ser algemado?

Livro
O que estou vendo é um verdadeiro espetáculo que já foi muito bem descrito no livro “Fogueira das Vaidades”, de Tom Wolfe, transformado em filme pelas mãos de Brian de Palma. No elenco, tem Tom Hanks, Bruce Willis e a senhora Melanie Griffith (nossa provável futura vizinha em um resort do litoral potiguar). Quando a mídia está por perto, as pessoas tendem a perder um pouco a noção de bom senso. Todo mundo quer aparecer um pouquinho e ter os seus 15 minutos de fama da qual falava Andy Warhol.

Filme
Isso me fez lembrar do filme “Um Tiro para Andy Warhol”, de Mary Harron, com música de John Cale, do Velvet Underground (a banda que tinha Lou Reed no elenco) e participação de Lili Taylor no papel principal. É um filme curiosíssimo com a história de Valerie Solanas, a radical feminista que ficou famosa após atirar no ícone da arte pop. Solanas escreveu o famoso manifesto da Associação de Destruição do Homem (ADH) e tem lá seus minutos de fama na história universal da infâmia da humanidade.

Psicanálise
Estou lendo a concisa biografia de Freud, da coleção de biografias da L&PM e, amigos, confesso que de vez em quando tenho que parar para respirar. Podem falar o que quiserem de Freud, dizer que ele viajou na maionese com a questão da sexualidade, que ele exagera em alguns momentos na análise dos sonhos, etc. Mas duvido que alguém possa derrubar os pilares teóricos que ele deixou armados para que a humanidade possa olhar sem medo para seu próprio umbigo. Alguns textos de Freud que me aventurei e ainda me aventuro a ler, como “Moisés e o Monoteísmo” e “A Interpretação dos Sonhos” são de uma qualidade literária acima da média se não levarmos muito em conta a parte puramente técnica (deixo essa parte para os psicólogos).

País
O Brasil é um país de extremos e há muito que perdeu a sua cordialidade, tão bem descrita pelo mestre Sérgio Buarque de Hollanda. Ao invés de prender os assassinos que provocam mortes no trânsito por causa da embriaguez, pune toda a população que bebe de forma civilizada. No entanto, a tal medida reduz drasticamente o número de acidentes nas grandes cidades. O que fazer, apoiar o autoritarismo e defender a vida humana ou apoiar as liberdades civis e deixar continuar essa matança insana nas madrugadas do trânsito no país? Fico com a vida. Beba em casa ou perto de casa. Ou pague um táxi para poder beber por aí. Natal não tem transporte urbano de qualidade.




Incluído em: 17/07/2008




Polícia

Quando eu elogiei aqui a qualidade do filme Tropa de Elite, um bando de intelectuais correu para malhar o filme, pois o julgavam fascista e apologista da violência. Eu disse que o filme tinha o grande mérito de mostrar a realidade de uma metrópole brasileira em estado de guerra permanente, com sua polícia truculenta, despreparada, arrogante. Agora, os telejornais correm para ouvir o capitão que inspirou o filme e ele diz que as armas usadas são inadequadas e a tática de confronto está errada. Pobre Cidade Maravilhosa.

Cidade
Quem chega em Areia Branca, pega a principal rua que dá acesso à cidade (é a Travessa dos Calafates, topônimo mais poético impossível) e vai até a penúltima rua antes da Rua da Frente, que se debruça sobre o Rio Ivipanim. Chegando na esquina vai ver um bar com o sugestivo nome de Maritacaca. Este é o nome original da cidade e também o título do poema que venho escrevendo para homenagear minha aldeia.

Comédia
O bar fica no local onde funcionou a padaria de Virgílio na minha infância. Sim, Areia Branca também teve o seu Virgílio e ele não foi o guia de Dante através do in-ferno, purgatório e céu. Acho que Jairo Lima, do sebo Kritérion, ia gostar de tomar um copo de vinho nesta esquina que mostra claramente o traçado das ruas idealizado pelo arquiteto Giácomo Palumbo, o mesmo que transformou Tirol e Petrópolis num tabuleiro de xadrez.

Poesia
É de se entender que a jovem poeta Ada Lima tenha nascido por aqui, já que todo o lugar rescende a poesia. Quem chega numa tarde de sol e nuvens carregadas espelhadas na lâmina azul das salinas, sentindo o cheiro de mato molhado, vai saber o que estou dizendo. Areia Branca é de uma beleza áspera como o mineral que lhe deu origem.

Calor
Mossoró é como uma Fortaleza sem praias. Pessoas simpáticas, calorosas e apaixonadas pela cidade. As nuvens cor de chumbo carregadas de chuva, não deixa o sol martelar com força em nossa cabeça e assim a vida segue amena. Acho bobagem essa rivalidade que algumas pessoas tentam fazer valer entre Mossoró e Natal. Ambas são tão provincianas quanto qualquer lugar que não sejam Rio e São Paulo ou Nova York.

Leitura
Nos momentos de folga pego minha velha Bíblia em busca da mais alta literatura (nada a ver com religião). Encontro os Salmos e Provérbios. É interessante notar que o primeiro, que é creditado ao rei Davi, mostra um estilo violento, rancoroso, sempre preocupado em esmagar os inimigos. Reputo aí a melhor leitura para se entender a belicosidade do estado de Israel nos dias correntes. O segundo, que é creditado ao rei Salomão, filho de Davi, é um livro de conselhos e lembra muito as palavras de Kung Fu Tsé (o Confúcio) quando se trata de ensinar o que é a sabedoria. Coisa muito boa de ler, meus camaradas.

Música
Amy Winehouse martela em meus ouvidos que o amor é um jogo perdido, mas eu digo, sim, mas não, nem isso. Pode ser doloroso às vezes, mas que é bom ninguém po-de negar.




Incluído em: 11/07/2008


Sobre os livros da Flor do Sal

Tem certas coisas na minha profissão que dão o máximo de prazer e quase ou nenhum retorno material. É o caso de comentar livros de pessoas que conhecemos e gostamos. Pois é com imenso prazer que folheio este livro “Menina Gauche”, de Ada Lima, Editora Flor do Sal, sem número de páginas definido, R$10,00. Ada Lima foi minha aluna de jornalismo na UFRN, uma das pessoas mais brilhantes que conheci. Quando soube que ela ia lançar um livro de poesia não fiquei nem um pouco surpreso. Primeiro por ela ser filha de quem é (Adriano de Sousa dispensa comentários), depois pelo modo como ela encara os desafios que a vida lhe impõe. Os poemas de Ada Lima são curtos, afiados, certeiros. Como ela mesmo diz na apresentação do livro: “Pois fazer e ler poesia é muito mais sentir, do que explicar ou entender”. A leitura do livro de Ada Lima dura uma viagem de ônibus para casa, no máximo. Mas depois de lido, duvido que você esqueça o que foi dito. Tem um verso que ela diz assim: “As palavras preferem os poetas tristonhos”. Não preciso comentar mais nada.

O outro livro é “O Pastoreio do Boi (XII poemas sobre uma parábola ZEN)”, de Márcio Simões, Flor do Sal, sem número de páginas definido, R$10,00. Quando eu cheguei no bistrô em que os livros desta coleção foram lançados, não reconheci de imediato aquele rapaz magro na mesa da frente. Fui lá cumprimentá-lo e ouvi a seguinte frase: “Li muitas coisas de sua biblioteca, principalmente aqueles livros beatniks”. Eu sorri de volta e disse, “que bom”, mas ainda sem saber o significado daquela frase. Só depois quando cheguei em casa e parei para pensar foi que caiu a ficha. Claro, aquele era Márcio, o sobrinho de Pipi, minha grande amiga seridoense e quando ele era bem mais jovem, costumava ir na minha casa e ficava fuçando os livros. Deve ter lido muito mais por aí, porque deu no que deu. O livro de Márcio Simões tem aquele leveza do arqueiro zen, todos os músculos retesados, nenhuma intenção de acertar o alvo e, no entanto, que precisão! Então vejamos: “O pri-meiro/vislumbre/o boi surge/e desaparece/Quando anoitece/ele ainda/brilha/A luz da lua/é a mesma/luz da lua/Agora aquele/que se banha/? parte nela”. Está certo, Márcio Simões buscou a síntese da idéia na palavra nua, econômica, despida de qualquer gordura que venha a ter o boi. Mas é também a palavra de alguém que viu o sertão bem de perto. Livrinho gostoso de ler, rápido, conciso, atemporal.

Agora, o terceiro livro da série, O Poema do Caminhão, de Sebastião Vicente, Flor do Sal, 125 páginas, R$20,00 é de outra cepa. Aqui estamos no campo da dramaturgia, uma outra forma de escritura que demanda uma técnica, uma sabedoria, um modo de dizer as coisas para o palco. Meu amigo Sebastião Vicente já ganhou que cansou prêmios de teatro: Valsa na Varanda, ficou em 3º lugar no Concurso Nacional Funarte/Ministério da Cultura e ganhou uma leitura dramática no Rio de Janeiro, no Teatro Glauce Rocha; depois A Exclusão ficou com o 3º lugar do ano seguinte e ganhou uma montagem em Natal com o título Barra Shopping; O Poema do Caminhão ficou com o 1º lugar na categoria infanto-juvenil pela região Centro-Oeste no mesmo concurso anteriormente citado. Só isso já dispensaria qualquer comentário sobre a obra de Sebastião Vicente, mas tem muito mais a ser considerado.

A obra de Sebastião Vicente tem um caráter indissociável de sua personalidade: a simplicidade, humildade, timidez, inventividade, lucidez e inteligência. Quando Sebastião Vicente fala com você ou escreve um texto é com a mesma integridade com que toca seu trabalho jornalístico desde os velhos tempos da TV Cabugi e Tribuna do Norte. Como homem do sertão seridoense, sua terra e sua gente transparecem intactos em seus enredos. Mesmo assim, é impossível não perceber seu olhar penetrante no tempo presente e no futuro. A peça sobre o shopping é completamente moderna, urbana e no entanto guarda pontos de contato com a anterior, que se passa em um lu-gar que poderia ser Parelhas ou Acari, só para citar dois lugares que ele ama.

Este Poema do Caminhão mostra um autor mais apegado às raízes sertanejas, tanto que ele prefere os versos rimados no estilo do cordel. É inevitável a comparação com as peças de Ariano Suassuna, pois a tradição é mesma, a tradição oral, o universo das feiras livres do Nordeste, a fala cantada do povo. Queria que esta peça pudesse ser montada por um grupo itinerante que levasse essas palavras para as ruas de nossas cidades e trouxesse um pouco de luz a essas mentes tão embotadas pela linguagem da televisão, pela barbárie do mundo moderno. Queria que isso fosse possível.

Mas vou ficar por aqui sonhando e relendo esses livros que alegram os meus dias.




Incluído em: 02/07/2008




Cinema

Tem coisas que só os bons amigos fazem por nós. Meu amigo Everton Dantas me presenteou com uma cópia do filme Na Natureza Selvagem, de Sean Penn e eu decidi assisti-lo nas vésperas de São Pedro. Sento no sofá, pego umas espigas de milho e começo a ver o filme. Na minha frente vão rolando aquelas imagens e aqueles sons de uma beleza selvagem: imagens de uma juventude que vivi só através dos livros; sons de uma idade ma-dura que vivi através da voz do cantor da banda Pearl Jam. Lá estavam todas as inquietações que vêm me perseguindo durante toda essa boa metade de vida que já alcanço. Vale a pena estraçalhar a alma para ganhar muito dinheiro? Ou é melhor viver com o pouco que lhe é necessário? O rapaz do filme toma uma decisão, uma decisão difícil: deixar tudo, promessa de emprego, carro do ano, família problemática para uma viagem sem volta, pri-meiro pelo seu país, depois se embrenhando na natureza selvagem (no caso aí o Alasca) para encontrar a morte mais abjeta.

Livros
Enquanto o filme vai transcorrendo, vamos vendo sua trajetória, o quanto era inteligente, suas leituras, sua inteireza de caráter. Principalmente Henry Thoreau, aquele cara que defendia a desobediência civil, a vida nos bosques e que foi preso por que não pagava o imposto de renda e fez a cabeça de toda a geração hippie no mundo. Que pena que não deu certo. É chocante ver uma pessoa tão boa, tão íntegra como aquele menino ser engolido pelo destino. No justo momento em que ele descobre que a solidão não é uma boa saída, a natureza lhe dá a resposta definitiva.

Revistas
Lembro que na década de 90 ainda gostava de ler revistas como a Veja. Foi lá que eu vi a notícia da morte desse menino, a foto de um ônibus perdido na paisagem gelada do Alasca. Aquilo chocou o mundo, principalmente porque era um rapaz de classe média, da rica classe média americana. O pai havia sido um engenheiro importante na corrida espacial. Mas as relações familiares não eram uma maravilha. E aquele garoto foi morrer sozinho no pior lugar do mundo para se morrer.

Livros
No final da década de 90 encontrei um exemplar de Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, Companhia das Letras, 214 páginas, R$45,00. Era a história do garoto Chris McCandless, jovem americano saudável e de família rica, que havia doado todo seu dinheiro, abandonado o carro e a maioria de seus pertences, adotado outro nome e sumido na estrada, sem nunca mais dar notícias aos pais. Trata-se de um trabalho minucioso deste jornalista acostumado a escrever sobre alpinismo. Ele ouviu todas as pessoas que estiveram em contato com o rapaz e montou este livro fabuloso.

Filme
Sean Penn leu o livro e decidiu filmar aquela história e agora o círculo se fecha novamente. Tem uma cena do filme, que é o pai do menino chorando no meio da rua e olhando para o céu como se pedindo uma explicação que não pode ser dada. A cena é feita pelo ator Willi-am Hurt. Pois não é que o próprio Sean Penn fez a mesma cena, igualzinha, só que como ator, no filme Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood? É aquela cena em que ele descobre o corpo da filha adolescente no meio do mato. O desespero é o mesmo.




Incluído em: 01/07/2008


Borges

Descobri que a Livraria Cultura na internet vende também livros usados. Aí fui lá e comprei “Por Que Ler Borges”, de Ana Cecília Olmos por um precinho bem interessante, levando em conta a taxa de frete. Acho gostoso receber o livro em casa, abrir a caixa e correr para ler as primeiras páginas num lugar bem confortável. Foi como entrar no túnel do tempo: de repente eu me vi nos corredores do campus universitário, conversando com Adriano de Sousa sobre a estupidez dos caras de esquerda que patrulhavam a gente só por que estáva-mos lendo um livro de Jorge Luís Borges. Estávamos vivendo os estertores do regime militar no Brasil e Borges apoiara os militares na Argentina porque ele queria o cargo de diretor da Biblioteca Nacional (somos todos humanos, meus queridos, cheios de defeitos). Eu não dava a mínima para as posições políticas de Borges porque estava encantado com aquele tipo de literatura, ao mesmo tempo tão universal e tão particular, tão argentina que poucos percebiam. Eu sonhava com o fim da ditadura no Brasil e também na Argentina, aliás, eu so-nhava com o fim das ditaduras no mundo inteiro, como ainda sonho. Detesto qualquer tipo de governo autoritário, seja de esquerda ou de direita. Talvez por isso nunca tenha me filiado a qualquer partido político com medo de perder minha liberdade de opinião.

Livros
Então passei a ler quase tudo de Borges publicado no Brasil. Primeiro nas estantes da Biblioteca Zila Mamede, depois quando pegava em algum trocado, comprava o que fosse possível em sebos e livrarias. Não satisfeito, lia também Bioy Casares, seu grande amigo e parceiro. Sedento de leitura, buscava prazer em Júlio Cortázar, um cara que havia bebido e muito na literatura de Borges.

Latinos
Quando passei uma temporada em São Paulo, tentando fazer um mestrado em Comunicação Social, me descobri arrebatado pelos livros de Gabriel Garcia Marquez, um claro reflexo de minha paixão por essa literatura latino-americana que eu descobrira lá atrás com Borges. Depois essa febre passou.

Cinema
Neste mesmo período, foi lançado no Brasil o aclamado livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa e logo depois sua versão para o cinema. Não foi com pouca emoção que vi aparecer na tela do cinema a figura cega e obcecada por livros e labirintos, inspirada em Borges. Lembro que estava marcada uma palestra de Borges numa universidade de São Paulo. Acompanhei pelos jornais porque não tinha dinheiro para ir ver. No entanto, ganhei um do melhores presentes de minha vida ao assistir a uma palestra do poeta mexicano Octavio Paz, no auditório da USP que ficava ao lado do prédio onde me hospedava. Para completar o presente, a pessoa que acompanha Octavio Paz era ninguém menos que Haroldo de Campos. Foi um dia mágico, concluído com a apresentação do filme “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Fassbinder.

Glória
Depois que passou a ditadura militar, muita gente boa esqueceu as mágoas e bebeu com gosto as palavras do velho Borges. Todo ano era aquela agonia antes da anunciação do Prêmio Nobel que nunca ia para ele. A Academia de Estocolmo sempre foi guiada por uma ideologia que julgava os autores por suas posições políticas. Ainda é assim. Por isso Borges morreu sem receber seu almejado prêmio. Isso criou uma polêmica meio burra de que os premiados em seu lugar não tinham valor para tal. Não gosto disso. Todos têm o seu valor e dependendo das circunstâncias são glorificados ou não.

Imortal
Mesmo sem o Nobel, Jorge Luís Borges imortalizou-se. Sua obra permanece viva com toda a força da grande literatura. No Brasil, é possível ler suas obras completas pela Editora Globo e ninguém, com o mínimo de bom senso, vai deixar de lê-lo por que ele gostava de ditadores militares e era um conservador convicto. Então, meus amigos, tenham calma, não se despedacem por honrarias tolas, academias de letras, prêmios de literatura, as vaidades, as bajulações. O que vale é o que está escrito, o conteúdo do que você escreve é o que importa. Se seus contemporâneos não gostam de vocês, mande-os à merda. Continuem fazendo seu trabalho honesto que é o que conta.




Incluído em: 20/06/2008




HORROR

Tem dias que a gente não deve ler jornal, ouvir rádio, ver televisão. Dias em que o mandante do assassinato de uma freira é absolvido. Dias em que juízes aceitam candi-daturas de candidatos com ficha suja. Dias em que neonazistas espancam pessoas. Dias em que cínicos desmatam a Amazônia. Dias em que um presidente e uma ministra se envolvem abertamente na venda suja de uma empresa aérea. Dias em que a inflação volta pela irres-ponsabilidade de pais e mães do crescimento irresponsável. Dias em que pedófilos importantes são desmascarados... Dias assim não deveriam acontecer nunca para o nosso despertar matinal. Mas eles nascem mesmo assim... e a gente tem que acordar e sair para a luz cegante lá fora.

Cegueira
É nessas horas que a arte se torna necessária. O Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago e o filme sobre o livro e todos os textos de Kafka sobre a escuridão da humanidade... A felicidade é como areia fina da praia escorrendo entre os dedos. A felicidade é uma canção brega que diz “felicidade não existe, o que existe são momentos felizes...”

Trevas
Na sala de espera do consultório médico devoro Juventude, de Joseph Conrad. Mais uma vez sua visão estrangeira de um oriente imaginário, estranho, exótico. Mais uma vez sua certeza da escuridão no Coração das Trevas. Mais uma vez a fatalidade das escolhas erradas. O homem tem que fazer suas escolhas sem o auxílio de Deus ou dos deuses. O homem é sozinho como Hamlet em sua decisão de matar ou não matar.

Poço
Mas no fundo do poço José grita a sua certeza de que o Egito resplandece no futuro, como na canção de Caetano Veloso. Sua capacidade de adivinhar, de ver o que virá. Uma voz ecoando no deserto, a garganta seca, o olho pregado no céu firme lá em cima.

Som
Mozart dançando sobre a pauta musical num poema de Manuel Bandeira; crianças brincando no parque numa peça musical de Egberto Gismonti; Satchmo cantando Wonderful World; amigos rindo e conversando ao redor de uma mesa farta...

Luz
O Grito, de Münch em tamanho gigante tomando toda uma parede e eu sentado em uma cadeira em frente para poder apreciar os detalhes; as noites estreladas e os girassóis de Van Gogh tomando toda a sala ao redor e invadindo com alegria as minhas retinas; a tristeza estática e colorida da vida americana de Hopper.

Ação
O filme Looking for Richard, com Al Pacino procurando desesperadamente uma forma de mostrar toda a maldade de Ricardo III sem parecer canastrão. Mas quem se importa com canastrice quando se está percorrendo o universo maravilhoso do Bardo? Quem se importa se Ricardo tem ou não tem corcunda?




Incluído em: 11/06/2008


Dante

Peguei o livro “Por Que Ler Dante”, de Eduardo Sterzi, numa fila de banco e só deixei poucas páginas por terminar. É interessante o prazer que dá ler algo sobre um livro ou um autor que já conhecemos. Não li “Vida Nova”, de Dante, porque não me apetece ainda, mas pelos poucos exemplos vi que tem muita coisa interessante ali. Porém, ler a ou sobre a “Divina Comédia” é uma viagem das poucas que se pode fazer na vida. O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que o bom mesmo é ler Dante no original, por isso ele aprendeu o italiano em tempo recorde. Não posso fazer isso, então me contento com as boas traduções disponíveis no Brasil.

Músico
Coloquei o CD de Renato Braz para ouvir e fiquei com dificuldade de parar. Muita gente torce o nariz para ele dizendo que sua voz é um decalque da voz de Milton Nascimento (assim como dizem a mesma coisa de Jorge Vercílio com a voz de Djavan). Mas é bom lembrar que a memória auditiva de uma nação é seu material dos mais importantes, não pode ser descartada assim Quando Chico César começou a aparecer no cenário musical brasileiro muita gente dizia que seu timbre era igual ao de Caetano Veloso. No entanto, o rapaz da Paraíba mostrou que tinha um recado a dar. Depois de alguns minutos com Renato Braz você esquece Milton e entra no universo auditivo deste excelente músico que é Braz. É uma coisa de arrepiar.

Futebol
Essa onda que está acontecendo em torno do jogo Botafogo x Náutico, no Estádio dos Aflitos me faz pensar muito nas relações sul e norte no Brasil. Sempre que acontece uma coisa assim eu fecho os olhos e lembro d’Os Sertões, de Euclides da Cunha. Essa balela de que o Brasil é um país só nunca passou de imposição política. Nós somos vários países e ao longo da história já tentamos nos esfacelar várias vezes e agora mesmo estamos tentando criar pequenos países indígenas na Amazônia. O fato é que o sul não entende o norte, mas o norte entende o sul. O sul não admite ser superado de forma alguma por es-ses seres famélicos que ficam próximos à linha do Equador. Para eles somos paraíbas analfabetos, corruptos e ignorantes que só devem suscitar pena. Lembro de um jogo aqui em Natal em que o jogador Edmundo saiu xingando por ter perdido a partida para um bando de paraíbas. É dessa arrogância que falo ao comentar o jogo lá de Recife. Houve excesso de ambas as partes, eu sei. O jogador lançou uma garrafinha plástica de água na torcida e mostrou o dedo maior de todos, depois xingou a policial que usou de uma truculência fora de propósito exteriorizando, talvez, seu bairrismo típico dos pernambucanos. Estavam ali todos os ingredientes que deram início à Guerra de Ca-nudos, guardadas as devidas proporções. Em seguida ouvi os comentários dos locutores da Globo, tipicamente sulistas, defendendo suas prerrogativas. Esta semana vi estarrecido a decisão de um tribunal esportivo fechando o Estádio. É assim que as coisas acontecem no velho Brasil dividido, meus amigos. Ser nordestino é estar acostumado a ter uma vida severina como a dos personagens de Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto. Quem ficar fora deste figurino paga o preço.




Incluído em: 06/06/2008


Diário de bordo

BRASÍLIA
Passei vários dias ruminando minha passagem por Brasília. Não conseguia colocar nada na tela do computador sobre o assunto, de tanta emoção que foi essa viagem. Na chegada, tive que suportar uma série de solavancos na minha carreira tão sofrida de velho jornalista. Tanta humilhação que às vezes cansa. Dei um tempo, fui pedalar pelas ruas de Ceará-Mirim, escolhi umas músicas no MPBeco, fiquei deitado em casa olhando para a televisão. Hoje passei pela velha Tribuna de guerra e decidi ler os e-mails. Lá estava o Sopão do Tião, o blog do jornalista Sebastião Vicente, pedindo para ser lido. Agora, acho que posso falar algumas coisas sobre essa viagem.

AMIZADE
Fazia um tempão que eu não via Sebastião Vicente. Ele passou num concurso da TV Senado e se mudou de mala e cuia para Brasília com Rejane (só depois é que nasceram Cecília e Bernardo). Aqui e acolá eu ficava sabendo de um prêmio que ele havia arrebatado com suas peças de teatro. Ele é um esmerado escritor de peças de teatro, mas pouca gente sabe. Aí recebi um convite do MEC para ir cobrir em Brasília a assinatura de um acordo entre o Ministério e Prefeituras. Foi um dia só, cheguei pouco antes da meia-noite, Sebastião Vicente e Rejane Medeiros me esperavam no aeroporto. Fomos comer qualquer coisa num chinês, conversamos até a madrugada e fomos dormir. No dia seguinte fui dar uma olhada na solenidade e pegar o material para fazer a matéria. Ao meio-dia já estava livre e Sebastião Vicente passou por lá pra gente dar uma volta por Brasília. Almoçamos, depois perambulamos pelas livrarias, lojas de discos, em busca de algo para aquecer a alma. Encontrei um livro sobre Dante e um disco de Renato Braz, indicado pelo amigo. Ele comprou um livro sobre Shakespeare e nós fomos para casa conversar e ouvir música. Assim fico sabendo que o disco de Seu Jorge, intitulado Cru, é pra inglês ver. Ele tem disco melhor. Começa a tarde.

LEMBRANÇAS
Morei alguns meses em Brasília, dividindo um pequeno apartamento com o jornalista Moura Neto e um amigo chamado Bira. De vez em quando o jornalista Adriano de Sousa aparecia para um papo. Fiz uma experiência no Correio Braziliense, mas o editor não gostou de minha cara (ou de meu texto, sei lá). Aí o saudoso jornalista Rogério Cadengue, que estava por lá nessa época perguntou se eu queria fazer um teste num tal Correio do Brasil, uma porcaria de jornal que ficava na periferia de Brasília. Topei na hora e no outro dia já estava trabalhando. Depois o jornalista e publicitário Sávio Hackradt perguntou se eu queria fazer a assessoria do então deputado Antônio Câmara. Topei também e no outro dia já estava trabalhando. Foi um período curto e louco, maravilhoso e ao mesmo tempo traumático. Não precisa dizer que com pouco tempo eu já estava de saco cheio daquela solidão de Brasília, do ar seco, do frio, do calor, da falta de esquinas e, principalmente, estava morrendo de saudades de Natal e de Jô.

W3 NORTE
Ah, eu adorava andar pela W3 depois do trabalho, para sentar um pouco num barzinho qualquer e tomar umas cervejas. Foi o que fiz então nesta última segunda-feira, depois que Sebastião Vicente saiu para o trabalho e eu acabei de enviar a matéria para a Tribuna. Fiquei ali na W3 Norte olhando para aquela colina coberta pela vegetação rasteira do Planalto Central. Fazia um pouco de frio quando o vento soprava na minha direção. Mas estava gostoso e eu não cabia em mim de felicidade por causa do nome do bar: um tal Jequitibar, que só tocava uma rádio FM Verde Oliva, com excelente programação de Música Popular Brasileira, mas no final da tarde o cara colocou um CD de Bruno e Marrone para agradar a freguesia (estava na hora de ir embora). Fiquei ali lembrando dos amigos que estão espalhados por aí, cada um no seu rumo. Que tarde!

VIAGEM
Depois fui para a casa de Sebastião Vicente, botei um casaco (a noite começou a esfriar) e fiquei fazendo hora para ele ir me deixar no aeroporto. À nossa volta os filhos Cecília e Bernardo faziam a festa. Era como se uma parábola da Bíblia estivesse se desenrolando ao vivo. Uma velha amizade é sempre muito quente quando retorna aos seus bons tempos. Ele foi me deixar no aeroporto e eu só fiquei triste porque não consegui encontrar o disco novo da Amy Winehouse para ele escutar na volta para casa. Mando depois. O avião fez uma escala em Salvador e eu fiquei vendo um DVD de Durval Lelys pra passar o tempo. Musiquinha boa pra dançar, mas não diz nada, é só aquele tum-tum-tum maneiro e nada. Chega a hora de voltar para Natal e eu a vejo com as luzes da manhã.




Incluído em: 26/05/2008


E-mails de Erasmo de Rotterdam

Recebi uma série de e-mails bastante impertinentes e, ao mesmo tempo, divertidos de um senhor chamado Erasmo de Rotterdam. Algumas passagens eram tão estranhas ao nosso imaginário moderno que resolvi atualizar algumas notas de sua lavra e fazer pequenas modificações, esperando não despertar sua ira. Neles vinham as seguintes opiniões e algum disparate:

- “A principal vantagem da medicina está em que, quanto mais ignorante, ousado e temerário é quem exerce, tanto mais estimado é pelos senhores laureados. Além disso, essa profissão, da maneira por que muitos a exercem hoje em dia, se reduz a uma espécie de adulação, quase como a eloqüência”.

- “Os poetas fazem consistir toda a sua arte em impingir lorotas e fábulas ridículas para deleitar os ouvidos dos tolos. Isso não impede que, apoiados nessas ridicularias, se gabem de obter uma devida imortalidade e ainda a prometam aos outros”.

- “Pretendem os advogados levar a palma sobre todos os eruditos e fazem um grande conceito de sua arte. Ora, para vos ser franco, a sua profissão é, em última análise, um verdadeiro trabalho de Sísifo. Com efeito eles fazem uma porção de leis que não chegam a conclusão alguma. O que são essas coisas esquisitas que eles falam? Um amontoado de comentários, de glosas, de citações. Com toda essa mixórdia, fazem crer ao vulgo que, de todas as ciências, a sua é a que requer o mais sublime e laborioso engenho. E, como sempre se acha mais belo o que é mais difícil, resulta que os tolos têm em alto conceito essa ci-ência”.

- “Talvez fosse melhor não falar dos teólogos, tão delicada é essa matéria e tão grande é o perigo de tocar em semelhante corda. Esses intérpretes das coisas divinas estão sempre prontos a acender-se como pólvora, têm um olhar terrivelmente severo e, numa palavra, são inimigos muito perigosos”.

- “Passemos, agora, aos grandes da corte. Não há escravidão mais vil, mais repulsiva, mais desprezível do que aquela a que se submete essa ridícula espécie de homens, que não obstante, costuma ganhar para si, de alto a baixo, o resto dos mortais”.

- “A principal ocupação dos mundanos é acumular sempre riquezas e contentar em tudo por tudo o próprio corpo, pouco ou nada se importando com a alma, cuja existência, por ser ela invisível, muitos chegam mesmo a pôr em dúvida”.

- “Todos vós estais convencidos, por exemplo, de que um rei, além de muito rico, é o senhor dos seus súditos. Mas, se ele tiver no peito um coração brutal, se for insaciável na sua cobiça, se nunca se mostrar satisfeito com o que possui, não concordareis comigo que é miserabilíssimo?”

- “Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que se retire para um deserto, a fim de gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria”.

- “Senhor, dá uma mulher ao homem, porque, embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa contudo de ser mais alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste deste”.

A essas alturas, percebendo que nosso amigo holandês começava a passar dos limites, respondi a seu último e-mail com um elogio por algumas opiniões e uma descompostura por esta última. Também pedi para que ele não entrasse mais em contato comigo.




Incluído em: 05/05/2008


Diário de bordo

ABC
Acordo na segunda-feira ainda com os acordes da torcida do ABC entoando em meus ouvidos. Como velho alecrinense sinto uma pontinha de inveja. A TV só mostra o pavoroso caso da menina morta pelo pai e madrasta. Ignoro. No canal da Câmara Municipal de Natal vejo um professor mostrar a verdadeira realidade dos luxuosos empreendimentos que os estrangeiros querem construir em nossas praias. Caiu a minha ficha quando ele perguntou porque os donos nunca explicam como é que vão ser mantidos esses campos de golfe. De onde virá a água, para onde irá? Campos de golfe? E nós jogamos golfe aqui? Por que eles querem cercar enormes áreas de dunas com lagoas e árvores que nos pertencem, ao invés de permitir o nosso desfrute? Estaremos vivendo em Cuba, onde só os estrangeiros podem freqüentar hotéis? Por que nossos representantes assistem a tudo em silêncio? São perguntas inquietantes. Acorda Natal!!! Acorda Rio Grande do Norte!!!

PROGRESSO
“O céu de Pequim tem um tom perolado, que seria até bonito se não encobrisse com sua névoa os templos, os prédios, os narizes e as gargantas. Nos raros dias em que chove, o céu limpa, mas a precipitação ácida cobre com uma gosma a frota cada vez maior de carros da capital chinesa”. Assim começa a reportagem de Rodrigo Bertolotto na página da UOL, e prossegue num tom lúgubre mostrando para que serve este modelo de desenvolvimento que é preconizado pelos EUA, e que muitos de nossos dirigentes se esforçam para aplicar aqui mesmo em nosso país. É o tal desenvolvimento a qualquer custo, sem qualquer preocupação com o meio ambiente. Nós precisamos mesmo deste desenvolvimento? A quem interessa a riqueza produzida por isso? São perguntas inquietantes.

ÍNDIA
Vi mais uma vez Passagem para a Índia, de David Lean. Continua sendo um filme desconcertante ao mostrar do que é capaz a intolerância racial e cultural. Mas também é um mergulho psicológico dos mais profundos na alma humana, quando duas almas gêmeas se encontram e não podem realizar suas pulsões de amor e desejo por causa da cor da pele. Para arrematar, o filme ainda oferece uma aula sobre o que é orientalismo, coisa que você só pode compreender depois de uma leitura cuidadosa do livro de mesmo nome de Edward Said.

BALZAC
Terminei no fim de semana a leitura da biografia de Balzac, de François Taillandier, L&PM, 141 páginas, R$11,00. O homem era uma verdadeira usina de fazer textos. Demorou a ser reconhecido, mas mesmo assim só era incensado por Victor Hugo e Baudelaire (basta, né?). Foi rejeitado pela Academia Francesa de Letras (vocês já viram que esse negócio de Academia é bem desnecessário) e nunca conseguiu se livrar das dí-vidas. Depois que morreu sua casa foi invadida por credores que levaram quase tudo e alguns de seus manuscritos foram usados como papel para embrulhar mercadorias. Seu monumento são seus livros, obra tão vasta que uma vida quase não é suficiente para conhecê-la na totalidade. Se você nunca leu nada de Balzac, leia pelo menos As Ilusões Perdidas (que mostra seu desprezo pelos jornalistas); Eugénie Grandet, Pai Goriot (que mostram personagens tão humanos quanto os de Shakespeare) e não deixe de ver o filme Balzac e a Costureirinha Chinesa, de Dao Sijie (disponível em DVD). Depois venha me fa-lar de revolução cultural chinesa e totalitarismos de esquerda.

CUBA
Por falar nisso, vinha escutando a CBN quando o locutor ligou para um cubano, que não quis se identificar, e perguntou o que ele achava das novas medidas tomadas pelo governo de Raul Castro. Ele disse que as pessoas fizeram filas enormes para comprar celulares com medo do governo voltar atrás. Disse também que ninguém quer se hospedar nos hotéis de Cuba, porque esta seria uma maneira do governo saber quem tem dinheiro na ilha. Um dissidente cubano foi taxativo: “as medidas do governo são meramente cosméticas”.

POLÍTICA
As notícias sobre a sucessão eleitoral em Natal são tão enfadonhas que é um perigo para quem dirige dormir no volante.




Incluído em: 28/04/2008


Diário de bordo

TELEVISÃO
Noite de quinta-feira, olho as notícias na televisão e vou me deitar antes de saber o resultado do jogo ABC X Potiguar (amanhã vejo nos jornais, digo). Tento ver alguns fil-mes na Tv, mas só estava passando merda líquida holywoodiana, vou dormir. Acordo no meio da noite com uma vontade danada de ler alguma coisa. Pego o livro na cabeceira, já meio lido, até a metade. Trata-se de “Deus no Céu e o Mercado na Terra”, de Thomas Frank, Record, 494 páginas, R$56,00, que achei no sebo de Abimael Silva.

MERCADO
É um livro inquietante, dirigido a administradores de empresas, mas que pode ser lido por leigos, pois fala também de jornalismo, cultura, internet e bolsa de valores. Entre outras coisas, o autor condena a mania moderna de deixar a solução de todos os problemas para o santificado mercado. Você já deve ter escutado algum espertinho que quer acabar com seu emprego dizendo que “o mercado vai resolver tudo”. É aí que o autor observa o enfraquecimento dos sindicatos e das lutas dos trabalhadores em nome de soluções milagrosas no mercado financeiro.

BOLHAS
De lambuja, ele fala sobre os mitos da internet, as bolhas financeiras criadas pela empresas virtuais que levaram milhões à falência e o risco de leigos aplicarem na bolsa de valores. Depois ele explica o que está acontecendo com o jornalismo na terra de Tio Sam, onde as grandes empresas estão engolindo as pequenas para “enxugar” suas folhas de pagamento demitindo milhões de pessoas e terceirizando tudo.

BALZAC
Depois de ler tudo isso ficou difícil pegar no sono de novo. Então peguei uma pequena biografia de Balzac, de François Taillandier, L&PM, 141 páginas, R$11,00 e apaguei todas as minhas preocupações ao ler sobre as preocupações de Balzac. Enorme, glutão, mulherengo, endividado, gênio. O sono chegou logo.

MÚSICA
Pela manhã acordei disposto, liguei a TV e vi Miriam Leitão contando como estão desmatando adoidado em Paragominas. Uma nuvem escura sobrevoou minha cabeça. Porém, a caminho do trabalho, peguei e Via Costeira e fui ouvindo Belchior cantar canções de Chico Buarque, Zé Ramalho e Adriana Calcanhoto. Puxa, não entendo porque ele anda tão esquecido, pois continua tão bom como sempre foi.

ARTE
Ao chegar no trabalho, ligo o computador e vou direto para o nosso sítio aqui e leio um cara defendendo arte conceitual e a morte do cachorro na galeria de arte. Pronto, o dia está estragado irremediavelmente, e mal começou. Não penso mais no mar azul da Via Costeira. Penso nas crianças que morrem de fome mundo afora, porque as políticas agrícolas de alguns países não permitem a distribuição correta de trigo e arroz. Leio na internet que um governador defende o desmatamento para plantar arroz, quando ontem ouvi Miriam Leitão dizer que tem terras de sobra no Brasil para o plantio de alimentos.

VERDE
Fecho a cara. Não quero mais falar com ninguém. Quero fazer meu trabalho, ir para o interior e no meio do caminho olhar o verde Vale do Ceará-Mirim, e pensar que ainda vai demorar muito para que Natal avance até lá. Mesmo porque as terras cultiváveis vão servir mesmo para o plantio da cana de açúcar, o combustível do futuro. Vou escutando Belchior e os versos de Adriana Calcanhoto, “pela janela do carro, pela janela do carro, vejo tudo enquadrado, remoto controle...” Penso no cachorro de meu irmão, o bichinho está morrendo de velho e ninguém acha que isso é obra de arte.




Incluído em: 25/04/2008


Espaço

Uma fotografia na internet mostra o lixo espacial em torno da terra e é espantoso como o ser humano é capaz de sujar tudo, até o espaço. Às vezes desejo que as profecias de Malthus (aquele que previa a morte da humanidade por causa da superpopulação) sejam concretizadas logo, ou que a catástrofe nuclear seja rápida e urgente, mas depois penso nas pessoas que eu amo e fico quieto.

LIXO
Não, eu não sou um ecochato. Mas fico deprimido cada vez que vejo uma montanha de lixo. Acho que é o cúmulo da barbárie a pessoa não saber cuidar do próprio lixo, ou seja, colocar no lugar certo. Eu sei que o poder público nem sempre faz a sua parte na coleta do lixo, mas é possível colocá-lo em sacos bem acondicionados e providenciar depósitos adequados de acordo com a condição financeira de cada um.

PLÁSTICO
Depois que vi a reportagem numa revista dizendo que existe um grande lixão de plásticos no Oceano Pacífico, entre o Hawaí e a costa americana, levei um choque de realidade. Os EUA, o modelo de crescimento econômico do mundo, tão imitados por todas as nações emergentes do mundo, são verdadeiros bárbaros porcalhões. Em São Paulo existe uma iniciativa da indústria de reciclagem de garrafas pets que são transformadas em fibras para vários tipos de utilização. Por que essa idéia não pode ser universalizada?

PNEUS
Já foi comprovado que pneus servem para fabricar matéria-prima de asfalto, tubos de saneamento e uma série de outras utilidades. Jogados na natureza não servem para nada, mas quando utilizados na indústria, são de grande valia. Por que ainda servem de focos do mosquito da dengue?

FLORESTA
A principal causa da derrocada do Haiti como nação foi o seu desmatamento sistematizado para o plantio da monocultura. O Brasil caminha celeremente e feliz para o mesmo destino. Mais um século nesta velocidade e não teremos mais a Amazônia. Se essa desgraça chegasse logo e matasse os filhos da puta que estão fazendo isso, eu abriria uma garrafa de Johnny Walker para festejar. Mas não, ela só vai atingir os meus netos.

POLÍTICOS
Outro tipo de lixo. Fiquei a semana inteira sob o efeito do texto de Woden Madruga sobre a viagem dos parlamentares potiguares à área das enchentes no interior do Estado. Eles deviam seguir o exemplo de Manoel Lopes, do Armazém da Caridade que, ao invés de fazer uma mera e inútil visita, manda alimentos para o desabrigados. O dinheiro que estes ilustres Deputados gastaram nesta esdrúxula viagem daria para mandar um caminhão de alimentos, medica-mentos, água potável e roupas? Votem neles, porra!

RIOS
A imagem do Rio Mossoró atulhado de lixo, lama e plantas que se alimentam da poluição é de deixar qualquer um com vontade de vomitar. A cruel ironia de tudo isso é que a natureza quando resolve se vingar passa por cima das casas desses miseráveis que jogaram o lixo no pobre rio. Ah, meu Deus, e aquele esgoto de Macau jorrando direto no rio, hein? Será que no ano que vem o governante da cidade vai fazer outro megacarnaval, ao invés de fazer a obra de saneamento que a cidade merece?

MÚSICA
“Mães zelosas, pais corujas. Vejam como as águas de repente ficam sujas...”. Gilberto Gil.




Incluído em: 17/04/2008


A poesia de Demétrio Diniz

Acordei com sede de poesia e olhei para a manhã lá fora, o céu nublado, cinza, tristonho. Olhei para o lado da cabeceira da cama e lá estava o livro de Demétrio, me espiando sob a luz pálida do abajur, há dias esperando pela leitura (cada livro tem seu dia de ser lido). A capa de Lúcio Masaaki, uma beleza só com aquele trem saindo da escuridão num facho de luz. FerroVIA, chama-se o livro do poeta Demétrio Diniz, assim explicitando o trocadilho.

Quem vê Demétrio, o comerciante do Alecrim, não percebe de imediato o poeta que há ali naquele homem corpulento de olhar manso (ele pedala todos os dias na Praia do Meio para perder peso), um poeta que sabe cuidar das palavras com tanta delicadeza. Demétrio é uma boa lição para quem procura ver na imagem pública do poeta o valor de sua escrita. Leiam as palavras do poeta, esqueçam a pessoa do poeta. “Tudo aconteceu ontem, praticamente hoje./ Difícil separar as distâncias, distinguir a idade dos anos”, diz Demétrio e nós ficamos assim parados, com a boca semi-aberta, como se disséssemos, “por que não fui eu quem disse isso?”

O livro de Demétrio é para quem quer sentir o gosto de sertão, o aroma de memória a roçagar nossa mente entulhada de metrópoles. Se você está assim, sedento de uma poesia que lhe traga o sabor e o cheiro de um sertão que só existe na memória, corra para a livraria e peça o livro de Demétrio Diniz.

Ao abrir este livro, porém, não se espante com a presença onipotente da morte. Ela está entrelaçada nas linhas, nos versos, como o limbo nas galhadas de árvores mortas lambidas pelas águas dos rios perenes. Demétrio não descuida dessa presença silenciosa em nossas vidas. Ao contrário, trata-a com o respeito e a reverência que lhe são devidas.

A manhã prossegue e ouço lá fora a canção das águas escorrendo das telhas e o respingar contínuo dos minutos no relógio da cozinha. Mas já agora não consigo parar de ler este livro que tanto me traz de mim mesmo. Essa ferrovia que atravessou minha infância, não talvez do mesmo modo que o do poeta. E no entanto, os caminhos se entrecruzam e se encontram nessa leitura solitária, aqui na Cidade do Natal, e é de se perguntar, para quê serve a poesia?

Ora, se poesia não vende, não dá dinheiro, por que ainda existe gente tão teimosa que se dedique a tal ofício? Eu poderia responder que, sim, a poesia é inútil, mas o que seria de nós, numa manhã dessas em que acordamos tão sedentos e assustados com o absurdo da vida, e nos deparamos com essa melodia tão doce, tão suave nas palavras deste poeta de Alexandria, que nos dá um alento e uma vontade danada de seguir vivendo.


FerroVIA, de Demétrio Diniz, Editora Bagaço, 97 páginas, sem preço definido. Pode ser encontrado nas boas livrarias da cidade.




Incluído em: 11/04/2008


POLÍTICA

Para começar, não sou a favor da reeleição de Lula. Mas preciso colocar alguns pontos nos “is”, até mesmo para minha satisfação pessoal. Lula é um líder com reputação inoxidável, ou seja, imune aos escândalos, porque é dono de certos predicativos que as lideranças de direita não desenvolveram: pegou o legado de FHC e turbinou fazendo distribuição de renda na prática; é um craque em comunicação social; está vivendo num período econômico de verdadeira magia; etc.

IBOPE
Agora, o homem chega ao segundo mandato gozando dos mais altos índices de popularidade (lembramos que FHC terminou o segundo mandato com baixa popula-ridade). Mas não tem herdeiros políticos e isto por si só é assustador para o respeito às regras democráticas.

DIREITA
Esses demos da direita, como Zé Agripino e Artur Virgílio (ou Geraldo Melo, só para lembrar) nunca fizeram nada pelo povão. Quando no poder o que eles gostam mesmo é de massacrar a gentalha. Lula foi mais esperto que eles deixando todos no “ora veja”, loucos por um escândalo que derrube o homem. O nome disso é incompetência mesmo, pura e simples.

CENTRO
Mas não nos iludamos, o neoliberalismo está vivinho da silva (ops!) e é só dar uma olhada nas pesquisas. O povo ainda lembra do careca José Serra e seu jeitão populista que deu um jeitinho na saúde. A merda é que ele é um paulistano do tipo “uma pizza e dois pastel, meu” que detesta nordestinos. É o único que pode enfrentar qualquer candidato de Lula. Será que ele teria coragem de acabar com programas sociais como Bolsa Família e Bolsa Escola? Duvido.

POVÃO
Qualquer governante que acabe com essa graninha que entra no bolso de todos os brasileiros pobres em todos os recantos deste imenso país, vai se ferrar nas próximas elei-ções. Não vai fazer seu sucessor. Eu converso com muita gente humilde e sei da importância deste dinheiro na vida dessas pessoas.

ELEIÇÃO
Aqui na terrinha, vence quem tiver dinheiro e for carismático o suficiente para tirar o povo desse torpor. O nível de politização é mínimo e as pessoas votam com quem lhes dá uma cesta básica ou um milheiro de telhas. Que mais? O resto é besteira, vamos falar de outra coisa.

LIVRO
Estou lendo vagarosamente, deliciosamente, uma edição de Os Lusíadas e, tirando um ou outro verso com referência à mitologia grega que foge à minha compreensão, estou achando o maior barato fazer essa viagem com os marujos portugueses. Mas sempre tendo em mente o mal que eles fatalmente causaram aos povos colonizados.

FILME
Peguei outro dia, no meio da madrugada, a exibição de Limite, de Mário Peixoto. Mais uma vez o estranhamento: como eles puderam fazer um filme desses naquela época e sem os recursos de hoje? Será que alguém se atreveria a refilmá-lo? Acho difícil. Tentei assistir ao filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, mas o cansaço e o sono me derrubaram. Do que pude ver em meio aos cochilos foi a atuação soberba de Selton Melo e a quase impossibilidade de se levar um texto literário para as telas.




Incluído em: 09/04/2008


TIBETE

Olha, meus amigos, eu sei que moro aqui em Natal, muito longe do Tibete, mas não quero ficar calado diante do que vejo. O governo chinês (não o povo chinês, que merece todo o nosso respeito) é formado por um bando de comunistas filhos da puta, que praticam um ca-pitalismo de mercado agressivo com um partido totalitarista de esquerda. O Dalai Lama, líder espiritual do Tibete está errado com seu pacifismo no estilo Gandhi. Esses galados do partido comunista chinês só entendem a linguagem da violência e os monges que partiram para a militância política de resistência estão certíssimos. Só vão conseguir ser ouvidos fazendo muita confusão. Infelizmente eles pagam com a vida pela ousadia e nós covardemente ficamos seguros aqui no Ocidente. Viva o Tibete! Liberdade para o Tibete!

DITADURA
E para não perder a viagem, vos digo: o regime cubano é uma ditadura de esquerda e o sonho de Hugo Chávez é espalhar este modelinho para o resto da América Latina, sendo ele o próprio Simon Bolívar (Lula e sua trupe babam na fronha só de sonhar com isso também). Agora, que eles são as únicas vozes contra o imperialismo americano no resto do continente, isso é verdade. Resta saber se não existem caminhos melhores de enfrentar o império do que ditaduras de esquerda.

CINEMA
O filme Transamérica, do diretor Duncan Tucker, estrelado pela atriz Felicity Huffman (famosa pelas séries de TV Frasier e Desperate Housewives) é de uma sinceridade tocante. A história do transexual que encontra o filho (estrelado pelo jovem ator Kevin Zegers), depois de vários anos de separação, é um soco no estômago da hipocrisia corrente. A vida real é assim mesmo e não precisa da estetização dos chamados filmes de arte para ser mostrada com beleza.

DROGAS
A Holanda é o único país do mundo que enfrenta a questão das drogas de frente, sem hipocrisia, sem jogo de cena. Lá, as drogas são um problema de saúde pública e não de polícia. Resultado; não têm problemas com traficantes. A burrice do Brasil e, em particular, do Rio de Janeiro é pensar que vai resolver tudo na base da polícia e da violência. Está errado.

TELEVISÃO
Em dias de insônia consigo ver programas sensacionais na Tv aberta, tipo os programas de Serginho Groissman. Lembram quando ele tinha um programa no meio da tarde, em que ele dizia, “fala garoto!”, e a meninada tinha voz para discutir seus problemas e os do país. Cansei de ver candidatos a Presidência da República sendo sabatinados pelos meninos. A Globo contratou Serginho e o colocou na madrugada, que dá traço de audiência. Em seu lugar podemos ver instrutivos programas sobre novelas e mini-celebridades relâmpagos. Existe censura mais eficiente que esta? O nome disso é alienação, meu caro. Desse jeito, não tem como educar e politizar nossa população. Alguns de nós podemos fugir disso através da TV paga, mas e os outros?

LIVROS
Li de uma sentada só a biografia de Picasso, de Gilles Plazy, L&PM, 215 páginas, R$15,00. O homem era um insaciável mulherengo, egocêntrico, gênio. Aquela história de que ele saiu da miséria para a fortuna é “menas” verdade. Saiu do conforto da casa paterna e foi ralar nos grandes centros, como qualquer rapazote faria, sabendo que ia passar necessidades. Mas o melhor mesmo é confirmar que sua obra partiu de um rígido estudo clássico para se transformar na revolução que marcou a modernidade. Uma lição: não se pode fazer nada de novo sem conhecer bem as obras do passado.

JAZZ
Botei o disco de Amy Winehouse para tocar e não consigo tirar do meu sistema de som. A moça tem uma incrível voz de negra, muito peculiar e escreve suas próprias letras, algumas em parceria com alguns marmanjos. Fico sabendo pela TV que ela é alcoólatra, drogada e desenvolveu uma grave doença de pele por causa dos excessos, não sei, mas uma pessoa com esse nome (Amy Casa de Vinho, humm...). Corri para meus velhos CDs de jazz e encontrei lá Teresa Brewer, uma branca que cantava desse mesmo jeitinho, pelos idos de 1950. Senti um aroma de Rita Pavone, de uma certa Jovem Guarda com gosto de vinho velho.

CANTORA
Escutando direitinho essa moça, Norah Jones, você vai perceber suavemente, lá de longe, uma certa Janis Joplin, sem ser gasguita. Eu gosto muito de um certo disco em que ela aparece na capa vermelha com uma saia rodada, muito bonita, dá até saudade de umas pessoas que conheci no passado. Mas o bom mesmo é sua voz e os arranjos perfeitos.




Incluído em: 01/04/2008


Biografia

Sempre haverá algo para se falar sobre Shakespeare. Já li várias biografias do bardo (menos as que defendem a não existência do homem de Stratford-upon-Avon, sua cida-dezinha natal). Agora li mais uma, “Shakespeare”, de Claude Mourthé, L&PM, 231 páginas, R$15,00 e tirando pequenos deslizes e o fato de ser um francês falando de teatro inglês, o livro traz informações muito interessantes. A primeira informação é digna de um Jorge Luís Borges: Existiu um cidadão chamado Robert Greene, que publicou um panfleto em 1597 atacando Shakespeare de forma brutal. Entre outros mimos, ele chama o bardo de “um corvo pretensioso ornado de nossas plumas”. Robert Greene morreu na miséria, esquecido por tudo e por todos.

Glória
Fica aí uma ótima lição para nossos jovens poetas e escritores que sonham com uma glória terrena e se desmancham na primeira crítica negativa sobre seus trabalhos.

Gay
Outro grande achado do livro é a teoria de que Shake não gostava só de mulheres. O bardo também seria chegado a uns rapazes. Daí uma cuidadosa análise em torno de um verso de seus Sonetos que fala de um tal Dark Lady. Daí o grande fuxico em torno de seu testamento, onde ele deixou sua “segunda melhor cama” para sua mulher Anne Hathaway.

Esposa
Sobre a esposa do bardo, recomendo a leitura do fascinante “Relato Íntimo de Madame Shakespeare”, de Roberto Nye, Geração Editorial, 232 páginas, R$ 38,00. Neste livro, a palavra fica com a própria senhora Shake, uma mulher que não lê nada do marido nem de qualquer outra pessoa, mas é a única que o conhece como ninguém. Trata-se de um texto delicioso, erudito sem pretensões, muito inteligente.

Teatro
No ano passado estreou uma versão dessa história no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. A peça tem Norma Bengell no elenco e é uma adaptação de Emílio di Biasi para o romance homônimo do inglês Robert Nye, aproveitando-se da obscura biografia do criador de Romeu e Julieta para inventar uma ficção em torno de sua vida conjugal com Anne Hathaway.

Cinema
Outra coisa interessante na biografia de Mourthé é a relação entre os textos do bardo e sua transposição para o cinema. Tem um capítulo especialmente falando sobre isso. Das clássicas filmagens com Lawrence Olivier, passando por Kenneth Branagh até aos polêmicos filmes de Orson Welles. A lista de obras de Shakespeare levadas para o cinema é enorme e nem sempre são excelentes. Destacaria um Macbeth feito por Roman Polanski; Looking for Richard, por al Pacino; Titus Andrônicus, por Julie Taymor (embora muita gente deteste); Ricardo III, de Richard Loncraine e as leituras cinematográficas de Shakespeare por Tom Sttopard.

Livros
Tem muita biografia boa sobre o bardo, mas uma que merece o maior respeito é a de F. E Haliday, traduzido por Bárbara Heliodora. Cheio de fotos e uma bela introdução da maior autoridade em Shakespeare no Brasil. Heliodora é também tradutora de uma obra do re-centemente falecido Arthur C. Clarke, “O Jardim de Rama”.

Linguagem
O livro “A Linguagem de Shakespeare”, de Frank Kermode, traduzido por Bárbara Heliodora, Editora Record, 448 páginas, R$56,00, mostra bem direitinho o por que da grandeza e da perenidade das peças do bardo. O autor faz acuradas análises dos versos demonstrando um raro conhecimento da história e cultura da era elisabetana e a fortuna crítica shakespeariana.

Curiosidade
Agora, livro curioso mesmo é este “O Rosto de Shakespeare”, de Stephanie Nolen, Record, 384 páginas, R$56,00, que conta a misteriosa história de um suposto retrato de Shakespeare. A partir daí o leitor tem a oportunidade de entrar no vertiginoso mundo do bardo, com suas histórias mal contadas e outras bem contadas. O livro traz ainda provas contra e a favor da autenticidade da representação do bardo, conhecida como o Retrato Sanders.




Incluído em: 24/03/2008


Carnaval

Um amigo de Ceará-Mirim assistiu a uma cena ao mesmo tempo triste e comovedora durante o carnaval na cidade. O antigo folião e carnavalesco (ele foi um dos mais ativos organizadores de blocos de Ceará-Mirim) Luis de Júlia, do alto de seus 72 anos, desfilou sozinho pelas ruas da cidade, fantasiado e cantando antigas marchinhas. O carnaval de Ceará-Mirim sucumbiu sob o peso dos carnavais de praia, que usam trios elétricos tocando uma coisa chamada forró elétrico, carros com o som nas alturas cada um com uma música pior que a outra e jovens alienados dançando aquela merda. A velha poesia do carnaval sobreviveu sozinha com este gesto do velho folião. Meu amigo contou que foi às lágrimas ao ver a cena.

Carnaval ainda
Pois eu acho que Natal resiste bravamente a essa onda toda. Claro que o bloco Manicacas no Frevo levou para as ruas apenas um pequeno número de foliões debaixo de um sol abrasador do meio-dia do sábado, no centro da cidade. Mas o que eu vi em Ponta Negra foi de arrepiar, com aqueles grupos folclóricos dançando para todo mundo ver, velhos, jovens e crianças. Nós não temos a tradição dos maracatus pernambucanos, mas temos muita coisa bela que poderia ter se perdido com o tempo.

Teatro
Estou tentando ler uma tradução de Millôr Fernandes da peça As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare (ele traduziu como As Alegres Matronas de Windsor), mas ele mexeu tanto na peça que eu leio com muito desgosto. Os personagens Evans e Caio, um ga-lês e um francês, falam um inglês defeituoso, que Millôr traduziu para um linguajar tão macarronado que não dá vontade de prosseguir na leitura. Seria o caso de se cantar, “tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim...”. No entanto, é inegável o gênio de Millôr como tradutor, pois as soluções que ele encontra para os jogos de palavras rimadas, os trocadilhos de duplo sentido e o significado oculto nos nomes dos personagens são dignos de uma grande tradução.

Música
Meu amigo Tácito Costa disse que está saturado de ficção e aí lembrei da canção de Caetano, O Homem Velho. “Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n roll/ Já tem coragem de saber que é imortal...”.

Literatura
Eu também já comecei a ficar de saco cheio de tudo quanto é livro que aparece na minha frente. Na dúvida, fico sempre com a leitura de algum clássico. Pode parecer sacanagem com novos autores, inclusive comigo mesmo, mas tem hora que só dá para ler o que é realmente bom.

Livros
Mesmo assim mantenho na minha estante muita coisa de autores novos, brasileiros e estrangeiros. Sempre que posso dou uma olhada e dou dez páginas de lambuja para o cara me interessar. Se não passar disso, o livro vai direto para uma sacola que levo para os sebos da cidade ou dou de presente às pessoas que eu gosto e que tento incentivar à leitura. A vida é muito curta para tanto livro.

Religião
Numa coisa eu concordo com o papa Bento 16, Herr Ratzinger: as missas deveriam voltar a ter música sacra. Outro dia fui a uma missa em homenagem a um amigo e qual a minha surpresa e escândalo quando começaram a tocar durante a comunhão um... pasmem... Bolero! Meus caros amigos, quem conhece um pouco de música sabe das origens deste majestoso estilo musical saído do mais fundo dos cabarés da América Latina, México, Cuba, Caribe, uh, lá, lá! Assim fica difícil conversar com Deus.

Música
Não páro de escutar o disco novo da Nação Zumbi. Jorge Du Pei-xe e Lúcio Maia são dois gênios da raça. Mas de vez em quando preciso voltar a Nora Jones para dar uma refrescada na alma jazz que trago dentro de mim.

Cinema
Vi aquele filminho simpático Pequena Miss Sunshine e achei o roteiro muito bem bolado. Para um road movie que tem um adolescente fissurado em Nietzsche, um gay especialista em Proust, um velho tarado e uma menininha gorducha muito simpática, vale a pena ver aquela família de fracassados nos ensinando o quanto devemos amar nossos familiares.

Mais cinema
Vi, finalmente, O Homem que Desafiou o Diabo, baseado no livro de Nei Leandro de Castro e posso dizer sem um pingo de remorso que o livro é muito, muito, melhor que o filme. O esforço de Bráulio Tavares de adaptar o livro para o cinema é louvável, mas creio que ele fracassou fragorosamente quando o roteiro foi transformado em filme, e talvez nem tenha culpa disso. O que se vê na tela é um perfume das Pelejas de Ojuara, sem quase nenhuma relação com o que o autor do livro quis dizer com relação à cultura potiguar. A idéia de criar uma “Rosebud” (referência ao trenó do filme Cidadão Kane, de Orson Welles) com o patacão e trazer o Diabo Miúdo para o centro da trama só foi boa porque o ator Hélio Vasconcelos foi divino na criação do personagem. São dois momentos altos no filme quando ele aparece. Mas qualquer pessoa que queira realmente fazer a viagem de Ojuara pelos confins do Rio Grande do Norte deve comprar o bilhete de passagem numa livraria, comprando o livro de Nei Leandro.

Roteiro
Para quem ainda não leu o livro (ou para quem leu e ainda quer curtir um pouquinho), estou postando, juntamente com esta coluna, um roteiro de viagem que fiz a partir da leitura do livro de Nei Leandro de Castro, quando eu soube que o livro ia ser filmado.


UMA CARTOGRAFIA DAS PELEJAS DE OJUARA

Quando eu soube que Barretão ia filmar As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro corri para meu exemplar do livro, não apenas para rever as deliciosas peripécias de nosso herói, mas principalmente para saborear o mapeamento mental que o escritor fez de nossa terra, nossos topônimos, nossas glebas. A primeira frase do livro diz; “Num certo lugar do mapa, cujo contorno lembra um elefante mal-ajambrado, nasceu Ojuara”.

Pronto, este é o ponto de partida da nossa viagem rumo a nós mesmos. Enfim, esse nosso mal desenhado Rio Grande do Norte, essa capitania mal fadada, fazenda de gado para holandeses, passa a figurar no mapa nacional. Pelo menos no que tange a imaginação. A cidade onde o herói nasce não é uma qualquer. É Jardim dos Caiacós e o som que essas palavras provocam em nosso imaginário de caminhadores desbaravadores litorâneos sertão adentro, é como um aboio, uma toada distante que vem despertar nossos sentidos.

Mais adiante vamos encontrar o registro: “- Peço a palavra! - gritou alguém da última fila e o padre Zé Pendência reconheceu, com um calafrio, a voz de bêbado. Era o boêmio Albimar de Florânia, já cheio de cana, que não podia ouvir discurso sem pedir apartes”. Numa tacada só dois municípios, duas cidades vêm à tona como num soluço de bêbado. “Na sobremesa tinha dezesseis qualidades de doces caseiros, todos feitos por dona Alice, a melhor doceira do Seridó”. A gente chega a sentir o gosto do chouriço retirado da lata de leite Ninho. “O bolo de casamento foi encomendado em Natal (...)”. Quantas confeiteiras natalenses vêm à nossa mente nessa hora. Esta é a primeira de muitas citações a Natal, a terra natal de todos que chegam por aqui e não querem mais voltar. Citações que vão logo lembrar a rua 15 de novembro.

É hilário o estudo, zombeteira-mente sério, que o autor faz sobre a origem do nome Ojuara. O herói seria descendente do último homem a atravessar o estreito de Bering e veio andando até chegar ao Seridó.

Quando chegamos na segunda parte do livro sobre “as andanças de Ojuara pelo mundo sem porteira. Suas brigas, sua glória, fodelança a vida inteira”, é que vamos entrar de vez em nosso assunto, a cartografia do imaginário. “A primeira viagem que Ojuara fez foi a São Saruê”. Aqui o autor apresenta a sua maior influência, a literatura de cordel, pelas mãos do poeta paraibano de Guarabira, Manoel Camilo dos Santos, um dos maiores nomes do cordel nacional que veio a falecer em Campina Grande do ano de 1979.

Depois de pegar carona no Pavão Misterioso, Ojuara foi deixado na esquina da Paraíba com o Rio Grande do Norte, aí pegou o cavalo Peguassu, uma versão potiguar do cavalo mitológico Pegasus. “Quando chegaram em Pau dos Ferros, a cidadezinha já dormia (...)”. Começa uma nova aventura de nosso herói. Ali começou a ouvir a história da Mãe de Pantanha. É interessante lembrar aqui a referência que o autor faz aos “licores de um bruxo de apipucos”, Gilberto Freire, de Casa Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso, fundamentais para a compreensão da formação do povo brasileiro. Uma pista preciosa do autor para as leituras necessárias de quem deseja escrever um grande livro.
Ojuara segue em frente e no caminho dá um bom cochilo. “Que cochilo foi esse, quando abriu os olhos e deu fé estava chegando na cidade de Assuaçu”. A brincadeira que o autor faz com os dois nomes com que se grafa o topônimo da cidade do vale, desperta o leitor atento do cochilo em que ameaçava ca-ir. É a homenagem do autor ao poeta popular Moisés Sesyom. É preciso atentar para os anagramas em cada nome. Ojuara poder um mero Araújo ao contrário. E Sesyom é seu próprio nome no espelho com grafia diferente. Mas não vamos cochilar. Mai na frente ele diz: “O coronel Quinca Saldanha tinha um compadre em Catolé do Rocha”. Mais uma vez a imaginação viaja em um tapete mágico e agora volta ao sertão. Catolé do Rocha, a cidade de Chico César, o mais potiguar dos paraibanos.

Quando o viajante das palavras já anda meio esquecido dos mapas aí vem outra lapada: “Nesse sábado, alguém tinha trazido de Macaíba uma doida que conseguia uns peidos formidáveis depois de comer angu”. O som da flatulência nos leva direto para a foz do Potengi. No meio do caminho nosso herói não custa lembrar que o Pavão Misterioso havia vindo lá das bandas da Grécia. Ainda estamos em nosso terreno. A puta que tentou roubar Peguassu de Ojuara tomou um susto tão grande que foi acabar num convento em Recife. E a Mãe de Pantanha “vivia sozinha numa fazenda entre Florânia e Caiçara do Rio do Vento. O autor se diverte com o som das palavras.

Mas nosso herói iria atrás da Mãe de Pantanha nem que fosse nos Cafundós de Judas. Em sua vi-agem de Florânia a Caiçara do Rio do Vento, Ojuara dá uma paradinha em São José da Passagem. Depois segue em frente ao encontro de sua desejada Mãe de Pantanha. Toda essa passagem tem o gosto medieval das canções de gesta, dos romances de cavalaria. O leitor cuidadoso vai ver aí as influências de Miguel de Cervantes e permeando tudo o gosto pelo escatológico em Rabelais.

Daí nossa história segue sozinha para a Serra do Feiticeiro, onde Natal ressurge no relato do negro Tião Pé-de-Santo. Agora estamos nos fundos da Igreja do Galo, num boteco que bem pode ser o bar do Coelho. É ali que se passa a história do lava-pés que Tião tem para con-tar. Depois o galego Assis conta sua história do Pirarucu, no açude Itans, de Caicó. Enquanto conta a história ele se refere a algo que é conhecido no Rio ou São Paulo e de um cabo que conhecia Europa, França e Bahia.

Saindo dali, Ojuara segue em trote lento quando tem um encontro com Celso da Silva, que qualquer natalense bem vivido vai saber que é o poeta Celso da Silveira. Ojuara quer seguir em frente, diz que ficou enjoado de Caiçara do Rio do Vento, que só gostou do nome. “Parece até invenção de poeta”. Convida o colega para ir até Ceará-Mirim. “Estavam entre Poço Branco e Taipu”. Depois de muita comilança e bebedeira no vale, Ojuara decide ir a Taipu para um encontro de poetas. Taipu, terra dos papagaios, daí ser motivo de ofensa dizer para qualquer taipuense a frase nefasta, “dá o pé louro”. É aí que ocorre a história de Zé Tabacão, o terror das putas. Quando Ojuara enfrenta Zé em uma briga memorável é sur-prendido com uma nuvem de gafanhotos. Aí vem a lembrança de uma peste igual a que houve em Areia de Baraúna, na Paraíba. “Também em Café do Vento (...). Em Salgadinho também”. Os gafanhotos comeram tudo que era verde em Taipu, inclusive os papagaios.

Se não houve o encontro de poetas em Taipu, então houve um em Ceará-Mirim. Vaquejada e encontro de poetas, uma combinação rara. Veio gente de Passa e Fica, Angicos, Taipu, Assuaçu, Mossoró e Natal só para ouvir os versos e beber. Mas Ojuara não participou da festa. Depois de vários dias na folgança em Taipu, nosso herói decide partir para Santo Antônio do Salto da Onça, como sempre atraído pelo som das palavras. Aí ele conta a lenda que dá origem ao topônimo. “Se a nova denominação adotada pelo povo não consta no mapa, a culpa é da caturrice dos cartógrafos”.

Ojuara passa um bom tempo desfiando a história do Boi Mandingueiro, em uma fazenda neste lugar. Aí surgem referências a Currais Novos e uma escultura feita por Jordão e a uns camarões da Ilha de Alagamar, em Macau. Aí se dá a história de amor entre nosso herói e Leonor, cheia de referências literárias e tiradas irônicas com personagens do mundo literário potiguar (para deleite de alguns) e ele segue em frente mais uma vez.

Na terceira parte do livro, ao re-encontrar o moleque Zé Pretinho, Ojuara lembra que já tinha tomado uns goles com ele em Grossos. Zé Pretinho estava indo ao Piauí participar de uma peleja de viola com o Cego Aderaldo, que ainda não usa walkman. Nosso herói pensou em tomar uns banhos de mar em Tibau, mas preferiu tomar de volta o caminho do sertão, rumo a Jucurutu. Pena que ele não atravessou o rio Ivipanim e foi ouvir e contar histórias no mercado público de Areia Branca. No caminho encontrou Mossoró em festa pelas resistência ao bando de Lampião. Ainda foi para à beira do Rio do Carmo, mas deu a volta. Foi para Upanema,, depois Paraú. “Jucurutu é uma cidade pegando fogo”. É aí que ele narra sua luta com o marchante Pacheco Gurgel e como alguém consegue retirar prego de uma tábua com um orifício do corpo. Impublicável, creio, pelo menos em revistas culturais. Vinha gente de Natal, Mossoró, Campina Grande e Juazeiro do Padre Cícero, para ver o feito. A história termina neste lugar, com o romance entre Ojuara e a mulher alicate. No final, no finalzinho mesmo, há uma referência a Juanduí, o índio, a aranha, não a ci-dade Janduís. O livro começou a ser escrito em Lincoln Park, Chicago e foi concluído e Capim Macio, Natal. Ironicamente durante um carnaval.




Incluído em: 04/03/2008


Não ele não está morto ainda apesar de tudo. Neste momento vive aqui neste apartamento apertado de um bairro antigo do Rio de Janeiro e eu não sei bem explicar direito como veio parar aqui. Só sei que na maioria das vezes não me responde, talvez fingindo não me ver e quando fala se exprime quase sempre em inglês, algumas vezes com forte sotaque irlandês e muito freqüentemente em francês. Abril passou, maio passou, o São João passou e até mesmo a festa da liberdade, que ele pensa ter comemorado em Nova York, também passou. Todas as festas passaram e outras se repetiram e ele ainda está aqui entre nós. Quando lhe pergunto o que sente, responde invariavelmente com um desdém insuportável. “Podia morrer hoje, se quisesse, apenas fazendo um pequeno esforço, se eu pudesse querer, se eu pudesse fazer um esforço. Mas não me custa nada me deixar, quietinho, sem precipitar as coisas.”

Pobre Malone, quem diria, acabou no Irajá. Bem, assim no modo de dizer, pois o apartamento fica na verdade em Copacabana. Todos os dias se queixando das palpitações. Digo para ele, que seria bem mais simples se a gente saísse um pouco para uma visita ao médico no Miguel Couto, uma consulta pelo Sistema Único de Saúde. Mas ele me responde com rispidez. “Não posso utilizar o serviço público, pois sou estrangeiro”. Além do mais depois que veio para cá tem ficado menos sujeito às palpitações. O que me intriga é como ele sabe que é estrangeiro e como veio parar aqui se não podia andar. De minha parte tento satisfazer suas vontades como boa enfermeiro que sou, mas agora acho que também sou uma boa tradutora.

De vez em quando fica impaciente e diz que precisa muito se proteger deles, mas não me responde quando pergunto, de quem? Quando começa a chorar e rir ao mesmo tempo sem parar. É assustador. Depois me promete que será mais discreto, mais equilibrado como todo mundo. Promete ser menos egoísta. Porque para mim o que ele é mesmo é um tremendo de um egoísta, com essa sua eterna mania de doença. Ao que responde com ironia disfarçada. “Não vou mais ser nem quente nem frio, vou ser morno, vou morrer morno, sem entusiasmo.”

Essas coisas me aborrecem, porque outro dia tive que tirar o espelho do quarto quando ele cismou que não queria mais se ver morrendo, já que nunca havia se olhado vivendo. Pelo menos foi o que argumentou. Então me disse que estava contente. “Mas não a ponto de bater palmas”. Contente por quê? Fiquei horas inteiras matutando enquanto voltava para casa no trem da Central. Porque, por acaso, ele achava que seria reembolsado por sua vidinha medíocre de funcionário público num recanto qualquer da França ou da Irlanda? Talvez como um secretariozinho obediente de alguém? Vai ver ele olha para Deus e diz “lá está ele, meu velho credor”. Teimoso, sujeito teimoso. Não quer responder às minhas perguntas. Prefere falar em coisas mórbidas, dizer em francês que finalmente vão poder enterrá-lo e não vê-lo mais na superfície. Quem é ele para decidir se e quando vai morrer? Sei bem que para mim esse negócio de Deus não faz muito sentido não. Acho que somos obra do acaso, meros fungos com inteligência suficiente para saber de nossa finitude, nossa condição miserável de reles mortais. Só isso. O resto é religião e superstição. E um rio de literatura. Vejo que ele, como um velho escritor decadente, decidiu que vai contar histórias que não sejam bonitas nem feias, mas sempre calmas. “Nem fealdade nem beleza nem febre, vão ser quase sem vida, como o narrador”. No dia em que fui perguntar se ele achava que o escritor encontra a glória por acaso, ouvi uma resposta rude. “Não perdôo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz e, depois, os fogos e gelos do inferno e um nome honrado entre as execráveis gerações que virão”. Estragou minha tarde.

Quando a noite chegou e eu já estava atrasada para ir embora. Então resolvi me deixar ficar um pouco e fazer umas perguntas mais agudas. Descobri que ele decidira criar um novo jogo com aquelas histórias. Não mais os antigos jogos de imaginação, em que um corcunda poderia aparecer para fazer um passe de dança, e ser imediatamente ridicularizado quando ele o pedisse para tirar a roupa. Esse tipo de maldade era bem típico dele. Um dia me perguntou se estávamos perto do mar. Fui ríspida. “É claro que estamos perto do mar, bocó, afinal estamos em Copacabana!” Tive vontade de dizer mais, mas fiquei calada diante de sua incomensurável impotência. Fechei as cortinas para que as pessoas do apartamento em frente não ficassem olhando com a costumeira curiosidade para sua cabeçorra grisalha. Aí ele começou a me contar como foi sua estada em Londres. Toda essa história, ele foi me contando no mais puro inglês, pontuado de vez em quando por um pouco de cockney. The moon, the moon is beautiful in London. “Me interessei um pouco por estrelas, aqui. Mas acho que isso não é bem o meu negócio. Olhando para elas, uma noite, de repente, me vi em Londres. Será possível que eu tenha ido até Londres? E que é que as estrelas têm a ver com essa cidade?” Nessas horas me impaciento e peço para que fique calado. Às vezes ele me obedece. Parava de vez em quando essa algaravia para ver as nuvens e os passarinhos na janela. “É de derreter o coração. Batem no vidro com o bico. Nunca lhes dei coisa alguma. Mas voltam sempre. Que é que estão esperando?” Por isso todos os dias eu ia lá e jogava migalhas de pão no parapeito só para contrariá-lo. Sempre esperava ele dormir para fazer isso. Não era bom ficar muito tempo perto dele. Depois coloco a comida na mesinha ao lado e saio. É uma mesa de rodinhas e sirvo sempre sopa. Acho que ele não tem mais dentes. Troco o urinol que ele insiste em colocar sobre a mesinha ao lado do prato vazio. Em seguida vou cuidar de minhas coisas, limpar a casa, lavar a louça e depois deitar no sofá para ler algo, ver alguma coisa na TV. Tenho me aprimorado em inglês. Gosto de ficar vendo os noticiários da BBC e aos poucos estou entendendo a língua desses bárbaros bretões.

Ele é um sujeito esquisito demais. Não usa as roupas que coloco ao lado da cama, não toma banho nunca. Às vezes o vejo molhando o dedo na boca com saliva e o esfregando contra o corpo. Porco. Um dia comprei uma bengala bem legal num antiquário lá do Largo da Carioca e dei de presente a ele. Porém, não tive esperanças de que a usasse para se levantar. Na verdade ele a usa para puxar as coisas do quarto para junto de si. Às vezes percebo que ele olha para mim como se eu fosse uma velha. Não sou velha. Já passei dos 40, mas não sou mais velha que ele. Ele não sabe dizer sua idade. Acha que tem mais de 90. Mas acho que ele é uma espécie de Chet Baker, sabe? Quando morreu, o médico achou que tinha mais de 80, mas o homem era moço ainda, estragado pelas drogas. Mas que saxofone divino... Qualquer dia vou trazer um de meus discos para ele ouvir, creio que vá gostar. Ele remexe na cama provocando o ranger do colchão e resmunga alguma coisa. “Sei o ano em que nasci, não esqueci, mas não sei em que ano vim parar aqui.”

Um dia cheguei cedo e ele estrava tendo um daqueles pesadelos, falava coisas sem nexo. Cheguei mais perto e ele acordou. Acho que estava tendo um ataque de paranóia. “Ele também me procura, como sempre, onde ninguém vai me encontrar”. Eu já estava começando a entrar em pânico, gritando agoniada, ele quem? Ele quem? “Saposcat. Como seu pai. Primeiro nome? Não sei. Nem vai precisar. Os amigos o chamam Sapo”. Ele não sabia me dizer que amigos eram aqueles. Só sabia que Saposcat era um garoto precoce que não era bem dotado para os estudos e não via nenhuma utilidade neles. Assistia as aulas com o espírito ausente. No entanto gostava de fazer contas. Não do jeito que o professor queria, mas do seu jeito. Gostava de manipular números concretos. “Todo cálculo lhe parecia supérfluo quando a natureza da unidade não era especificada. Em público ou em particular, gostava de fazer cálculos mentais. E os valores que fazia girar em sua mente a invadiam com cores e formas.”

Assim todos os dias ele ia me contando trechos dessa história que para mim não passava de mais uma invenção de sua mente doentia. Era a história de uma família inglesa, provavelmente da classe operária, que vivia com dificuldades para conseguir o sustento e garantir o mínimo de saúde. Havia também uma preocupação com jardins já que essa é reconhecidamente uma mania inglesa. Ou melhor, uma despreocupação com jardins, pois o jardim de sua casa era uma droga. “A vida dos Saposcat estava cheia de princípios absolutos, um dos quais estabelecia o criminoso absurdo de um jardim sem rosas com caminhos e trepadeiras mal-cuidadas”. O garoto ficava escutando os pais planejarem plantar verduras no jardim para depois desistirem diante do preço absurdo do adubo. Ficava escutando os pais dizerem que melhor seria morrer, pois assim economizariam com médicos e farmácias. “Era como se os Saposcat tirassem a força de viver da perspectiva de sua impotência”. Ora, eu dizia, mas não é assim mesmo com o povo brasileiro, seu Malone? E ele olhava para mim com seus olhos espantados como se eu estivesse falando de extra-terrestres.

Eu voltava para casa no trem da Central olhando as fisionomias das pessoas. Alguns tão tristes pensando no inferno do escritório, no chefe escroto que o perseguia todos os dias, só para se divertir e encontrar um gostinho de poder naquela merda toda. Outros felizes de cachaça entoando um sambinha silencioso em seus cérebros embotados, sonhando com o sexo casual que teriam com suas patroas depois de assistirem ao jogo no boteco da esquina. Muitos de cara fechada, pensando no noticiário que destampara o esgoto da corrupção permanente que corroía as riquezas do país, a aposentadoria frustrada, o plano de saúde. Havia também os que esperavam apenas chegar em casa para tomar uma sopa com pão diante da TV acompanhando mais um capítulo daquela novela que mostrava aquela gente tão bonita a rica em seus iates. De onde eles tirariam tanto dinheiro para aqueles jantares, carros, roupas finas, apartamentos de luxo? Iam dormir tranqüilos em sua alienação, porque não queriam pensar muito naquilo. Eu olhava para eles e sentia o quanto era grande a minha impotência, tão maior que a de Malone entrevado em sua cama.

No dia seguinte ele retomava a história de onde tinha interrompido. Acho que ele passava a noite pensando nisso. “Sapo olhava o rosto do pai, triste, espantado, afetuoso, decepcionado, confiante talvez. Será que pensava na fuga implacável dos anos ou no tempo