Babilônia em chamas: sobre os R$500 mil recebidos pela colunista social

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Remunerado com o piso salarial da categoria, um jornalista potiguar trabalha 26 anos para acumular ganhos próximos a R$500 mil.

É a realidade para quem escreve, apresenta ou fotografa todo dia, finais de semana inclusos, em rádios, tevês, jornais, blogs, portais, etc.

Profissão difundida com a Revolução Industrial, até começo do século XX, o jornalista era o primo pobre de quem laborava palavras e conhecimento.

Tinha o romancista, o poeta, o sociólogo, o contista e lá estava ele na rabeira dos ‘intelectuais’, como alguém menos lúdico e profundo. Mas ali era seu lugar.

Tanto que essa turma intercambiava competências – Émile Zola, Gabriel Garcia Márquez e George Orwell que o digam; Karl Marx escreveu para jornais ingleses.

A mudança começou com a ascensão americana como nação mais rica do mundo e, portanto, de maior influência cultural.

Vieram os leads, os subleads, a estandardização da notícia para o leitor urbano, sempre apressado, sem tempo para firulas textuais.

Dizer quem fez o quê, onde, quando e por que logo no primeiro parágrafo virou obsessão. Estudos atestavam a eficácia do formato.

Desde a década de 1950 é o modelo adotado pela grande mídia – viramos técnicos da informação.

Row of businesspeople with question marks signs in front of their faces

Mascates da notícia

Com isso, o profissional pouco afeito a livros se questionou:

Para quê estudar, aprofundar assuntos, se o povo quer apenas o fato puro e simples contado logo nas primeiras linhas?

Então ele passou a preencher um formulário com as cinco perguntinhas básicas e entremeá-las com ligeiras falas dos entrevistados.

Esse tipo de jornalista virou maioria nas redações.

No caso natalense, a esmagadora maioria – em um lugar com alto índice de analfabetos inteiros ou funcionais, uma tragédia.

Como em todo segmento de trabalho cuja capacitação dos profissionais é baixa, o salário acompanhou a desvalorização.

Qual a solução encontrada? Ter dois, três empregos ou cavar uma vaguinha em assessorias de grupos políticos, em que o apurado se multiplica fácil.

Situações absurdas, como o sujeito ser editor de política de um jornal e assessor direto de um deputado federal, liderança de uma portentosa máquina eleitoreira e administrativa, viraram rotina.

Detalhe: ninguém da classe levanta a voz contra a prática esquisita.

Sempre me questionei como alguns colegas ganham 30, 40 mil reais em campanhas eleitorais, por meros quatro meses de labuta.

O valor é mais que o dobro do que ele recebe na plena execução do ofício em uma empresa jornalística, em um ano!

A internet quebrou parte dessa engrenagem nefasta, ao facilitar o empreendedorismo na comunicação, mas ainda vigora a regra do compadrio, do brother na secretaria ou, melhor, ao lado de um poderoso chefão.

Como cobrar por uma boa educação pública, se os mantenedores dos principais jornalistas de uma cidade são donos da verba estatal?

E sem educação, quem danado quer ler algo substantivo?

Somos uma pátria mal educada, informada por gente enroscada até a medula com uma classe política cada vez mais bandida – digo, salvo raras exceções, antes que me apedrejem.

O episódio com a colunista social Hilneth Correia, acusada pelo Ministério Público potiguar de ter recebido R$500 mil da Assembleia Legislativa do Estado como remuneração sem “contraprestação laborativa”, deve ser encarado como estertor de uma era promíscua, degradante e falida para o jornalismo.

ainda-somos-os-mesmos_3Povo chique, celebração elegante

Atacada nas redes sociais, Hilneth concedeu entrevista ao portal G1-RN, na qual disse:

“Sou jornalista, sou assessora de imprensa, sempre fiz o meu serviço através dos meios de comunicação. Sempre estive presente nos eventos da Assembleia, sempre noticiei. Atualmente sou lotada no memorial da Assembleia e em breve vou estrear um programa de rádio sobre o memorial. Antes eu não ia todos os dias. Eu ia em alguns dias da semana. Muita gente trabalha mais fora do que dentro e hoje em dia com internet, computador, se faz esse trabalho de qualquer lugar”.

Pois bem.

Uma rápida vasculhada em seus perfis no Twitter e no Facebook (o Instagram é privado), revela pouco, quase nada de temas relativos à Assembleia Legislativa.

A colunista social gosta de compartilhar links sobre a Lava Jato, de viagens diplomáticas de Michel Temer à Índia, de retuitar quem usa a palavra Petralha, mas faltou o trabalho da assessoria. Ou as notinhas da Tribuna do Norte valem meio milhão de reais?

babilonia-em-chamasSegundo o MP-RN, ela era uma funcionária fantasma e terá de devolver a grana pública. Pergunto: E quem a botou no cargo assombroso, não pega nada?

Hilneth compartilha fotos de “povo chique”, em “celebração elegante”, como está escrito em seu Twitter.

Já no site recém-inaugurado, tem uma nota sobre a precariedade do salário mínimo brasileiro, aquela merreca que mal paga um jantar às margens do Mediterrâneo (também exibidos em fotografias de viagens).

Frase de seu marketing profissional: “Notas tops da cidade”.

O processo ainda vai correr, talvez não dê um nada. Desconfio que os amigos surjam em peso para dizer o quanto ela é gente boa, amiga, generosa, do bem.

“Você tá com inveja!”, grita um comparsa na fulminada que essa gente tem dado no jornalismo como coisa séria. ´

Estou demais, principalmente do juiz criminal que expôs algo tão comum no meio jornalístico potiguar.

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Comentários

11 comments

  1. CARLOS HENRIQUE PESSOA CUNHA 9 novembro, 2016 at 08:11

    Texto muito bom, sem enrolação nem corporativismo, direto e certeiro.
    Parabéns!
    Precisamos urgentemente de mais iniciativas como o Substantivo Plural.

  2. Diogo Guanabara 9 novembro, 2016 at 11:04

    Textaço!
    Dá uma breve pincelada sobre como chegamos nesse nível jornalismo deprimente amplamente praticado por essas bandas.
    A ditadura dos cruzeteiros. Qualquer jornalista que ouse nao seguir a cartilha é prontamente ridicularizado e chamado de “revolucionário” ou coisa do tipo.
    Parabéns a voce e aos demais que resistem e nao compactuam com as ideias sujas da manipulação em massa.
    Sobre Hilneth, acho que ela deva pagar centavo por centavo, mas ali tb tem muito peixe graúdo que ninguém ta nem falando, escolheram ela pra bode expiatório, mas se cutucarem aquela gaveta direitinho vai sair muita coisa… hehehe

  3. Antonio Nahud 10 novembro, 2016 at 10:38

    Por que só denunciar Hilneth? Estranho, não. Um texto corajoso tem que ir mais longe, mostrar diversas facetas da mesma situação. E a blogueira que teve aniversário pago com grana municipal no tempo de Micarla? E a colunista de um grande jornal que é paga mensalmente pelo PT? E a revista que sai mensalmente bancada pelo PMDB? E outros famosos colunistas/jornalistas que também recebem da Assembleia sem trabalhar? E escritores/jornalistas que superfaturam a Lei Rouanet? E os pequenos jornais bancados pelo PT? E o pessoal da inútil Fundação José Augusto que por amizade tem salário todo mês? A lista é grande, caro Conrado. Ou entrega todo mundo (inclusive muitos amigos nossos) ou se cala para sempre. Atacar um só não é justo.

  4. Conrado Carlos 10 novembro, 2016 at 15:12

    Foi só um artigo com 800 e poucas palavras, poeta. Quis aproveitar o fato mais recente para estimular o debate sobre várias práticas esquisitas. Já pensou eu encher o texto com todos os casos envolvendo jornalistas e o poder público na história do Rio Grande do Norte? Por aqui a coisa corre solta desde o século XIX, com os primeiros periódicos. Para mim, perderia o sentido do agora, da urgência, da discussão atual e para o futuro, recapitular tudo em um só escrito.

  5. Conrado Carlos 10 novembro, 2016 at 15:17

    Obrigado, Diogo! A luta é exatamente essa que disse: se manter fiel aos princípios do jornalismo, sem colar em grupo político ou atacar qualquer um indiscriminadamente, sem trairagem. Abraço!

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