Como o verão segue a primavera
26 de julho de 2010 às 19:00 - 4 Comentários“Sentiu um peso, mas não era o peso do fardo e sim da insustentável leveza do ser”
Milan Kundera
Assim como o verão segue a primavera foi-se feito o rincão de todos nós. O local do qual ninguém escapará por não evitar a desgraça suprema. A trágica morte que nem com coroas de quase jardins e pavios cheirosos consegue aliviar a profundeza dos sete palmos do sepulcro. A bestial rainha que não cansa de reinar um só segundo, ceifando a todo tipo de gente. Do meu vizinho ao emérito ministro, do desleixado até quem pensa muito nisso, do zelador ao doutor, do sapateiro Luís ao emérito Juiz Joaquim Barbosa Nabuco Castro de Alves Bourbom. Todos chagam dessa peste maior e nela velam e são velados. Não voltaremos deste labirinto sem porta de saída, porque todos morreremos e nisso não há volta. Não há fortuna que dê jeito, lábia que amoleça ou rebolado que entonteça. Dela não voltaremos (só em assombração). E nisso não há eufemismos.
Ele viu-se no espelho do lago em seu maior horror e nisso não teve sorte. A bestial rainha levou-o tão depressa que sequer pôde profanar. Engasgou molhado todo o peso da mal fadada vida e dela finalmente logo livrou-se. Toda a gente em volta comprovou mais um espetáculo da vida. Sim, a morte é um espetáculo que tem prelúdio em vida. Ninguém acanhou-se de não ajudá-lo. Ninguém quis ao menos fazer o sinal da cruz. E toda essa falta de religião não é boa para o povo não, é intemperança da mais séria. Não interessa. Todo aquele povo queria vê-lo morrer em mar seco de eufemismo. O porquê disto é presumido só se levarmos o moribundo para um pouco antes do seu inesperado fim.
Apesar de rapaz robusto, altivo e sabido além da conta, Félix cativava poucas pessoas, exceção das moças, de pronto. Por ter vindo da cidade grande, exercia certo feitiço sobre a gente daquele acanhado lugar. Ele adorava adornos de palavras. Louvava eufemismos. Não vivia uma situação grotesca, não em sua cabeça, pois tudo de sofrível era suavizado por aquela linguagem enrolada. Ah, aquelas palavras… Moldavam e mudavam praticamente tudo. Estava sempre a fugir dos dilemas que aparecessem. De alguns convivas ele não tinha respeito. De outros, tirava o máximo proveito. Sabe como é, bom falante em terra de iletrados é autoridade desde já constituída. Os eufemismos soavam para ele funcionais, apaziguadores, verdadeiras primazias da arte da língua. Exímia terapia, há quem diga.
Quando a avó morreu, ele falou aos filhos que ela foi coabitar entre as estrelas. Ao casar-se, propagou aos seus que os dias feitos de solidão agora eram pretérito. Quando galgou o cargo no banco, falou que o tempo mais do que nunca seria engrenagem de dinheiro. Em alguns casos as pessoas nem entendiam a situação, visto em tudo colocar firula. Até para ir ao banheiro Félix dizia ir acertar os ponteiros do seu relógio intestinal. Uns até achavam que ele era veado. Exceção das moças, claro.
Muito solerte, ele também sabia tirar proveito do que queria. Acaso quisesse uma garota, não era tão previsível, tão óbvio. Ia de mansinho, comendo pelas beiradas. Em pouco tempo virou o quindim de Iaiá, para desespero dos pífios homens que não podiam concorrer em atrevimento, digo inteligência, com ele. Com as meninas, era um algodão-doce: lia poemas, mostrava as fases da lua e era suave como o canto do bem-te-vi na quietude da aurora. Elas passavam mal de tanto deslumbramento. Eita que moço pra falar bonito! Dois meses depois, quando pretendia livrar-se delas, os olhos eram infantes e da boca ainda jorrava certo mel. “Tudo sempre acaba bem”- ele disparava com conveniente resignação.
Para aquele homem de mil encantos sentido algum naquela província havia. Nem beleza. Nem nobreza. Somente passadismos, efemérides. Todos eram tão iguais. Em resumo: insignificantes. Exceção das moças, mais uma vez. Diante disso, somente os eufemismos para acalantar. Ao final, as coisas nunca precisavam ser ditas como são. Bastava que já acontecessem. O próprio casamento era um todo de conquista e um todo de quimera. Não enxergava contentamento em casa. Extravasava besteiras e impropérios poucas vezes, pois nem para isso tinha saco. Os eufemismos tomaram conta dos seus ridículos dias.
E eis que no derradeiro dia aquele pequeno lugar fez todo o sentido. Aliás, todos os lugares fizeram um só sentido. Toda a vida fez a essência do sentido. O sentido real e uno de que nem tudo tem sentido, ou necessita dele. Finalmente percebeu. A sapiência dos percalços de nossos dias não é estratagema de poucos entendidos. Nossa existência é algo estupidamente real e urgente para que não sejamos tão prementes em sentir a vida. Viver, no seu sentido mais lato. Não se trata de exortar para que sejamos todos iguais ou displicentes. Isso nunca será possível. Algumas pessoas carregam asas nos olhos; outras carregam prensas. Não há como mudar. Os frutos do engano serão sentidos por tantos quanto ensaiem esta peça chamada “vita”. Mas como negar que um fato universal ali se apressava a caminhar para o rumo mais que certo, mais que infalível? Sim, a morte é soberana. Também infalível. Pode educar na hora mais inverosímil, e da forma mais reversa. Todos falham. Ela não. Nem adianta choro. Nem adianta filosofia. Félix não imaginava encontrar naquele escorrego o início de todo o sentido. O solerte nem imaginava se irmanar aos outros no terminal espanto. Enquanto caminhava na beira do lago que era caminho do pequeno Clube dos Bancários, ele escorregou rente às pedras que avizinhavam-se da parte funda. Tudo mais que depressa. Imergiu no lodo macio e quase invisível das duras rochas. Ao menos um eufemismo. Apesar do desespero, ninguém ouviu gritos. Ele desceu suave. Pôde enxergar através do espelho d’água que acobertava a cabeça todo o mundo que o azedume da sua antipatia ignorava. Outrora, teve covardia de amanhecer em quedas, de anoitecer entre retalhos. Pena. Acompanhou-se apenas de sua revolta. Depois, da auto-compaixão.
No velório, o grande comentário da província, a presença daquelas pessoas tão previsíveis. Não sabiam artifícios de linguagem. Não sabiam enfeitar a verdade dos fatos. Ainda não conseguiam entender as clausuras daquele homem: clausura das pessoas, clausura da própria vida, pelo menos em seus meandros. Pudera, ele nunca deixou-se transparecer. Exceção das moças, por fim. Viver dá trabalho. Furtar-se por esconderijos pode ser caminho, mas não destino que vingue bem. Os eufemismos acompanharam-no sempre, isso não é dúvida. Seguiu a viagem solitário. Livrou-se da vida que em tudo amargava-lhe. A inteligência nunca o permitiu um momento sem confusões.
Acabado o enterro, todos tomaram o rumo de suas casas. Ao cair o anoitecer, fez-se o churrasco já esperado há um mês, quando combinaram o aniversário de Antônio. O lugar era modesto, mas o forró era danado de animado. Entre brasas e bebidas geladas, os sorrisos inocentes dos que verdadeiramente têm maior suavidade nos dias, sem nenhum arrufo, sem anunciação de ordem alguma. A ciência das coisas nunca suavizará a complexidade da vida, às vezes pode complicar a nossa já tão combalida natureza. O homem simples não deixa de viver seus complexos. Não deixa de ser profuso e profundo. A diferença é que não encara com insuportável peso as circunstâncias mais indizíveis e perversas que vivemos. Nosso espelho sempre nos retorna uma única imagem. Se tolerável ou não, poderá depender apenas do incômodo de perceber-se observador e observado numa ótica de observação que é infinita ou da aparência da camisa, que de tão puída afrouxou as linhas dos botões e ao vestir deixou dois deles caírem.



4 Comentários
Tácito, o belo mar de rosas em que você imergiu meu texto foi o avesso do espelho d’água no qual o meu personagem afundou na perdição. Porém, ambos os “oceanos” apareceram na perspectiva do olhar de baixo, vislumbrando a infinitude do céu. A contraposição foi intencional? Brilhante.
Menos, poeta, menos – rs. Mas ainda bem que deu certo por caminhos tortos. Botei o Google para procurar uma foto da “Primavera”, que é citada logo no início do texto. As opções não eram muito interessantes, aquela foi a que achei mais adequada. abs.
DE EDJANE LINHARES:
Valeu a espera, Denise. Abraços.
Bravo Denise!
Texto primoroso como sempre.
O que posso dizer? A não ser refletir sobre suas palavras.
Grande beijo.