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Como (tentar) manipular a opinião pública

Ato na Rede Globo. Cinqüenta anos de manipulação. Ir
Sim Bibi, São Paulo,  26 de abril, de 2015. Foto: Roberto Parizotti.

Analisar o comportamento da cobertura da mídia, em especial, em momentos como o que estamos vivendo no Brasil, é importante. Afinal, a maioria das pessoas se informa basicamente pela televisão e, nesse sentido, analisar o sistema Globo (rádio, jornal e principalmente televisão) é de fundamental importância porque ela ainda tem os maiores índices de audiência.

É certo que existe hoje uma pluralidade de veículos alternativos, em especial, na internet como Diário do Centro do Mundo, o Cafezinho, Tijolaço, Esquerda Caviar, Mídia Ninja, Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Brasil 247, Revista Fórum, Viomundo blogues de Paulo Henrique Amorim (conversa afiada), Luis Nassif (Blog do Nassif), Rodrigo Vianna (escrevinhador) etc. que permitem acesso a informações e análises com uma visão alternativa à chamada Grande Mídia, mas é inegável a influência exercida pelo sistema globo (rádios, jornais e televisão).

E um momento privilegiado para analisar a cobertura da Rede Globo foi no dia 10 de maio de 2017, quando o ex-presidente Lula prestou depoimento ao juiz Sergio Moro em Curitiba. A jornalista Renata Mielli, da Mídia Ninja, publicou um artigo intitulado “O dia em que Lula nocauteou a Rede Globo” na qual ela acompanhou e analisou a cobertura da Rede Globo e mais especificamente a da Globonews. E começa se referindo “ao clima”, antes do depoimento, com os respectivos prognósticos de jornalistas e convidados. Havia a expectativa de que Lula seria massacrado. No entanto, com o início e o desenrolar do depoimento, o primarismo das perguntas e as (boas) respostas do ex-presidente, fizeram com que, como diz ela “a euforia inicial desse lugar à depressão”. Houve mais torcida contra Lula, do que análise isenta, como era de se esperar, pelo histórico e perfis dos jornalistas e convidados.

Quanto ao Jornal Nacional, no qual alguns trechos do depoimento foram ao ar , não houve tempo hábil de editar os primeiros vídeos disponibilizados pela Justiça Federal “e certa de que eles iriam terminar por afundar Lula e consagrar a Lava Jato e Sérgio Moro, a Globo arriscou e levou as imagens ao ar sem edição. Cometeu um grande erro. Lula nocauteou a Globo no 1º round”.

O que é importante salientar nesse processo é que, para a Rede Globo, não se tratava de um depoimento, no qual o réu teria todo o direito de defesa, mas de uma condenação prévia. Renata Mielli chama a atenção para a fala de uma das jornalistas da GloboNews, Cristiana Lobo, em relação aos prazos processuais, ao dizer que “Moro costuma demorar de 20 a 30 dias para tomar as decisões após os interrogatórios – palavra que a Globo utilizou durante todo dia para salientar que Lula estava em Curitiba como réu, acusado de crimes.

Condenado em primeira instância por Moro – já que em nenhum momento se aventou a hipótese de absolvição, aliás, Lula está condenado por Moro e pela Globo desde o início da operação – o processo vai para julgamento em segunda instância, o que costuma demorar um ano, de acordo com as suas previsões”. Isso significa afirmar que Lula, seria condenado (não há a hipótese de sua absolvição) até meados do próximo ano, o que o tornaria a sua candidatura inelegível no período das convenções partidárias, quando se define as candidaturas presidenciais.

Quanto aos argumentos de que Lula iria politizar o depoimento, o que era óbvio, era pura demagogia porque o tom da cobertura e não apenas do depoimento, fazia exatamente isso e sempre esteve muito longe da imparcialidade. O que se desejava e continua a desejar, na verdade é a condenação pública de Lula.

Ao analisar a cobertura da GloboNews, Renata Mielli, salienta que, como a cobertura não podia se ater apenas aos comentaristas no estúdio, era necessário mostrar imagens das manifestações tanto pró-Lula e como pró-Lava Jato. No entanto, como era claro a diferença numérica, a manifestação pró-Lula era muito maior, os poucos contrários a Lula, receberam menções simpáticas, ao contrário das milhares de pessoas em apoio ao Lula, cujos comentários era no sentido de saber quem será que está pagando as centenas de ônibus que chegaram a Curitiba etc.

À noite, a GloboNews veicula o primeiro vídeo com trechos do depoimento onde o juiz faz perguntas a Lula sobre o triplex ao contrário do que se esperava, ele estava sereno, atento às perguntas e respondendo calmamente a um juiz que, como foi demonstrado, não apresentou nenhuma prova contra ele e ainda teve de ouvir uma resposta irônica e precisa quando apresentou um documento sem assinatura. E, por razões óbvias, não foram exibidas as críticas que Lula fez a Mídia. Segundo dados apresentados por ele, desde março de 2014, a cobertura foi complemente parcial, tanto na mídia impressa como televisiva.

No jornal O Globo, por exemplo, foram 530 matérias contra ele e apenas oito favoráveis; só de capas das revistas semanais, como IstoÉ, Veja e ´Época, foram 25, 19 e 11 vezes respectivamente, obviamente, todas desfavoráveis. A mais recente capa da Veja (14 de maio de 2017), é uma das mais calhordas (“A morte dupla”, referência de D. Marisa, esposa de Lula), e Lula já anunciou que a revista “será responsabilizada judicialmente, na forma do artigo 12, parágrafo único, do Código Civil, pelo intolerável atentado à memória de D. Marisa por meio de mentiras e distorções”. Ele ainda destacou às 18 horas e 15 minutos do Jornal Nacional de ataques (sem direito de defesa), tudo “com informações vazadas da Polícia Federal e Ministério Público”, afirmando que mais do que o juiz, há um julgamento midiático do qual tem sido vítima e que “a imprensa é o principal julgador desse processo”.

Esse tipo de cobertura não é recente e em relação a Lula, vem desde a eleição de 1989, quando a Globo apoiou a eleição de Fernando Collor. O Manchetômetro (um web site criado por um grupo de pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro para funcionar como uma ferramenta de acompanhamento da grande mídia em tempo real durante as eleições de 2014) mostrou como houve, antes e durante as eleições de 2014, uma abundância de notícias negativas sobre a economia do país, assim como a existência de um forte viés contrário a então candidata Dilma Rousseff e a seu partido, o PT. E o levantamento e análises continuaram após o impeachment e a posse de Michel Temer.

No artigo “De Dilma a Temer: o cão de guarda e a lua de mel”, Luna de Oliveira Sassara, Lidiane Rezende Vieira, Eduardo Barbabela e João Feres Junior constatam que, com a ascensão de Temer, o enquadramento das notícias que tratam da política nacional se tornou menos negativo, mesmo considerando fatos relevantes como a substituição de ministros atingidos por escândalos, a ocupação de escolas em resposta à reforma do Ensino Médio, a polêmica Reforma da Previdência, que levou milhares de pessoas às ruas em protesto, as rebeliões em unidades penitenciárias, a chamada Operação Carne Fraca da Polícia Federal, na qual várias empresas foram acusadas de adulterar carnes vendidas tanto no mercado interno quanto no externo etc.

O fato é que “o número de notícias contrárias ao governo começou uma trajetória de queda, em que pese os temas que ‘foram objeto de intensa controvérsia pública’, mas que não se refletiu na cobertura dos veículos estudados” e finalizam o artigo afirmando que “No Brasil, aqueles que se vendem como cães de guarda do interesse público se comportam, na verdade, como uma facção militante cuja agenda política é explicitamente pró-mercado, pró-capital financeiro e contra o Estado, particularmente contra uma concepção de estado de bem-estar social. A alegoria do cão de guarda que se aplica ao caso brasileiro não é aquela da proteção contra agressão externa. O interesse público no Brasil está encerrado em uma prisão, e o cão de guarda na verdade tem a função de evitar que ele se liberte dela e possa então ganhar expressão e vida próprias”.

A cobertura do dia 10 de maio de 2017 em relação a Lula foi apenas um “Round”. Outros enfrentamentos com a justiça e com o oligopólio da mídia virão, mas o que se espera é que Estado Democrático de Direito seja vencedor, garantindo a liberdade de imprensa para que, matérias como essa possam ser veiculadas e sirvam de reflexão sobre a cobertura midiática no Brasil e os perigos da parcialidade e da manipulação das informações e que haja um julgamento justo baseado em provas e não em conjecturas e “convicções” de quem quer que seja.

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Homero Costa

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