Como você também pode escrever um bestseller

5 de março de 2010 às 18:50 - Comentar

Por Paulo Nogueira
Época

ESTRÉIA A SEMANA QUE vem aqui em Londres “A Menina com a Tatuagem de Dragão”, filme baseado no romance homônimo do sueco Stieg Larsson. (No Brasil, assim como no original sueco, o título é “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Cartazes no metrô para divulgar o filme, espectativa geral, livros que não param de vender. O trailer, como você pode ver, instiga. Larsson virou obsessão literária planetária. Os últimos números falam em 22 milhões de exemplares vendidos de sua Trilogia do Milênio, da qual “A Menina com …” é a primeira etapa.

Peguei para ler. Bem, é conhecida a história de Larsson. Falei dela outro dia aqui no Diário. Um jornalista com carreira encalhada, muito cigarro e café, sedentário, um sonho de acertar na vida escrevendo bestsellers e o sucesso extraordinário quando ele mal acabara de morrer, vítima de um enfarto quando subia as escadas de seu escritório a pé porque o elevador estava pifado.

Não é edificante a briga que travam hoje, no tribunal sueco, a viúva e o pai em torno do espólio milionário. Larsson e Eva Gabrielsson não eram casados legalmente porque era vantajoso para eles, embora ela tenha uma tese menos prosaica para justificar o não comparecimento ao cartório. Ele não fez testamento, o que não é surpresa, já que não tinha nada. Morava com Eva num apartamento alugado. A legislação da Suécia, ao contrário da brasileira, não protege as concubinas. O dinheiro foi para o pai e o irmão de Larsson, e Eva luta para mudar isso.

Bem, li e decifrei o primeiro livro. Melhor: decifrei a fórmula, como se fosse a do xarope da Coca. Vou compartilhar com você. Você não precisa ser Tolstoi para aplicá-la. Ao contrário, se for Tolstói não vai querer seguir o roteiro do sucesso comercial. Se não souber escrever, basta contratar um escrivão. Corre na Suécia o boato de que Larsson era semianalfabeto, e que Eva teria editado o livro. Como mostram Dan Brown e John Grisham, o fundamental é a idéia, não a prosa. Eis aqui os passos:

1) Escolha um protagonista bizarro. Lisbeth Salander é uma investigadora improvável. É uma sociopata que não consegue conviver com ninguém. Seu apartamento é uma bagunça indescritível, e ela tem mais piercings e tatuagens do que o João Gordo. É gótica, agressiva e, mesmo assim, é admirada como funcionária exemplar na empresa de investigação para a qual trabalha. Não se dá com ninguém, mas tem amantes homens e mulheres. Aí chegamos ao ponto seguinte;

2) Não se preocupe com bobagens como nexo e lógica. Isso é para quem quer ser Flaubert ou Machado de Assis. O crime a ser resolvido é o desparecimento de Harriet, uma adolescente problemática de uma família rica. Detalhe: ela sumiu 20 anos antes que o caso fosse parar nas mãos de um jornalista, Mikael Blomkvist, que acaba chegando a Lisbeth. Formarão uma parceria para desvendar o caso. Detalhe: a polícia sueca se esfolou para resolver o caso por anos e anos, e nada. O tio-avô de Harriet, Henrik Vanger, ficou obcecado com o desaparecimento da menina e fez sua investigação pessoal. Nada. É ele que contrata Mikael. O que a polícia sueca e os detetives particulares não conseguiram em 20 anos o jornalista conseguirá em semanas.

3) Defenda-se previamente das acusações de história sem pé nem cabeça. Num momento particularmente absurdo, Lisbeth ouve isso mesmo de Mikael: que a versão que ela estava apresentando era “profundamente inviável”. Caso o leitor pense o mesmo, naquele momento Lisbeth aparece com uma explanação que convence Mikael — e pelo visto milhões de pessoas — de que o que parece ridículo além de todas as possibilidade é uma hipótese inteligente e sensata. Lisbeth estava conectando uma série de mortes de mulheres num passado já remoto a citações extraídas de um dos livros bíblicos, o Levítico. O mais interessante é que ela até encontrar Mikael jamais lera uma linha da Bíblia. O que nos leva ao ponto seguinte.

4) Use frases enigmáticas tiradas de livros religiosos. Essa Dan Brown fez em O Código Da Vinci. Religião fascina. Na página 337 da edição em inglês, você topa com a seguinte sentença do Levítico: “O homem ou a mulher que exerce magia deve ser morto. Que sejam apedrejados, e que seu sangue os cubra.” Lisbeth consegue enxergar aí a chave para uma morte. Importante: faça como Dan Brown: mexa só com a Igreja Católica, que é inofensiva e pode até promover as vendas de se livro caso decida considerá-lo inaceitável. Salmon Rushdie foi mexer com Maomé e teve que ficar fugido dez anos para escapar da sentença de morte que recebeu do aiatolá Khomeini.

5) Quando sentir que a história pode estar ficando sonolenta, é hora de colocar cenas de sexo. Mikael pega todas as personagens femininas do livro, exceto a própria filha. Fazia anos que a sobrinha do velho que o contrata não fazia sexo. Numa só página, ela conhece Mikael e dorme com ele. Isso apesar de ela ter quase 60 anos, idade inspirada provavelmente na mulher de Larsson. O que leva a um ponto de valor prático:

6) Torça para que um editor tenha um estalo e faça alguma coisa que ajude muito. No caso de Larrson, mudar o título da edição inglesa para “A Menina com a Tatuagem de Dragão” foi fundamental. Foi a oportunidade de colocar uma mulher nua de costas, com o dragão tatuado. O mistério, aliado a um certo erotismo, já começa na capa.

7) Não se esqueça de pequenas coisas que deram certos para outros. Stephen King, um dos mais bem sucedidos escritores de terror, consagrou o uso de itálico para dar mais tensão a determinadas passagens. Funciona bem. Larsson não esqueceu este detalhe. Quando descobre que Lisbeth fuçou em seu computador, Mikael pensa em voz alta: Você esteve no meu computador, Salander sacana. Você é uma porra de um hacker. Isso nos leva a mais um ponto.

8 ) Na era digital, convém ter um personagem que domine como ninguém o computador. Um hacker ajuda muito. Com sua habilidade sem limites, ele pode ajudar você a amarrar muita ponta solta do enredo.

9) Não entregue tudo ao leitor de uma vez. Um doce por vez. Em “A Garota com …”, você quer que Lisbeth e Mikael se encontrem rápido para, juntos, descobrir o mistério do sumiço de Harriet. Mas, se eles se cruzam cedo, o crime também terá que ser desvendado cedo. Uma dupla tão incrível não pode ser lerda. Só na página 294 Lisbeth e Mikael se conhecem pessoalmente.

10) O trabalho pode ser duro. Cuide da saúde para sobreviver e desfrutar um eventual sucesso. Stieg Larsson não fez isso. É verdade que a morte dele teve algum papel nas vendas incendiárias, mas você pode e deve se contentar com uma vendagem menor.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”