Conhecer um poeta

31 de janeiro de 2010 às 9:01 - Comentar

O crítico e escritor José Castello dedicou sua coluna de sábado em O Globo ao poeta Gustavo de Castro, um dos nossos colunistas. Agradeço a Moacy Cirne a gentileza e presteza do envio, após solicitação feita ontem. “Um poeta que conhece a delicadeza do que faz, e não foge disso. Atitude de poeta, e não de esnobe, ou de hipnotizador”, diz Castello sobre Gustavo. Confiram o texto completo.

José Castello
O Globo

As informações, na última página, são mínimas. O autor é professor de estética e dá aulas na Universidade de Brasília. É seu segundo livro. E eis tudo. Contenho o impulso de pesquisar o nome de Gustavo de Castro na web. Decido ler seu livro, “Poemas vis” (Casa das Musas, Brasília), sem nenhum apoio externo. A seco.

Vou direto aos versos. Na página 26, não com uma resposta, mas com uma pergunta, Gustavo me ajuda. “Três formas de abaixar?” E oferece, em seguida, três respostas. “A primeira forma é abaixar para cheirar a flor”, diz. Aproximar-se, se render, ceder espaço ao que é. Chegar a cada coisa, e ali ficar, quieto.

A proposta de Gustavo me remete aos versos de Alberto Caeiro, que nunca me canso de ler: “A Natureza é partes sem um todo,/ Isto é talvez o tal mistério de que falam”. O poeta se abaixa e cheira. Uma flor, e não outra. Isso, e não aquilo. Ali se detém, em silêncio. Nos dias de hoje, em que somos levados a querer tudo e não conseguimos parar, isso é bem difícil.

Propõe Gustavo uma segunda maneira de abaixar. “A segunda forma é abaixar a crista”, diz, sem meias palavras. Diante da coisa — uma flor, uma cidade, um poema —, se resignar, aceitar. Não desejar mais, nem procurar mais. Conter-se. “Menos, meu amigo”, ele escreve.

Nesse ponto, me voltam os versos de Marianne Moore: “O sentimento mais profundo sempre se mostra em silêncio;/ não em silêncio, mas contenção”.

Eu os reencontro em “Silêncio”, um dos “Poemas reunidos”, de 1951. Piadas do acaso: o ano em que nasci.

Última proposta de Gustavo: “A terceira forma é o exercício do abismo: de vez em quando observar os vendavais”.

Coisas de que fugimos: ventanias, tempestades, desastres naturais. Não fugir, permanecer e observar.

Ainda não sei quem é Gustavo de Castro, mas começo a entender o que ele busca. Na página 37, em um pequeno poema, ele me dá mais um sinal. Escreve: “Oh Vera/ Nem toda maçã/ Apodrece/ Nem toda laranja/ É de sumo/ Nem todo limão/ Emagrece”. As garantias? Não temos, mas hoje quase todos se recusam a aceitar isso.

Escapam os poetas, que por isso são poetas. Segue Gustavo: “Nem sempre a verdade/ É a realidade/ Vera”. E ainda: “O real que se vê/ Não se crê/ Vera”.

Para que serve a poesia, senão para desarranjar nossas medíocres convicções? Os grandes cientistas sabem disso: você chega a um ponto, mas não deve se dar por satisfeito; logo outro abismo se abre e o antigo ponto de apoio, que parecia tão firme, se esfarela. E você despenca.

Mais um salto e volto a Alberto Caeiro, que me ajuda a ler Gustavo: “Procuro despir-me do que aprendi/ procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram”. Não, não é fácil.

É humano que não se consiga. Mais humano ainda que não se queira. Mas a poesia nos incita a uma aproximação.

Poetas desconhecidos incomodam.

Ficamos aflitos: — É bom? É ruim? O leitor espera que eu o ajude nessa decisão.

Um leitor quer saber onde pisa, ou se angustia. Crescemos assim, nossos pais nos ensinaram a não falar com desconhecidos.

Devemos imediatamente conhecer, ainda que isso mate o que desejamos conhecer.

Sugere Gustavo, em outro poema: “Submerso nas cores, o destino do poeta é ser porta-voz da noite”. Ecos tardios do Romantismo. Na Brasília do século XXI? E por que não? Em seus versos, Gustavo propõe um “exercício do abismo”. Sua ideia me joga de volta em “A atração do abismo”, ensaio do catalão Rafael Argullol sobre a paisagem romântica, que leio em uma edição da Acantilado, de Barcelona.

Ganhei o livro de Flavio Stein, que o trouxe de Buenos Aires. Não consigo parar de ler.

Diz Argullol: os românticos praticam uma “contemplação da contemplação”.

O objeto dos românticos é a noite, isto é, um não-objeto. Não contemplar isso, ou aquilo — permanecer na própria contemplação.

Sabiam os românticos que o obscuro, servindo de moldura negativa, delineia e acentua a luz. Uma boa imagem é a sala de cinema. Para que nos concentremos na pequena tela, é preciso que, pelas bordas, acima, abaixo, atrás de nós, a escuridão domine.

Contemplar a contemplação é observar esse homem (Gustavo de Castro) que, precariamente, se apoia em um pequeno foco de esperança. Tanto que escreve poemas. A poesia não é tudo. É quase nada. Mas dela um poeta não se arrasta.

Continuo com Gustavo: “Quando a cortina de fumaça passou, tudo ficou vazio. Voltei então a me ver. O nada para me espelhar não necessitava de nada”.

Só o poeta dispensa a cortina negra.

Talvez nem ele: só em contraste com a memória esfumaçada, o espelho vazio enfim se imponha.

Vejam vocês como é difícil! Você começa a ler um poeta desconhecido.

Abre as primeiras páginas, pisa os primeiros versos, cheio de receios e de esperanças.

Deseja, logo, conhecê-lo. Gostei.

Não gostei. Avança, mas os versos o atropelam. Não estão ali nem para que gostemos, nem para que desgostemos.

Estão ali à espera de uma leitura.

Volto, ainda uma vez, a Alberto Caeiro: “O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que estava ali”. É pouco, mas é. Talvez por isso, Gustavo chame seus poemas de “vis”. O próprio poeta os menospreza, os toma como coisa menor. Apesar disso, ele escreve.

Escreve e publica. Por quê? Encontro uma resposta em outro de seus versos: “Quem ama verdadeiramente não busca refúgio em ninguém”.

Muitos, hoje, se dedicam à poesia na esperança de vantagens. De refúgios. É como ostentar um título, uma descendência, ou uma conta bancária, imaginam.

Volto ao amigo distante que, às vezes, me telefona para dizer: “Hoje escrevi um poema extraordinário”. Gustavo faz o oposto: já no título de seu livro, anuncia a debilidade do que oferece. Algo assim: “Não sei se presta, mas está aí. É o que posso”.

Foi o que me levou a seu livro. Um poeta que conhece a delicadeza do que faz, e não foge disso. Atitude de poeta, e não de esnobe, ou de hipnotizador.

Poemas que atravessamos, sem a ilusão de que irão nos acolher para sempre, ou resolver nossas aflições. Lemos, viramos a página. Volto a Marianne Moore: “Nem era insincero ao dizer: — Faça de minha casa sua pousada./ Pousadas não são residências”

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    COMENTÁRIOS

    • Tácito Costa: Sr. Paulo. Grato pelo alerta. Não tiro nenhuma vantagem pessoal desse trabalho. Não temos anúncios e nem patrocinadores e apoiadores monetários. Move-me somente o desejo de democratizar o acesso ao conhecimento. Vamos continuar. Somos favoráveis a cópia sem fins lucrativos. - Viajantes e apaixonados em transe
    • Anne Guimarães: Um poema ensolaradamente gris em tons de azul.... A vida simples e sagrada de quem encontra no mar a sua honra, a sua luz. Admiro tudo que eleva a vida de um pescador.... Lindos versos, bela vida natural potiguar! :) - Tarrafas
    • Anne Guimarães: Poeta Anil.... Sempre bom ler seus poemas.... Ouvir sua voz, receber sua alma.... "Abracei novas incertezas /Sussurro, nem sempre é gozo/ Só o agora é urgente" afff mexeram aqui dentro, rsrs. Esse também é o papel da poesia, motivar, emocionar, contar aquilo que a gente não disse , mas viveu ou vive - em silêncio - na quietude dos sentimentos mais intensos.Você sabe bem o que isso significa, vive poesia e respira versos na beleza do cotidiano sagrado. Beijos,querida! :) - Fio de luz
    • Anchieta Rolim: ...só o agora é urgente...Belo poema, Ednar. - Fio de luz
    • Anne Guimarães: Querida poeta-flor! ô coisa lindaaaa.... Lembrei agora de um poema de Carlos Nejar para sua filha Carla, em um dos versos sábios ele diz: " é no simples que as coisas são completas." É isso mesmo, quanto mais simples, mais doce, mais prazer nessa vida breve vida. Estarei sempre contigo, menina! Suas palavras serenas me mostram que - de uma forma ou de outra - é especial cada segundo de leitura aqui. Beijos no espírito. :) - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Romana, é justamente isso que falta no mundo minha amiga, luz e paz. Bela poesia! Parabéns ! - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Beleza de texto J. Paiva. Só espero que os meninos de hoje também sonhem com um Brasil melhor...Pois ainda há muito a ser feito.Parabéns! - Política de menino
    • Paulo César: Sr. Tácito, Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país. Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar - se me permite a sugestão - um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente). Com muito respeito, Paulo César - Viajantes e apaixonados em transe
    • Jarbas Martins: Qualquer seleção de poemas, antologia, florilégio, ou que outro nome tenha, sempre passou, no período histórico chamado de Modernidade, pelo crivo da parcialidade. Baudelaire, que além de poeta, era crítico de poesia, e da arte de um modo geral, sabia disso.O poeta e antologista Paul Éluard,à época da festiva revolução surrealista, tanto sabia que lançou a sua parcialíssima seleção - "Le Meilleur choix de poèmes est celui que l'on fait pour soi- 1818-1918". (A Melhor seleção de poemas é aquela feita para si mesmo -1818-1918"). Nestes rasos tempos da Pós-Modernidade - o prestígio, uma espécie de capital simbólico, segundo Bourdieu (e viva as lições do meu colega e amigo, professor-doutor Emmanuel Barreto), teria que entrar como um critério.O mercado assim determina.Daí a razão porque Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes (mesmo com o aval de nomes como Luís da Câmara Cascudo,Mário de Andrade e Manuel Bandeira) - sempre são "esquecidos" das antologias feitas no preconceituosíssimo e longínquo Sudeste. Pobres, marginalizados e insulados em sua província submersa - não contam com uma "fortuna crítica" que merecem. - A identidade do verso brasileiro
    • Jairo llima: Fernando Monteiro está no centro do cânone de nossa literatura. Fico feliz de ser contemporâneo e conterrâneo deste artista. - As asas da noite que surgem (1)