Conservadorismo impõe sua agenda

Tácito Costa
Artes VisuaisDestaque

As evidências são empurradas sobre nós diariamente. São muito mais amplos do que se imaginam os danos provocados pela chegada de Temer à presidência. Alguns desses retrocessos são mais visíveis. Outros, menos. Mas, nem por isso, menos importantes.

Não custa lembrar. Faltam coisas fundamentais a este governo, como decência, honestidade, caráter, por exemplo, para patrocinar seja o que for. Falta, primordialmente, legitimidade. A chapa Dilma/Temer não foi eleita com esse programa que está sendo imposto ao país.

Os eleitores não votaram e nem sabiam dessa agenda traiçoeira e temerária. Não espanta, portanto, que Temer tenha quase 100% de reprovação popular.

É quando se para e soma tudo, que temos uma noção melhor da ladeira conservadora que o país está descendo. Ontem, foi o encerramento abrupto da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, aberta em Porto Alegre pelo Santander Cultural.

Eu, ingenuamente, pensava que episódios de censura como o do filme de Godard, “Je vous salue, Marie”, no Governo Sarney, de triste memória, estivessem superado e devidamente jogado na lata de lixo da história.

A proposta da mostra era dar visibilidade a questões do universo LGBT presentes na sociedade e na cultura, assim como promover uma revisão de obras e artistas marginalizados. A exposição colocou em cartaz cerca de 270 trabalhos assinados por 85 artistas, entre eles, nomes renomados como Leonilson e Lygia Clark, emprestados por coleções públicas e privadas brasileiras. Em alguns desses trabalhos a sexualidade é tratada de maneira explícita, em outras, de forma abstrata.

Foi demais para grupos de direita como o Movimento Brasil Livre (MBL), que acusaram a exposição de promover da “blasfêmia contra símbolos católicos” e até pedofilia. “Não acreditamos que as obras de Queermuseu sejam um tipo de arte e muito menos que as crianças tenham acesso a esse tipo de coisa”, disse Paula Cassol, coordenadora do MBL no Rio Grande do Sul.

Chegamos a esse ponto. Um movimento ideológico dizer o que é e o que não é arte. E uma instituição – Santander Cultural – se render a um veredito de tamanhas precariedade e ignorância.

Li a nota do Santander (na íntegra, no final). E fiquei sem entender o encerramento da exposição quando está lá escrito que “O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo…,”. Por acaso a questão LGBT não é uma das grandes questões em debate hoje no mundo contemporâneo?

Mera ilusão se pensar que a guinada econômica conservadora do governo Temer se limitaria à economia. Atinge todas as áreas. Para alguns de nós é como se, de repente, escancarassem as portas do inferno. E cada demônio toma um rumo, fazendo estragos nas áreas de preferência. Isso facilita, visto que é muita coisa para apenas um diabo só dar conta.

Dei uma olhada rápida na página do Santander Cultural no Facebook, onde milhares de críticos de arte deixaram suas opiniões. Reproduzo apenas quatro, que dão uma dimensão do nível do debate:
“Já caiu por terra essa obra maligna do inferno em nome de Jesus.”
“Isso já é caso de polícia.”
“Cancelem suas contas nesse banco que apoia a desvalorização da religião e desvalorização das famílias e degradação dos valores e bons costumes.”
“Pra que ainda não soube, o Banco Santander fez uma exposição no Brasil, cujos quadros que apoiam a pedofilia, a zoofilia, o latrocínio e o estupro de mulheres, inclusive menores de idade e o consumo de crack também por menores inclusive.”

Pobre Brasil!

NOTA SOBRE A EXPOSIÇÃO QUEERMUSEU

“Nos últimos dias, recebemos diversas manifestações críticas sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia. Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.

Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana.

O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra neste domingo, 10/09. Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.”

Share:
Tácito Costa

Comentários

Leave a reply