Conto – Caçada

4 de agosto de 2010 às 10:17 - 2 Comentários
Por Alex de Souza

Há um bom tempo tenho guardados uns contos que sabe-se quando ou se um dia serão publicados. (O último que veio à luz foi numa das 3 Preás lançadas pela FJA de Crispiniano.)

Esta semana, empolgado com a iniciativa do amigo Rilder Medeiros e sua fantástica Feira do livro de Mossoró, resolvi tirar o mofo de uma história e mandar pra o concurso deles lá. Levei bomba, mas ganhei coragem pra mostrar pra outras pessoas. Fiquem à vontade para apedrejá-lo como se fosse uma adúltera iraniana (só não vale trocadilho escroto com o título).

***

Caçada

Subiu a colina de pedra, concreto e ferro retorcido. Caçava. A avenida seguia reta, ampla, caótica. Aqui e acolá, sob um monturo, uma chama nascia feito capim. O vento espalhava a fumaça; pilhas de destroços iam a brotar na travessia. Lembrou de algum filme antigo sobre a guerra, a grandona, a primeirona. A tarde queimava o asfalto – aquilo tudo era calor e inferno, e logo viria a noite para piorar.

No tablet, um novo zipcast: a criptoleitura assinalava invasão a um território canguleiro. Esgrimiu um riso a contragosto. A presa estava ali, em algum lugar. Conhecia aquela avenida há anos, mas isso pouco significava: os grupos vagavam por aquela e mesmo por outras cidades, demarcando fronteiras muito sutis e maleáveis durante os períodos que permaneciam em algum lugar. Atravessar sozinho um espaço tão amplo já seria arriscado, sair para caçar ali chegava ser insensato. Aquele não deveria ser o local da presa. Pensou novamente na mensagem. Algo o intrigava. Aproveitara a chave do post anterior e mudara a configuração dos filtros de tags. Seguia os protocolos.

Aos poucos, o que restara de velhos e alquebrados casebres dava lugar a esqueletos de prédios cada vez mais altos. Bons atiradores estavam em falta nos últimos dias, mas um deles faria estragos lá de cima. Por precaução, passou a se esgueirar por carcaças de bancas de revista, carros, caminhões. As colunas de fumaça ajudavam. Estacou adiante, ao notar um corpo estendido na calçada. Aproximou-se o suficiente para sentir o fedor. É bom quando eles fedem. Boa chance de quem aprontou isso ter caído fora há tempos.

Aproveitando a sombra dos edifícios, prosseguiu feito um fantasma por vários quarteirões. O lusco-fusco do fim da tarde exigia pressa; o cansaço e a fome vieram cobrar o pedágio bem antes do esperado. Precisava dar uma parada. Inúmeras excursões solitárias pela cidade ensinaram dicas muito úteis. Procurou um prédio de porte médio, com uns seis andares, para usar de esconderijo e traçar uma rota de fuga, no caso de alguma adversidade. Escolheu um cômodo alto, que não pudesse ser visto da rua, e bloqueou as janelas para que ninguém reparasse na fogueirinha acesa para o jantar. Posicionou um microcâmera de infravermelho no corredor e um sensor com alarme. Mordiscou meia barra energética, jogou dois bons canecos de sopa pra dentro, acomodou-se de alguma forma no chão empoeirado e se preparou para o cochilo.

Virar um xaria ajudou a manter sua pele enfeitando os ossos. Há quanto tempo vivia assim? Os dias passavam cada vez mais sujos e agressivos. Quem inventou esse papo de que a revolução não seria televisionada, esqueceu de avisar que era porque iam destruir a porra da televisão, do rádio, da internet. Quer dizer, aquilo ainda existia, mas de outro jeito. Num mundo hiperconectado, imagine o belo dia em que cinco mil pequenos gênios resolveram participar de uma flashmob virtual recheada de más intenções. Uma após outra, foram quebradas as redes de satélites militares, das bolsas de valores, dos bancos. Um engraçadinho na Nova Guiné disparou um míssil num submarino inglês estacionado no Atlântico Norte. Outro escrotinho no Paraguai quebrou o Sudão. Foi só o começo. E foi o suficiente para espalhar um bocado de confusão. Os suspeitos de sempre na África, Ásia e América Latina entraram em colapso e implodiram.

A questão não era bem o estrago causado, mas como todo o resto deteriorou rapidamente em seguida. Quando as redes de comunicação não se recuperaram a tempo para evitar as convulsões sociais, pensou-se que os militares assumiriam o controle. Porém, logo a corrente de contra-informação gerou divisões na cadeia de comando que terminaram em conflitos sangrentos. O fenômeno foi se espalhando como um vírus informativo: o fluxo de dados era tamanho que se tornou impossível confiar no que qualquer pessoa transmitia. Quando estourou a guerra civil, qualquer um poderia ser o inimigo.

Acordou de sobressalto. Era sempre assim quando dormia: ficava suado e ofegante, uma vontade de chorar subia pela garganta e quase doía. Era difícil relaxar naquelas condições. Depois se acalmava. Nem a câmera, nem o sensor detectaram nada. Decidiu retomar a missão. Em algum lugar naquela vizinhança, uma sentinela protegia um pequeno depósito de comida. Ele ficaria ali só por dois dias, antes de chegarem reforços. Precisava ser rápido, tomar o posto e convocar os demais companheiros. Ou partir carregando o máximo possível a qualquer sinal de perigo. Já tinha esquadrinhado quase todo o quarteirão quando localizou o provável alvo.

A coordenada apontava para um antigo camelódromo com uma barricada ao redor. Parecia um bunker do terceiro mundo. Após um exame cuidadoso, achou uma brecha que não parecia guarnecida e resolveu entrar. O ambiente era escuro e cheirava mal. Cigarreiras retorcidas, mesas de madeira quebradas, pilhas de papéis amassados – o de sempre. Exceto pelos restos de comida, o que era um bom sinal. A pista esquentava cada vez mais. Daí, as comunicações enlouqueceram.

O fone chiava, intermitente, misturando breves ruídos de interferência e trechos de casts, em baixo volume. O dial oscilava pela web, à procura de transmissões em qualquer frequência, que se sucediam a ponto de captar uma ou duas palavras antes que a próxima se anunciasse: chuva… rápido… pela direita… norte tomado… chama o hulk… nada… alvos… Jesus é o Senhor… can’t buy me lover… O tablet indicava milhares de posts por minuto. Alerta de informação vermelho. Alguém havia soltado uma bomba de spams. Aquele território era, agora, terra de ninguém: a qualquer momento uma corrente de dados poderia se tornar hegemônica, demarcá-lo e assumi-lo. Ou um codec falso transformaria essa merda num banho de sangue. Maldito relatório. Podia mandar se foder e cair fora. Mas voltar para onde? Não seria aceito de mãos vazias. Se alguém resolver checar a bocada, tava lascado. Seria acusado de traição – deixou de morrer hoje para render o quê?, mais uma semana? Fez um sinal da cruz ligeiro e seguiu. Vai que dá sorte. Fechou os olhos e pensou na meta: a caçada.

Só conseguiu sentir um tranco pesado no ombro esquerdo que o levou ao chão. Mas não havia dor, apenas um gosto metálico na boca; tateou pelo corpo e achou o buraco do primeiro tiro. Foi quando se apercebeu da verdade. Não era mais um batedor, nunca fora. Era uma oferenda. A presa. Não havia comida por ali. Não enquanto ele ainda respirasse.

2 Comentários

  1. Carlos de Souza
    4 de agosto de 2010

    Fiz bem em indicar livros de sci fi para vc, cara.

  2. 17 de agosto de 2010

    As duas coisas mais legais do conto são identificar Alex nele – hahahahahah parecia que tava vendo – e pensar: né que essa p pode acontecer?

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Anchieta: Obrigado, lerei e comentarei depois. - Ai Hay Hai
    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar