Conto – Caçada
4 de agosto de 2010 às 10:17 - 2 ComentáriosHá um bom tempo tenho guardados uns contos que sabe-se quando ou se um dia serão publicados. (O último que veio à luz foi numa das 3 Preás lançadas pela FJA de Crispiniano.)
Esta semana, empolgado com a iniciativa do amigo Rilder Medeiros e sua fantástica Feira do livro de Mossoró, resolvi tirar o mofo de uma história e mandar pra o concurso deles lá. Levei bomba, mas ganhei coragem pra mostrar pra outras pessoas. Fiquem à vontade para apedrejá-lo como se fosse uma adúltera iraniana (só não vale trocadilho escroto com o título).
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Caçada
Subiu a colina de pedra, concreto e ferro retorcido. Caçava. A avenida seguia reta, ampla, caótica. Aqui e acolá, sob um monturo, uma chama nascia feito capim. O vento espalhava a fumaça; pilhas de destroços iam a brotar na travessia. Lembrou de algum filme antigo sobre a guerra, a grandona, a primeirona. A tarde queimava o asfalto – aquilo tudo era calor e inferno, e logo viria a noite para piorar.
No tablet, um novo zipcast: a criptoleitura assinalava invasão a um território canguleiro. Esgrimiu um riso a contragosto. A presa estava ali, em algum lugar. Conhecia aquela avenida há anos, mas isso pouco significava: os grupos vagavam por aquela e mesmo por outras cidades, demarcando fronteiras muito sutis e maleáveis durante os períodos que permaneciam em algum lugar. Atravessar sozinho um espaço tão amplo já seria arriscado, sair para caçar ali chegava ser insensato. Aquele não deveria ser o local da presa. Pensou novamente na mensagem. Algo o intrigava. Aproveitara a chave do post anterior e mudara a configuração dos filtros de tags. Seguia os protocolos.
Aos poucos, o que restara de velhos e alquebrados casebres dava lugar a esqueletos de prédios cada vez mais altos. Bons atiradores estavam em falta nos últimos dias, mas um deles faria estragos lá de cima. Por precaução, passou a se esgueirar por carcaças de bancas de revista, carros, caminhões. As colunas de fumaça ajudavam. Estacou adiante, ao notar um corpo estendido na calçada. Aproximou-se o suficiente para sentir o fedor. É bom quando eles fedem. Boa chance de quem aprontou isso ter caído fora há tempos.
Aproveitando a sombra dos edifícios, prosseguiu feito um fantasma por vários quarteirões. O lusco-fusco do fim da tarde exigia pressa; o cansaço e a fome vieram cobrar o pedágio bem antes do esperado. Precisava dar uma parada. Inúmeras excursões solitárias pela cidade ensinaram dicas muito úteis. Procurou um prédio de porte médio, com uns seis andares, para usar de esconderijo e traçar uma rota de fuga, no caso de alguma adversidade. Escolheu um cômodo alto, que não pudesse ser visto da rua, e bloqueou as janelas para que ninguém reparasse na fogueirinha acesa para o jantar. Posicionou um microcâmera de infravermelho no corredor e um sensor com alarme. Mordiscou meia barra energética, jogou dois bons canecos de sopa pra dentro, acomodou-se de alguma forma no chão empoeirado e se preparou para o cochilo.
Virar um xaria ajudou a manter sua pele enfeitando os ossos. Há quanto tempo vivia assim? Os dias passavam cada vez mais sujos e agressivos. Quem inventou esse papo de que a revolução não seria televisionada, esqueceu de avisar que era porque iam destruir a porra da televisão, do rádio, da internet. Quer dizer, aquilo ainda existia, mas de outro jeito. Num mundo hiperconectado, imagine o belo dia em que cinco mil pequenos gênios resolveram participar de uma flashmob virtual recheada de más intenções. Uma após outra, foram quebradas as redes de satélites militares, das bolsas de valores, dos bancos. Um engraçadinho na Nova Guiné disparou um míssil num submarino inglês estacionado no Atlântico Norte. Outro escrotinho no Paraguai quebrou o Sudão. Foi só o começo. E foi o suficiente para espalhar um bocado de confusão. Os suspeitos de sempre na África, Ásia e América Latina entraram em colapso e implodiram.
A questão não era bem o estrago causado, mas como todo o resto deteriorou rapidamente em seguida. Quando as redes de comunicação não se recuperaram a tempo para evitar as convulsões sociais, pensou-se que os militares assumiriam o controle. Porém, logo a corrente de contra-informação gerou divisões na cadeia de comando que terminaram em conflitos sangrentos. O fenômeno foi se espalhando como um vírus informativo: o fluxo de dados era tamanho que se tornou impossível confiar no que qualquer pessoa transmitia. Quando estourou a guerra civil, qualquer um poderia ser o inimigo.
Acordou de sobressalto. Era sempre assim quando dormia: ficava suado e ofegante, uma vontade de chorar subia pela garganta e quase doía. Era difícil relaxar naquelas condições. Depois se acalmava. Nem a câmera, nem o sensor detectaram nada. Decidiu retomar a missão. Em algum lugar naquela vizinhança, uma sentinela protegia um pequeno depósito de comida. Ele ficaria ali só por dois dias, antes de chegarem reforços. Precisava ser rápido, tomar o posto e convocar os demais companheiros. Ou partir carregando o máximo possível a qualquer sinal de perigo. Já tinha esquadrinhado quase todo o quarteirão quando localizou o provável alvo.
A coordenada apontava para um antigo camelódromo com uma barricada ao redor. Parecia um bunker do terceiro mundo. Após um exame cuidadoso, achou uma brecha que não parecia guarnecida e resolveu entrar. O ambiente era escuro e cheirava mal. Cigarreiras retorcidas, mesas de madeira quebradas, pilhas de papéis amassados – o de sempre. Exceto pelos restos de comida, o que era um bom sinal. A pista esquentava cada vez mais. Daí, as comunicações enlouqueceram.
O fone chiava, intermitente, misturando breves ruídos de interferência e trechos de casts, em baixo volume. O dial oscilava pela web, à procura de transmissões em qualquer frequência, que se sucediam a ponto de captar uma ou duas palavras antes que a próxima se anunciasse: chuva… rápido… pela direita… norte tomado… chama o hulk… nada… alvos… Jesus é o Senhor… can’t buy me lover… O tablet indicava milhares de posts por minuto. Alerta de informação vermelho. Alguém havia soltado uma bomba de spams. Aquele território era, agora, terra de ninguém: a qualquer momento uma corrente de dados poderia se tornar hegemônica, demarcá-lo e assumi-lo. Ou um codec falso transformaria essa merda num banho de sangue. Maldito relatório. Podia mandar se foder e cair fora. Mas voltar para onde? Não seria aceito de mãos vazias. Se alguém resolver checar a bocada, tava lascado. Seria acusado de traição – deixou de morrer hoje para render o quê?, mais uma semana? Fez um sinal da cruz ligeiro e seguiu. Vai que dá sorte. Fechou os olhos e pensou na meta: a caçada.
Só conseguiu sentir um tranco pesado no ombro esquerdo que o levou ao chão. Mas não havia dor, apenas um gosto metálico na boca; tateou pelo corpo e achou o buraco do primeiro tiro. Foi quando se apercebeu da verdade. Não era mais um batedor, nunca fora. Era uma oferenda. A presa. Não havia comida por ali. Não enquanto ele ainda respirasse.







2 Comentários
Fiz bem em indicar livros de sci fi para vc, cara.
As duas coisas mais legais do conto são identificar Alex nele – hahahahahah parecia que tava vendo – e pensar: né que essa p pode acontecer?