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[Conto] O Chapéu de roçado

O chapeu de roçado

– Pode mandar entrar. – disse o juiz.

Cabisbaixo, o senhor entrou na sala de audiência assim como quem entra em uma igreja.

– Seu Francisco?

– É, Dotô.

– O senhor pode tirar o chapéu?

Atrapalhado, o velho tirou o chapéu de qualquer jeito e deixou com cuidado em cima da mesa.

– O senhor tem advogado?

– Só Deus mesmo.

O juiz riu. Quantas vezes ouvia aquilo em audiência? Teria Deus tempo pra tanto cliente?

– Seu Francisco, deixa eu explicar pro senhor. Hoje a gente vai conversar aqui um pouco sobre o trabalho do senhor no roçado, tá bom? Eu quero que o senhor fique bem tranquilo, é só uma conversa. Vamos conversando e o senhor vai me respondendo o que eu perguntar, tá bom?

O velho assentiu com a cabeça.

– O senhor trouxe testemunha?

– Como é, Doutor?

– Quem veio com o senhor?

– Só Deus mesmo.

“Deus”

– Entendi. O INSS foi citado? – perguntou o juiz ao servidor.

– Foi, Doutor. Mas não veio não.

– Certo. Vamos em frente, Seu Francisco! Onde o senhor mora?

E quase sem perceber, os dois foram parar na beira do roçado de Seu Francisco, que era bem perto de onde ele morava realmente. Nascido e criado na terra, era quase como uma enxada, uma muda de feijão. A esposa morreu fazia pouco. Doente, aproveitou umas pratinhas só do aposento vindo da mesma terra. Ele ainda viveu um tempo pros lado de São Paulo, trabalhou no que deu, mas voltou logo. Como muitos, deixou pra dar entrada nos papéis já em cima da hora, até porque era meio brigado com o presidente do sindicato. Caba safado, diz que dava em cima da sua mulher. Uma vez foi lá no escritório de facão logo, pra ele ver. Diz que se mijou. Nunca mais. Os filhos foram embora quando puderam, graças a Deus, que ali néra terra de se viver mais não, era nada. Veja minha mão, Doutor, se isso é mão de quem vive de vento.

Não era.

– Esse chapéu do senhor. É velho, né?

– E apois? Mas é forte que só vendo. Fui eu que fiz. Antigamente as coisas duravam, repare em mim!

O juiz riu.

– Tá bom, Seu Francisco. Deixa eu dizer. Pra mim eu estou convencido. O senhor tá aposentado, viu?

Seu Francisco suspirou fundo, como quem tira um grande aperto do peito.

– Finalmente, Seu Dotô. Agora vou descansar.

O juiz arrepiou-se. Ar condicionado.

– Obrigado, Doutor.

– Boa viagem.

Semanas depois, bateram no gabinete.

– Doutor…- o servidor estava pálido, com um papel na mão.

– Que foi, homem?

– O senhor se lembra daquele autor do chapéu… – o homem tremia e o suor já molhava a folha.

– Sim, se sente!

Sem dizer nada, apenas estendeu o papel. Ofí­cio do INSS.

“…cumprir decisão judicial….deferimento de aposentadoria por idade rural…segurado especial….impossibilidade….segurado falecido…”

“…Falecido…”

O juiz engoliu em seco, olhando pro servidor.

– O senhor se lembra daquele homem que pulou do prédio da gerência central do INSS? Quando teve o benefí­cio negado. Faz alguns anos… – ele estendeu uma impressão – Puxei da internet.

Trêmulo, o servidor apontou pro chapéu na foto.

– Esse homem morreu, Doutor.

Como que atingido por um soco, o juiz saiu da sala sem dar explicações.

Dentro do banheiro, sentia as pernas tremerem enquanto lavava o rosto, sem saber o que pensar.

Prendeu a respiração afinal, ao perceber, deitado em cima da pia, o chapéu de roçado.

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Márcio Benjamin

Comentários

2 comments

  1. Edmar Cláudio
    Edmar Claudio Mendes da Silva 27 novembro, 2017 at 00:09

    Interessante tema que aflige o trabalhador rural idoso e a aposentadoria do Funrural. Dois fantasmas assombrando a superavitária previdência social brasileira. História de trancoso. Chapéu de espantalho. Parabéns pelo instigante texto!

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