Conto – Orgasmo seco

DestaqueLiteratura

Disse a menina: fora casada com um motorista de ônibus, mas acabou porque ele tinha outra mulher e, ainda por cima, era doente de ciúme.

Quando Sarmento a viu, ela estava de bobeira numa esquina da Bernardo Vieira com a 6, debaixo de um toldo velho esperando a neblina passar. Ofereceu-lhe carona e soube assim de mais uma estória curta, de poucos elementos, e como a das outras meninas com quem ficava, em torno de abandono e violência. Não conheceram o pai; viram o pai poucas vezes; o pai chegava em casa bêbado; o pai as estuprara.

Trouxe-a para a sua cama de homem velho, um box king desidratado de solidão. As mulheres se deitavam nele por dinheiro dado como pagamento e pelo que elas podiam lhe roubar. Numa noite que ele não se lembra mais quando foi – já havia se perdido no desfile dos anos —, uma lourinha, de quem também não se recorda nem o nome nem as feições, pôs sonífero no seu copo e levou a carteira e o celular. Ele acordou tonto e ficou por horas desnorteado.

A menina do motorista de ônibus, esta descuidara de aparar os pelos pubianos, que pareciam mais um bonsai enegrecido entre suas coxas finas e descoradas. Sarmento a teve assim mesmo, com receio de que ela interpretasse como censura a sugestão de podá-los.

Depois pediu à menina que lavasse os pratos da pia, sujos de uma semana, deu-lhe cinquenta reais e levou-a até a porta do elevador. Na sala evitou a claridade que vinha lá de fora— domingo se tornava mais árido com o sol forte —, e à luz contida pelas persianas se enfiou na leitura do jornal.

Share:

Comentários

1 comment

Leave a reply