Contos e causos de Públio José

30 de outubro de 2009 às 22:09 - Comentar
Por Nelson Patriota

O rico repertório de causos sertanejos é uma fonte segura para um ficcionista novato. Por essa razão, fez bem o jornalista Públio José em buscar na sua vivência interiorana a substância que enforma a matéria das histórias reunidas em seu livro de estreia “Contos. Porque conto”.

Na apresentação que faz ao livro, o escritor Tarcísio Gurgel salienta justamente a presença dos causos na escrita ficcional de Públio José, na medida em que ele traz ao leitor pequenas histórias ambientadas em vilas e pequenas cidades sertanejas e agrestes, das quais informa detalhes socioeconômicos gerais, e onde destaca um fato curioso, habitualmente engraçado, envolvendo algum personagem popular. As ilustrações de Vancildo Cabral Cardoso (Jupy) e Rita Gurgel dão a cada conto um colorido adicional.

A ficção de Públio José seria, assim, uma escritura sem preocupações de ordem formal ou estética, situando-se naquilo que o professor Tarcísio Gurgel descreve como “as graças do quê mais do que os salamaleques do como”? Ou seja, se a história diverte o leitor, por que reparar se ela não se apresenta numa forma literária sofisticada?

O reparo que se poderia fazer a esse tipo de exortação é que nem toda história se propõe a divertir; não exclusivamente só a isso. Tampouco se deve dividir os escritores entre os que divertem mais e os que divertem menos. Nisso, o professor Tarcísio Gurgel acerta ao assinalar que essas são questiúnculas acadêmicas.

Nem se aplica aos contos de Públio José esse caráter unívoco de divertir por divertir. Ao lado da diversão, como assinalamos acima, ele agrega costumes, lugares, crendices, particularidades da vida sertaneja (ou agreste), entre outras. Isso confere aos contos uma riqueza que, individualmente, eles não parecem ter. A par disso, destaque-se o apuro e a correição da linguagem, decantada nos muitos anos de atividades jornalísticas do autor.

O cenário que se abre ao leitor é rigorosamente nordestino, embora apresente elementos comuns a outras regiões e culturas. Como imaginar uma coletânea de causos sem, digamos, um diabo que seduz um ambicioso, o que não passa de mais uma versão popular de um velho tema medieval que tem um motivo trágico, em outras tantas versões do drama do Fausto, seja o de Goethe, seja o de Marlowe, etc. Isso em nada tira o brilho do conto “A pereba do agiota”. Como não ver no conto “A mão misteriosa” um daqueles causos inverossímeis que compõem a biografia popular de Pedro Malasarte? Em “O Rui Barbosa de Macau” e “O francês invade Seridolândia”, deparamos a mesma crítica e a mesma incredulidade do sertanejo respondendo a tudo aquilo que lhe pareça excessivo ou inverossímil.

Numa outra vertente, o autor sobe literalmente aos palcos dos comícios do interior para flagrar um disparate pronunciado por um chefe político, ou uma alusão que foge ao entendimento do homem interiorano que, ao ouvir “Robespierre”, entende “pobre do Pié”, um deficiente físico indigente que, de repente, vê sua vida mudada graças ao equívoco.

Já em “Dedo assassino” Públio como que franze o cenho para narrar a trágica e inglória luta de um sertanejo contra a picada de uma cascavel. É interessante observar que o escritor Nilson Patriota tratou de tema análogo em seu conto “Picada de cobra”, o qual tem um fim igualmente trágico, traduzindo um saber comum do sertanejo no trato com os ofídios.

Os contos situados na fazenda “Barrinha”, em São José de Campestre, com seus habitantes permanentes – o casal Lenira e Lindolfo, a empregada Maria Rosa, os trabalhadores eventuais e ocasionais visitantes constituem um núcleo narrativo à parte dos demais relatos de “Contos. Porque conto”. De fato, são narrativas que sintetizam uma abordagem mais pessoal do autor ao seu mundo da infância, reminiscências soltas que poderão vir a constituir um volume próprio, quem sabe costuradas por um fio conduzido pelo mesmo narrador impessoal que aparece fugazmente nesses causos e contos, dos quais transparece uma grande riqueza demográfica e sociológica e que são, a nosso ver, a parte melhor do livro.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente