Destaque

Contra a fragmentação e o produtivismo

luz para a universidade

 

 “Precisamos reconhecer que o Estado não é o único balizador do conhecimento científico, o capitalismo neoliberal não é o bode expiatório do descalabro instalado na Universidade”.

 

Autor: Edgard de Assis Carvalho

Além da transmissão de saberes culturais, uma Universidade digna desse nome deve estabelecer uma relação crítica com o sistema-mundo, dominar a ciência de seu tempo, contribuir para a paz perpétua, o reconhecimento, o fortalecimento da democracia. Sua função primordial é conservar, regenerar, preservar e gerar saberes sobre a vida e ampliar o entendimento do mundo.

A visão iluminista consagrou as excelências da razão, cindiu sujeito e objeto, instalou a fragmentação e a especialização. No mundo conectivo da hipermodernidade torna-se necessário repensar modelos e métodos educacionais que não sejam compostos por pressupostos rígidos, mas por estratégias multipolares voltadas para a construção de um patamar de universalidade que dialogue com a diversidade das culturas do mundo.

O relatório da Fundação Calouste Gulbenkian Para abrir as ciências sociais, de 1996, aponta quatro pontos compostos por duas recusas peremptórias e duas aceitações inegociáveis.  1. Recusar a separação natureza/cultura, ou animalidade/humanidade, incrustada no pensamento moderno pelo menos desde Descartes; 2. Recusar o poder do Estado como mandante, executor e censor das ações sócio-educativas. 3. Aceitar a interminável tensão entre singular e plural, local e global, universal e particular como características imanentes às sociedades humanas; 4. Aceitar que a objetividade e a busca da verdade devem ser sempre colocadas entre parêntesis e examinadas à luz das premissas sempre mutáveis do conhecimento, sempre biodegradáveis e impermanentes.

Em 1998 o ministério da educação nacional da França tentou implantar uma ampla reforma no ensino médio intitulada Que saberes ensinar nas escolas? O texto-base do projeto ganha corpo em sete saberes: 1. Admitir o erro: 2. Investir contra a fragmentação; 3. Reforçar a condição biocultural da vida; 4. Reconhecer a identidade da Terra; 5. Enfrentar as incertezas; 6. Reforçar a compreensão: 7. Fundamentar a ética do gênero humano.

O que é válido para o ensino médio vale também para a Universidade. Mas não é isso que acontece. Com exceções, as instituições de ensino superior primam pela visão fragmentária e cada vez mais especializada. Cursos, grupos de pesquisa, institutos que questionam essa visão, sejam eles inter ou transdisciplinares, são sumariamente prescritos e rebaixados pelos comitês avaliadores estatais.

A gravidade se amplia da pós-graduação. Há décadas os processos de avaliação são compostos por comitês endogâmicos – os comitês de área – que estabelecem uma métrica produtivista, quantofrênica, cuja objetivação ocorre nos discutíveis indexadores da Qualis-periódicos, da Fundação CAPES, convertidos em  usinas de fabricação de artigos, cuja criatividade é mais que discutível.

O que ocorreu na avaliação do quadriênio 2013-2016 concretiza esse descalabro institucional e aponta algumas realidades: todos os programas de pós-graduação em ciências sociais, área interdisciplinar por excelência, são avaliados por um comitê disciplinar, o de Sociologia.  Doutorados consolidados no cenário nacional  foram peremptoriamente rebaixados, impedidos de continuar um trabalho da formação pautado pela multidimensionalidade dos conhecimentos.

Trata-se de um atraso cultural que precisa ser revertido. É preciso dizer a verdade ao poder, não reconhecer a validade dos relatórios, polemizar o fato de que esses índices jamais avaliarão a capacidade, a criatividade, a repercussão, a disseminação das ideias de um docente. Os comitês interdisciplinares já existentes não podem ser um depósito de áreas do saber que não se enquadram nas classificações cartesianas. As áreas penalizadas devem afrontar coletivamente as formas da coleta de dados, a constituição dos comitês para, enfim, mostrar que avaliar é perceber contradições e méritos dos processos formativos do mestrado e do doutorado.

Por onde começar é a pergunta que sempre se faz diante desses desafios. Postergá-los implica conivência, disseminá-los e enfrentá-los exige atitude crítica, um mínimo de coerência, coragem e paciência redobradas, uma dose alopática de revolta. Cedo ou tarde a desterritorialização advirá, mesmo porque  a exigência de um futuro sustentável bate cotidianamente à nossa porta, exige uma postura que supere os limites esclerosados das disciplinaridades.  

É atitude de resistência e resiliência  que implica certa dose de desobediência civil perante o aparato da vigilância cognitiva instalado nos setores estatais. Há uma compulsão exagerada da tecnoburocracia por dados, relatórios, índices, classificações, comitês endogâmicos de avaliação que não conseguem estabelecer um horizonte programático efetivo e radical.

No lugar de uma universidade fria, operacional, contente consigo mesmo, uma multiversidade mestiça, instável, híbrida, inserida na irreversibilidade do tempo, plena de bifurcações e brechas, marcada pela liberdade da invenção, pela extinção dos grupos corporativos, pela repulsa a fórmulas enregeladas, programas ultrapassados, docentes narcísicos.

 O ato do conhecimento, de qualquer conhecimento, envolve intuição, criatividade, fruição, descoberta, escavação, ignorância, sabedoria, contemplação, desordem, loucura, ilusão, excentricidade, erro, desordem, fantasia, transferência, reorganização.

Os pilares da chamada crise universitária têm a ver com a hegemonia da fragmentação instalada no dispositivo universitário que hoje domina todos os ramos do saber. Enquanto a Universidade não se empenhar na religação da cultura científica e da cultura das humanidades, a dita crise não se resolverá e os especialistas e experts continuarão a exercitar sua competência disciplinar fronteiriça em detrimento de uma visão comum dos problemas humanos que só será percebida de forma transdisciplinar. Não se trata de demonizar a competência, mas ir além dela. Sabemos disso desde 1959, quando Charles Snow publicou seu ‘manifesto’ As duas culturas.

Em 2006 Michel Serres fez um apelo às Universidades para que reformassem seu ensino em prol de um saber comum subdividido em três grandes plataformas: a primeira explicitaria o programa comum da especialidade, a segunda a narrativa unitária de todas as ciências, a terceira o mosaico das culturas humanas.

Todos sabemos que comitês avaliadores, que julgam particulares e estatais, são dominados pela fragmentação, mesmo que coletivos inter ou multidisciplinares abriguem os ‘descontentes’. Não existe, porém, um fundamento epistêmico capaz de implodir a hegemonia disciplinar. O problema da representação acadêmica nesses setores da tecnoburocracia estatal deve ser urgentemente revisado, e de forma amplamente democrática.

Precisamos reconhecer que o Estado não é o único balizador do conhecimento científico, o capitalismo neoliberal não é o bode expiatório do descalabro instalado na Universidade. É por isso que nas brechas das organizações universitárias florescem núcleos de pesquisa fortes e atuantes. Basta olhar o diretório nacional dos grupos de pesquisa no Brasil do CNPq para saber disso.

A universidade brasileira é produto tardio sem tradição consolidada. Relembremos que a USP foi criada em 1935. Temos que levar em conta também que o golpe de 1964 ceifou a Universidade no que ela tinha de mais relevante e criativo, tanto nas ciências da cultura quanto nas ciências da natureza. A expansão dos últimos anos democratizou o acesso – esse fato deve ser reconhecido – burocratizou a formação, mas não favoreceu a religação intersaberes. 

Para problematizar esse horizonte não devemos esquecer que a reforma do ensino e da pesquisa implica, antes de mais nada, a reforma dos educadores, como Karl Marx havia percebido em uma de suas Teses sobre Feuerbach. Para enfrentar o descalabro da última avaliação quadrienal basta ler em profundidade os formatos relatoriais enviados aos programas de pós-graduação. São peças de um atraso intelectual e cognitivo sem precedentes, que só serão postos em causa por meio de uma ação política conjunta de todos os programas penalizados pelo rebaixamento, pela ameaça, pela delação.

O espectro do produtivismo e do quantitativismo ronda o mundo acadêmico e se espalha a todo vapor. Se aderirmos a ele acriticamente, não teremos mais nada a dizer sobre o futuro que nos espera e seremos caudatários do atraso da fragmentação. É hora de agir, antes que seja tarde demais.

 

*Professor titular de Ciências Sociais da PUC/SP

Dezembro 2017.

Share:

Comentários

Leave a reply