Cortes, facas e bainhas
6 de janeiro de 2010 às 16:34 - Comentar
Meu pai foi churrasqueiro durante quinze anos. Da infância ao começo da minha vida adulta, assisti-o ‘limpar’ centenas de quilos de carne, salgá-las e estendê-las no sol. Vísceras nunca me enojaram.
O trabalho dele, todavia, não me despertava o orgulho exibido pelos colegas da escola e da rua, com seus pais médicos, advogados, bancários, professores universitários e fazendeiros. “Meu pai corta carne”, eu explicava meio encabulado.
Hoje, tendo ele largado os espetos, as facas e as bainhas, e quando nada do que se refere ao que descreviam meus colegas sobre as respectivas atividades dos seus pais me interessa, ocorreu-me por meio de livros que meu pai não leu – e muito provavelmente não o fará – que dentre todos ele era o que desempenhava ofício mais nobre.
O corte era uma habilidade que meu pai nos ensinou mal ou quase nada, a mim e ao meu irmão.
A destreza com que afiava o fio na pedra e corria a ponta da faca reta, num estirado que extirpava nervos e o excesso de gordura, era o modo de nos garantir sobrevivência por outros meios, justificava. Um dos quais, a leitura perenemente estimulada em casa, me fez, ao longo dos últimos anos entre centenas de livros lidos, catalogar trechos que remetem aos cortes, às facas, às vísceras. Em resumo, ao meu pai, agraciado pelo reconhecimento que não fui capaz de dar, quando inculto e imaturo, em relatos de autores inatacáveis, sobre o que mais ele gostava (penso que ainda) de fazer na vida: cortar, salgar, assar.
Começo por Cormac McCarthy, em Meridiano de Sangue (1985), que diz: Quando a escuridão caía os homens voltaram com a carne. Os peleiros haviam enchido a carroça de prosópis, tanto as ramas como os tocos desencavados com os cavalos, e descarregaram a lenha e começaram a esquartejar os antílopes eviscerados no chão do veículo com suas facas bowie e machadinhas, rindo e retalhando numa orgia de sangue, uma cena metífica à luz de lampiões seguros por terceiros. Quando as trevas eram completas os cortes de costelas inclinavam-se fumegantes perto das fogueiras e uma justa era disputada pelos carvões com paus afiados onde haviam sido espetados nacos de carne e ouviam-se um retinir de cantis e uma troça incessante.
E sigo adiante desencavando anotações do Moleskine gasto, reproduzindo trecho de Até o Dia Em Que O Cão Morreu, de Daniel Galera (2007, Cia. Das Letras): Nessas ocasiões, ele carneava uma ovelha pro churrasco. Pendurava o bicho amendrontado num galho de árvore, abria o pescoço com a faca e deixava ele sangrar por alguns minutos. Rachava um talho em cada um dos quatro cascos, depois abria o couro da virilha até o pescoço. Com a lâmina e com as mãos, descolava todo o pelego da carne e, por fim, cortava a barriga e deixava cair o bucho sobre o capim encharcado de um sangue grosso e vermelho-claro. (…) Meu vô colocava um pernil e uma costela no fogo (…). Comíamos com as mãos, lasqueando a carne com um facão.
Há ainda Philip Roth, em Indignação (2009, Cia. das Letras): Nos sete meses anteriores à minha entrada na universidade, ele me deu mais do que carne para moer e algumas galinhas para aprontar. Ensinou-me a pegar uma costela de cordeiro e separar as costeletas, talhando cada uma e, ao atingir o fundo, usar o cutelo para afastá-las do resto. E me ensinava sempre da forma mais tranqüila. “É só não acertar sua mão com o cutelo e tudo bem”, dizia.
Por último, Sergio Faraco em Dançar Tango em Porto Alegre (1998, LP&M), cujo trecho do conto Guapear com Frangos, descreve a peleja do rancheiro López carregando o corpo do amigo Sarasua, tendo que protegê-lo dos urubus, que inevitavelmente o eviscerariam como meu pai fazia aos frangos, cordeiros e bois. Diz Faraco: Nada viu, mas ouviu um rumorejar, algo entre o murmúrio e o espanejar de sedas. Custou a identificá-lo, embora habituado àquela espécie de retouço, tipo bando de china em festo. Era o banquete. López sentou-se, apertando os lábios. De seus olhos saltaram grossas lágrimas que correram junto do nariz e hesitaram na saliência dos lábios, perlando. Passou por ali a língua seca, como a revitalizar-se em seu próprio sentimento. Levantou-se, por fim, descortinando a cercania. No fim do mato, uma dúzia de aves disputava postas de carne escura e ele partiu para lá, cambaleando, o revólver preso nas duas mãos. Alguns corvos se abalançaram naquele grotesco galope com que alçam vôo, os outros ainda se atracavam na carniça quando ele começou a atirar. Quatro disparos compassados, quatro balas perdidas, e as aves se alçaram todas numa súbita revoada de asas e crocitos. Todas menos uma, aquele carniceiro que tentou voar e, de tão pesado, se escarranchou numa ramada.
São relatos cujos enredos não se cruzam, personagens não se conhecem, estilos se diferem, mas ao ver do sobrescrito, filho de quem durante a vida toda deve ter lido dois ou três romances, se muito, não têm outra razão de existir a não ser para prestar reverência ao churrasqueiro d’O Galileu. Que perdeu umas lascas de dedos para garantir que o filho encontrasse, lendo, o que tinham escrito dele por aí, sem que soubesse. (Publicado no Novo Jornal)


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