Crítica literária, uma transgressão passadista?
21 de julho de 2010 às 22:21 - 1 ComentárioA cidade de Natal costuma consagrar e desconsagrar muita coisa, ao contrário do que escreveu o mestre Luís da Câmara Cascudo, num tempo mais compatível com a neutralidade e a indiferença, talvez pelo fato de que Natal era, naquela época, uma província minúscula e destituída de malícia.
Natal consagrou, por exemplo, a crendice do já-teve e a ideia de que não existe mais crítica literária entre nós. Pode ser, então, que aquilo que alguns supõem ser crítica literária não passe de uma miragem provocada por estes tempos que alucinam não só os termômetros… Pelo sim, pelo não, restos de crítica literária ainda ocupam nichos muito específicos da imprensa escrita, como esta brava TRIBUNA DO NORTE pode testemunhar. E o artigo que publicamos na semana retrasada neste Quadrante, parece ter desencadeado uma onda de indignação entre certas pessoas exatamente por assemelhar-se em demasia com um exercício (certamente caduco) de crítica literária.
Depois de uma repercussão positiva, postada na edição eletrônica da TN e, em seguida, no sítio www.substantivoplural.com.br, uma série de comentários indignados foi lançada contra o artigo. Felizmente, porém, não de forma unânime, muito menos de forma razoável, vez que sua motivação se deveu pura e simplesmente a dar expressão à indignação mais gratuita pelo fato de o artigo submeter o livro “Espelho quebrado”, do escritor Lima Neto, a um ensaio de crítica literária. E, consequentemente, pôr a nu, conforme nossa óptica, algumas de suas fraquezas. Felizmente, outros leitores souberam reconhecer no texto tão somente considerações acerca do livro, não petardos lançados contra o seu autor. Não deveria ser esse o princípio basilar da crítica literária, tal como era feita no tempo de Cascudo?
Os leitores indignados poderiam ainda ter invocado o velho adágio natalense, de que “não existe crítica literária entre nós”. A suposta crítica que portava nossa assinatura ver-se-ia transformada, de imediato, numa mera algaravia inócua e se evitaria a ressurreição desse fantasma obsoleto e recalcitrante. Nem seria um agravante maior a confissão de que aqueles que se mostravam indóceis confessassem que, ou não haviam lido o referido livro, ou ainda não teriam concluído sua leitura.
Coerente com a opinião unânime que os irmanava, o coro dos indignados preferiu não detalhar as razões de sua querela contra o nosso artigo, preferindo refugiar-se na cômoda condição de admiradores do autor de “Espelho quebrado”, solidários, portanto, com tudo que ele porventura escreveu. Assumindo tal posicionamento, como poderiam admitir que o livro em litígio pudesse ter uma que fosse de suas deficiências em exposição? Isso seria, talvez, incorrer no erro nosso, de tentar fazer crítica literária numa cidade onde essa prática foi decretada como extinta. E ai de quem tentar contrariá-la!
Por inesperada que tenha sido, o fato é que a polêmica em torno de “Espelho quebrado” não terá durado mais do que uma semana, conforme cremos otimisticamente. E aqui é necessário agradecer a intervenção do próprio Lima Neto, preocupado com a intemperança de seus admiradores, todos em débito com ele por não terem lido o seu livro, que tanto admiram.
O apelo do consciencioso autor foi justamente nessa direção: como um guru que se dirige a seus seguidores, magnetizando-os com seu carisma ímpar, ele lhes exortou a que cessassem, por favor, a arenga em torno do livro e o lessem, de uma vez por todos. Essa seria a maneira mais simpática de elogiarem o seu “Espelho quebrado”, cujos cacos (a alegoria é inspirada em intervenção assinada pelo escritor João da Mata Costa), como naquele conto de Andersen, parecem confundi-los quando os aproximam dos olhos. Resta ao autor a certeza de que nós o lemos, ele e eu. Como estamos empatados em pontos não coincidentes, ele agradeceria um desempate de seus admiradores. Agora, portanto, é com eles, como diria Pilatos.


1 Comentário
Senhor: A frase “Natal não consagra nem desconsagra ninguém” não é de autoria de Câmara Cascudo. Quem a forjou foi o médico Esmerado Siqueira. Tenha uma boa tarde.