CULTURA, 2011: O ano que não existiu no MinC

30 de dezembro de 2011 às 9:27 - Comentar

Por Andrea Saraiva
NO BLOG CHAFURDO MENTAL

O baque ocasionado pelos constantes sobressaltos no meio cultural, notadamente no âmbito do MinC, desnorteou os fazedores de cultura do país. Vindos de uma política de governo a qual recebiam financiamento para executarem ações, os equipamentos culturais esparramados pelo brasil, também conhecidos como pontos de cultura sofreram grave ruptura de política e pactuação. Uso os pontos de cultura como exemplo, por ser o ponto congregador e a mais sucedida dentre as ações do programa Cultura Viva, mas além dos Pontos, Pontões e Pontinhos, existiam outras ações como a cultura digital, economia viva, tuxauas, interações estéticas, agentes de cultura, griôs, mídia livre e outras tantas.

O rompimento mais pernicioso foi na relação sociedade civil X governo. A nova gestão simplesmente rompeu o diálogo e tomou decisões unilaterais. Não houve respeito com o processo de construção de políticas que vinha se consolidando ao longo de seis anos e estava se encaminhando para dirimir distorções.

A Teia, canal legítimo de diálogo e que congregava o vasto caldeirão da diversidade cultural brasileira, foi cortada deliberadamente. O evento, realizado anualmente, marcava o momento de juntar e mostrar o Brasil desescondido. Era um momento também de construções coletivas de políticas, de afinamento, de proposição, de pactuação. Além da Teia, havia outros canais de encontro setoriais/temáticos que também foram sumariamente rompidos.

Além da ruptura no compartilhamento da gestão, a própria execução das ações foi sendo direcionada para abolição do Programa. Se não há diálogo, se não há acompanhamento técnico, se não há um plano de trabalho, na prática o programa se esvai. É isso que estamos presenciando. Mas se há essa percepção, o MinC jura de pés juntos que a nova gestão continua apoiando o programa e mostra como prova, o pagamento dos editais. Ora, não basta pagar os editais e isso sequer pode ser considerado mérito, e sim obrigação vez que a verba dos tais editais estavam assegurada pela gestão anterior.

Por outro lado – e talvez mais preocupados com a liberação do pagamento dos editais do que com a nefasta composição do novo velho MinC – os fazedores de cultura assistiram às constantes afrontas dos novos gestores ao que foi sendo cuidadosamente construido na gestão anterior. Até então desconfiava-se de que essa política devia-se as rusgas de comadres entre Antonio Grassi que fora afastado da FUNARTE na gestão anterior e sendo ungido como o interlocutor do PT, estaria de vingancinha contra os antecessores que, por exigência de Dilma que queria que a titular fosse do gênero feminino, indicara Ana de Hollanda como seu fantoche.

Infelizmente a ruptura e estagnação não era privilegio apenas de uma Secretaria. Outros setores do Ministério também se mostraram inertes, sem verba, sem diretriz.

O buraco mostrou-se mais subterrâneo. Desde a retirada da licença creative commons do portal do ministério, fomos ao longo do tempo bombardeados com justificativas ainda piores que o ato. Tais desculpas demonstraram em um só tempo, o despreparo técnico, a inabilidade política da atual ministra e a ligação umbilical com a indústria fonográfica e com o escritório de arrecadação de direitos autorais. Aos poucos foi se percebendo o alinhamento ideológico com órgãos internacionais inimigos precípuos da liberdade do conhecimento. Não era só inoperância e má qualificação tecnica. Era alinhamento político com setores mais conservadores das artes e da indústria cultural.

Mas no decorrer do ano, a gestão Ana de Hollanda foi mostrando sua forma e isso ocasionou inúmeros questionamentos. Como os protestos se avolumavam, acuados, martelavam o sofisma de que ‘continuar não é repetir’ para justificar-se frente à acusação de retrocesso e de que estariam traindo a gestão anterior. A cortina caiu e constatamos, não sem algum pesar, de que a nova gestão do MinC nem continuou, nem repetiu. Fez pior, sequer existiu em 2011.

2011 não foi ano da cultura. E o que nos (des)espera em 2012?

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POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar