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Cultura da Copa do Mundo

É natural que o povo aprenda experimentando. Por isso, tem certo fundamento a afirmação do escritor Sérgio Augusto quando ironiza dizendo que os americanos aprendem geografia fazendo guerra e invadindo países, os brasileiros aprendem nas Copas do Mundo. Em verdade, assimilamos muito mais que condições geográficas. Conhecemos bandeiras, hinos, palavras, costumes diferentes.

A Rússia é um país fascinante, tem a extensão duas vezes maior que o Brasil. Situa-se na Europa e Ásia e não toca a América apenas por quatro quilômetros. Tem população multirracial, 180 grupos étnicos.

A Federação Russa compõe-se por 24 Repúblicas de diferentes etnias. Inúmeras são as singularidades notáveis em uma civilização milenar. São povos marcados por enormes misérias e grandezas insuperáveis.

A literatura, as artes e a ciência são exemplares. Quem dos que amam os valores literários pode esquecer Dostoievski, Tolstoi, Tchecov, Gorki? Quem, mediamente culto, não ouviu falar dos balés Bolshoi, Kirov e dos compositores eruditos Tchaikovsky e Gorodin? Da arquitetura marcada pela monumentalidade? Os admiráveis cartões postais, de sabor bizantino, a Praça Vermelha, o Kremlin e a Catedral de São Basílio, construída sob o domínio de Ivan, o Terrível. Conta-se que ele mandou vazar os olhos do arquiteto para que não mais fizesse nada semelhante. O que seria mais admirável: a beleza dos prédios ou as obras de arte do Museu Hermitage em São Petersburgo?

A Sibéria ficou conhecida como destino de penalização dos opositores do Regime Soviético, sob Stalin. O ditador foi acusado de ser responsável por dez milhões de mortos. A região russa tem cerca de três milhões de quilômetros quadrados com rica vida selvagem, ainda que, em determinados pontos, a temperatura chega a atingir 68ºC negativos.

Para mim, a Sibéria passou a ser associada à lembrança da generosidade de um amigo poeta, Marco Lucchesi, que é um dos escritores mais respeitados do Brasil, pertencente à Academia de Letras. É tradutor de nove línguas em lugares isolados, conventos. Deu-me de presente parte de um meteorito, encontrado na Sibéria no século passado. O bilhete dizia que me estava doando “um pedacinho do céu” para provar que a nossa amizade é também celeste”.

Visitei a Rússia quando começava a Perestroika. Havia pedido ao Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras que telegrafassem a universidades de Moscou e São Petersburgo dizendo que um ex-presidente gostaria de visitá-las. Fui recebido por membro da KGB – Jovem. Meu acompanhante falava português fluentemente, era inteligente e bem humorado. Disse-me que estava autorizado a responder a qualquer questionamento. Um dia, perguntei-lhe se era bem remunerado e se não preferia trabalhar em outro país. “Como poderia deixar a Mãe-Pátria? Ninguém pode viver bem fora de sua proteção”, respondeu. E ainda, que esse era um sentimento geral. Quis falar sobre os novos tempos. Ilustrou: tinha duas calças jeans, que o governo admitira propriedades agrícolas e que pessoas compravam penicilina oral na Áustria.

Depois de fazer camaradagem, brinquei dizendo que os russos bebem demais. Ele justificou que a palavra vodka vinha de voda. Bebiam como quem bebe água. O brasileiro não chama a sua bebida de água ardente?

Nessa mesma fase política, o meu amigo Luís Antônio Porpino, o “Marechal Porpa”, passou três horas explicando-se com a polícia no aeroporto de Moscou, porque trazia na mala a revista “Play Boy”. Com alívio, notou que os soldados estavam excitados. Encantados com os seios pequenos das mulatas brasileiras. Foi logo liberado.

A Rússia mudou. Terá um belo futuro porque tem um grande passado, cultura, alma, vontade e justa ambição. A Copa também mostra.

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Diógenes da Cunha Lima

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