Da calmaria
11 de janeiro de 2010 às 13:02 - Comentar
Agora que a turba tomou o rumo da praia, o bairro parece um gato gordo e preguiçoso se enroscando nas pernas do dono. Perdizes, onde cheguei não faz duas semanas, está uma delícia.
A escolha, em parte, deveu-se justo a isso, a cara de vila e cidade pequena que o bairro conserva; seus velhotes jogando dominó e coçando – mesmo – o saco na porta do parque, as mães banhando de sol os pequenos até por volta das dez da manhã, dois ou três amigos morando a quatro quadras, os pequenos mercados e padarias.
Coisa que começam a rarear em Pinheiros/Vila Madalena. A Vila, vítima de um processo que eu chamo de ‘Itaimnização’, que é mais ou menos como se Morro Branco se transformasse do dia para a noite num Petrópolis metido (cafona?) e barulhento.
Acredite, há pouca coisa de Oscar Freire por ali. E não se trata apenas de dinheiro.
Mas voltando a Perdizes, agradável o silêncio que faz entre as ruas Minerva e Monte Alegre. Onde se soube que era Natal pela moda de Papai Noel subindo escadas ou escalando portas. Uns bonequinhos feios e tortos que devem ter feito a festa dos ambulantes na 25 de Março.
Da janela do escritório, em casa, ouvi os gritos dos moleques na pequena cerimônia que inaugurou as luzes de Natal na piscina do prédio vizinho. Hoje, não há um sequer, correndo, pulando ou tentando arrancar as luzes, num belo exercício de traquinagem.
Passou o Natal e, provável que fora os porteiros, nos prédios e casas da rua só tenham restado a senhora do terceiro andar do prédio à esquerda, sempre sozinha assistindo TV; a do andar acima do meu, insuportável, segundo contam, cujo nome sugere o tratamento que devemos dispensá-la: Geni, e uns cães e gatos de rua que passeiam manso, se refestelando na calmaria, seja Natal ou Carnaval.
Coisas que cairiam bem num relato como o de Amós Oz, em ‘Cenas da Vida na Aldeia’ (Cia das Letras, 2009): Por volta do meio-dia de uma sexta-feira não há ninguém nas ruas da aldeia, todos estão descansando (…). Era um dia cinzento e úmido, nuvens baixas passavam sobre os telhados das casas, e farrapos de uma névoa fina pairavam nas ruas desertas. As casas nos dois lados do caminho estavam fechadas e mergulhadas em sonolência. Um vento (…) carregava um pedaço de jornal antigo através da largura da rua deserta, e Beni curvou-se, recolheu-o e o pôs em uma das latas de lixo. Um grande cão vira-lata grudou nele junto ao Jardim dos Primeiros e começou a segui-lo enquanto resmungava, rosnava e lhe arreganhava os dentes. Beni curvou-se, empunhou uma pedra e erguei energicamente o braço. O cão afastou-se, rabo entre as pernas, mas continuou a seguir Beni a uma distância segura. E assim andaram os dois ao longo da rua deserta, cerca de dez metros a separá-los, e dobraram à esquerda, para a rua dos Fundadores. Aqui também todas as persianas estavam cerradas para o descanso (…)
Verificarei minhas impressões assim que retornar. Darei nota do acontecido.


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