Da mentira como gênero literário e jornalístico

11 de agosto de 2010 às 14:03 - Comentar
Por Nelson Patriota

O personagem Umbelino, do livro homônimo de Umberto Eco, se assume como um mentiroso contumaz e faz disso um estilo de vida. Sua preocupação em dizer-se mentiroso cria embaraços para as pessoas que, a partir desse traço de sua personalidade, não sabem mais como interpretar suas afirmações: será que tudo que ele afirma deve ser entendido de modo contrário, isto é, como mentiras?

O fato é que a mentira exerce um forte fascínio junto aos escritores, os quais, de algum modo fazem dela sua ferramenta de trabalho. Mais raro é que um jornalista se revele um impostor, palavra tomada aqui na sua acepção de não veraz. Sobretudo quando simula entrevistas com pessoais reais, o que transforma seu trabalho numa desnorteante contraentrevista, ou seja, o oposto do que se concebe normalmente como uma conversa entre um jornalista e sua presumida fonte. Não obstante, se se fizesse um dossiê das queixas que os entrevistados costumam fazer contra as inverdades que aparecem nas suas entrevistas, o resultado possivelmente surpreendesse pelas coincidências com o método Debenedetti…

Em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o jornalista italiano Tommaso Debenedetti confessou uma frustração: gostaria de fazer jornalismo cultural, mas, acentuou, “isso é impossível na Itália”. Em vista disso, mudou seus planos e concebeu um projeto profissional inusitado: tornar-se conhecido como “o campeão italiano da mentira”.

Para levantar esse troféu, Debenedetti argumenta com os dez anos em que passou na imprensa do seu país publicando entrevistas, que, depois, se revelaram inventadas, com escritores como Gore Vidal, Philip Roth e personalidades como o papa , o Dalai Lama, Obama etc.

A conclusão a que chegou o jornalista italiano é que, se ao longo de dez anos ele pôde publicar suas entrevistas inventadas, é porque contava com a anuência dos editores com que trabalhava. A farsa só veio a público pouco a pouco, inviabilizando sua presença nos referidos jornais. Um comentário de Philip Roth desmascarando a entrevista supostamente dada a Debenedetti também apressou sua saída da imprensa escrita. De acordo com o jornalista, o escritor americano teria se melindrado pela declaração de apoio ao presidente Obama, que fora veiculada na entrevista, o que, segundo o jornalista, seria confirmado semanas depois pelo próprio Roth. Este teria declarado ainda que a carreira de impostor de Debenedetti teria chegado ao fim.

Não é o que pensa, entretanto, Debenedetti. Tudo somado, ele acha que tem o que comemorar pelos dez anos em que forjou entrevistas publicadas avidamente consumidas pelos leitores dos jornais que as veicularam. De saldo, ele diz que já detém o título de “campeão italiano da mentira”, como ele gosta de se jactar, até com certa desfaçatez. Todavia, seu principal motivo de júbilo intelectual tem a ver com seu projeto frustrado de jornalista cultural: trata-se da criação de um suposto gênero literário, exatamente o da entrevista falsa.

De acordo com Debenedetti, esse projeto será ancorado numa página que ele criará na internet. A etapa seguinte será a publicação de um livro reunindo uma seleção das entrevistas falsas, o que concorrerá para consolidar o novo modelo de entrevista, ainda não incluído nos manuais correntes de jornalismo.

Espécie de Baudolino do jornalismo moderno, Debenedetti se ampara numa visão pragmática do seu trabalho: uma boa entrevista falsa precisa ter método. Se a entrevista for, por exemplo, com um escritor, o entrevistador precisa ler seus livros, observar seu estilo de falar em outras entrevistas (mesmo que verazes), e só então passar à impostura.

É munido desse know-how que Debenedetti rebate a afirmação de Philip Roth de que sua carreira acabou. Para o jornalista, Roth cometeu um equívoco. E explica: “Minha carreira nos jornais talvez tenha acabado, mas não meu trabalho”. Pelo contrário, considerando as possibilidades que ele vislumbra adiante.

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    NAN GOLDIN
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    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”