Da nação potiguar

26 de julho de 2010 às 22:28 - 4 Comentários
Por Marcos Silva

Amigos e amigas:

A apresentação musical minha e de Joel Carvalho na SBPC (nesta terça-feira, 27 de julho, 16 horas, Praça da Reitoria, campus da UFRN) abrangerá as seguintes canções, sob o signo dos comentários que as sucedem ou antecedem:

1 – OS RELÓGIOS.

Estas canções são de hoje (2010) e foram feitas desde um ontem prolongado – de 1968 para cá. Chega de saudade. Mas não existe um hoje sem um ontem nem sem a esperança de um amanhã.
A primeira canção foi “Os relógios”, de Joel Carvalho e Marcos Silva, 1968, antes do AI-5, tempo de revoltas estudantis no mundo, lutas contra a Guerra do Vietnã e contra diferentes ditaduras. Tempo do Tropicalismo nascendo, dos Beatles acabando, de Paulinho da Viola e Tom Zé se inventando, de Chico Buarque e Edu Lobo continuando.
A próxima música é “Palavras de amor”, também de Joel e Marcos, letra dos anos 70 e música de 1996 sobre a intensidade amorosa dos corpos humanos. Marcos estudava e trabalhava em São Paulo, Joel morava na Espanha. A letra foi no Brasil da ditadura, a música foi na Espanha pós-franquista.

2 – PALAVRAS DE AMOR.

Somos do contra com causas. Nossas causas são a alegria, a felicidade, o gozo e o luxo para todos: alegria, felicidade, gozo e luxo continuam muito escassos, distribuídos de forma injusta. O Capitalismo continua aí e se comporta como se não houvesse alteridade. Ser do contra, agora, é pensar que o mundo pode se tornar diferente: mais que cada um por si; nunca a homogeneidade imposta.
A canção seguinte, “Dip-dip”, de Joel e Marcos, surgiu no começo dos anos 70 e fala de corpos amorosos através do mundo da técnica, apesar desse mundo. Os autores ouviam blues e liam sobre teoria da informação na época.
3 – DIP-DIP.

A ligação com possibilidades técnicas do presente não significa cegueira em relação ao presente, que é mais que técnica. Estas canções existem num mundo que contém a capacidade de fazer beleza, através da Arte, misturada com a capacidade de estabelecer relações de poder melhores ou piores, através da Política. Queremos honrar a beleza da Música. Queremos enfrentar as feiúras das hierarquias sociais.
“Computador”, de Joel sozinho em 1969, decompõe e recompõe essa palavra para nos lembrar que a técnica existe num mundo povoado por moralismos e relações de poder muito opressivas, inclusive em nome de religiões. E nós podemos rir desses moralismos e poderes, destruindo-lhes o chão.
4 – COMPUTADOR.

Queremos a beleza e a liberdade como gêneros de primeira necessidade, sem esquecermos de outros gêneros prosaicos, belos à sua maneira: bebida, comida, moradia, vestimenta. Beleza e liberdade são faces de justiça e igualdade, podem se confundir com a Verdade que se inventa a cada dia sem renunciar à Ética.
“Minhas luas”, de Joel e Marcos, nasceu em 2004, passeando por mitologia grega e afro-brasileira (Afrodite e Iemanjá), encarando com Cândido das Neves e Cazuza – lirismos musicais brasileiros.
5 – MINHAS LUAS.

Nós dialogamos com tradições musicais brasileiras e internacionais: baião, bossa nova, mpb, tropicalismo, rock, jazz, rap, bolero. Como as canções incluem textualidades, o diálogo abrange também facetas de poesia e outros discursos verbais, passando por modernistas, concretistas, escrita jornalística e de publicidade, panfleto político e rascunho amoroso.
Ao enlaçar experiências culturais locais e regionais com outras que são nacionais e internacionais, interessa-nos explorar o que possuem ou podem vir a possuir em comum. A multiplicidade de formatos melódicos, harmônicos e textuais é valorizada neste conjunto. Encaramos a identidade da nação como um fazer em aberto, dotado de tensões e potencialidades.
“Manchetes” também é de Joel sozinho e surgiu em 1969. Reúne lemas de publicidade e manchetes de jornais no tempo em que a ditadura brasileira conseguia piorar o que já era muito ruim: a Publicidade gerava notícias e a Imprensa se vendia a preço baixo.
6 – MANCHETES.

Elis Regina e Cássia Eller são música brasileira. Tom Jobim e Jackson do Pandeiro são música brasileira. Paulinho da Viola e Cazuza são música brasileira. Pixinguinha e Tom Zé são música brasileira. João Gilberto e Clementina de Jesus são música brasileira. Arrigo Barnabé e Nação Zumbi são música brasileira. Villa Lobos e Egberto Gismonti são música brasileira.
“Maniac repression” foi escrita por Marcos, nos anos 70, exercício de portinglês explícito – palavras inglesas virando versos em português. Joel, em 1994, misturou Jimi Hendrix com lembranças do primeiro rock – Little Richard e Chuck Berry. “O toque” lembra passeatas, quando vitrines são rachadas, formando janelas para quem não pode consumir aqueles produtos caros, em paralelo com o desejo entre seres humanos – pobres e ricos podem desejar-se reciprocamente, corpos se tocam e se racham. Joel misturou aqueles gêneros de rock com uma citação de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, da valsa “Boneca”.
7 – MANIAC REPRESSION / O TOQUE.

Música brasileira é som que brasileiros fazem sem deixar de ouvir George Gershwin, Edith Piaff, Omara Portuondo, Miles Davis, Amália Rodrigues, Carlos Santana, Bob Marley, Astor Piazola e Billie Hollyday.
Relembramos os anos 60 a 90 do século XX a partir desta primeira década de nosso século XXI, com nossos projetos de agora. E sem idealizações: era bom e difícil, feliz e tenso – como é hoje, de um jeito diferente.
8 – PRESENTISMO.

Quem nasce no Rio Grande do Norte é conhecido como potiguar. Essa palavra designava uma nação indígena que existiu antes da colonização e foi exterminada, junto com outros povos pré-colombianos locais, no começo do século XIX. A culpa não é nossa. Mas também não pretendemos fechar os olhos para outros extermínios que estão em andamento, hoje, no Rio Grande do Norte e no resto do mundo: crianças pobres nas ruas, idosos sem dinheiro para comprar remédios, jovens sem escola nem emprego. Não queremos outros holocaustos. Queremos festa e pensamento crítico.
“Vamos, caboclo, p’ra nossa aldeia” é uma despedida de Cabocolinhos, recolhido por Mario de Andrade em 1928/1929, canto de conformismo e resistência: essa terra não é nossa, será que teremos outra terra? “Da nação potiguar”, de Joel e Marcos, letra de 2004 e música de 2009, é lamento e convite à luta: que fizemos, fazemos e faremos de nós, potiguares?
9 – VAMOS, CABOCLO, P’RA NOSSA ALDEIA / DA NAÇÃO POTIGUAR.

PARTICIPAM DESTA APRESENTAÇÃO:
Joel Carvalho (voz), Marcos Silva (voz), Sílvia Sol (voz)
Paulo Marcelino Cardoso (direção musical, arranjos, arregimentação, violão)
Isaque Gurgel (saxofone), Ivo Sousa (guitarra), Júlio Lima (baixo), Pablo Jorge (bateria).

IN GOLD WE DON’T TRUST

Abraços em todos e todas:

4 Comentários

  1. Denise Araújo Correia
    27 de julho de 2010

    Marcos Silva, tristonha estou por não poder ver essa apresentação musical, pois trabalharei o dia inteiro. Ficam, então, os votos de louros e sucesso.

  2. João da Mata
    27 de julho de 2010

    Estarei na oficina carro derramendo óleo

    Parabens,

    sucesso

  3. Marcio Capriglione
    27 de julho de 2010

    Pô Joel, não deu pra ir. Vocês gravaram? Quero um CD. E o caju? Não apresentaram? Lembrei com muita saudade do festival no Alberto Maranhão. Bons tempos…

  4. 28 de julho de 2010

    DE EDJANE LINHARES:
    Compromissos me prendem ao sertão. Pela qualidade, requinte e proposta, espero que este trabalho seja divulgado na internet. Abraços.

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    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    Aconchego
    11-02-2012 às 14:37 - Comentar

    Por Suely Nobre Felipe

    Quando partires do meu tempo,
    Leva-me entrelaçada em teus braços,
    Dividas comigo o teu novo regaço,
    Deixe-me provar da leveza do teu céu,
    Onde ali, repousada entre nuvens,
    Desfiarei nossos melhores sonhos.
    E, por entre os fios dos nossos cabelos
    – Já não tão negros como a noite,
    Confundiremos deliciosos segredos.
    Pois, não tardará o tempo
    Em que haveremos de desfiar
    Capuchos de solidão.

    ACONCHEGO

    Suely Nobre Felipe

    __________

    Quando partires do meu tempo,

    Leva-me entrelaçada em teus braços,

    Dividas comigo o teu novo regaço,

    Deixe-me provar da leveza do teu céu,

    Onde ali, repousada entre nuvens,

    Desfiarei nossos melhores sonhos.

    E, por entre os fios dos nossos cabelos

    – Já não tão negros como a noite,

    Confundiremos deliciosos segredos.

    Pois, não tardará o tempo

    Em que haveremos de desfiar

    Capuchos de solidão

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura
    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante