Da natureza dos muros

23 de julho de 2009 às 15:38 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

Oscar Wilde e Chico Buarque perceberam o muro. Para Oscar Wilde, o muro fora erguido pelo “Gigante Egoísta”, para que as crianças não fossem brincar no seu jardim. Só que, sem crianças, o jardim do gigante também não era mais visitado pela primavera e, entrava ano, saía ano, a única estação que por ali pousava era o inverno: neve, geada e granizo. Um dia, o gigante percebeu a natureza do muro, derrubou-o e chamou as crianças de volta. A partir daí, seu jardim se encheu de flores.

O muro que Chico Buarque cantou era um e eram dois: um cercava o bosque junto à rua, onde a felicidade morava, mas o dono do bosque não via. O outro muro separava o eu lírico da música “Até Pensei” e a sua amada. Ambos os muros proibiam a aventura.

O Conto “O Gigante Egoísta” e a canção “Até Pensei” falam de impossibilidades e impedimentos que estão além das vontades do eu lírico da música e das crianças do conto. Já Fernando Pessoa nos aconselha: “Cerca de grandes muros quem te sonhas.” No poema “Conselho” é o próprio eu lírico que impede que lhe vejam como é. Diz o Pessoa que somente onde ninguém nos vê, podemos deixar “as ervas naturais medrar”.

E é assim: erguemos muros entre nós e os outros, por egoísmo, por auto-suficiência ou por medo. Ou porque chega um tempo de pensar que não vale a pena nos mostrarmos como realmente somos.

Quando erguemos muros por egoísmo ou por auto-suficiência, somos como o gigante de Oscar Wilde, que não entende porque a primavera não visita o seu jardim. Ficamos nessa inconsciência de não saber que, com o ruído alheio, vem também a floração de nós mesmos. Mas quando nossos muros são erguidos por medo ou desencanto, aí nós já compreendemos o significado dessa floração. Sabemos o motivo pelo qual estamos nos cercando de “grandes muros”. Então, dissociamos ser e aparência. No entanto, se essa dissociação se aprofunda, a aparência vira caricatura. Não é difícil nos defrontarmos com pessoas tão artificiais, tão artificiais, que sequer sua aparência é crível. O ser fica tão dissolvido que essas pessoas acabam por acreditar que só a sua aparência existe. Existe, mas não convence. Sabem a sensação de conversar com uma mentira?

Falei outro dia de partes de nós que para sempre permanecerão secretas para os outros, isso é da nossa natureza, pois algo de nós até para nós permanecerá segredo. Porém, esconder por inteiro é da natureza dos muros, não da nossa. Mesmo que nos protejamos de vez em quando, mesmo que cultivemos a cautela, não pendamos aos radicalismos. Também é preciso deixar que os outros vejam “as flores que vêm do chão crescer”, tão mais reais do que os canteiros cuidadosamente podados.

Seria maravilhoso intuir sempre quais são os outros a quem nos podemos mostrar, quais são os outros que podem chafurdar nos nossos jardins, bosques e ternuras. Mas não é assim. A intuição nem sempre é exata e sem dúvida nos machucaremos de vez em quando pela falta do muro. Mas, e a primavera?

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura