Da resistência à reificação da pessoa
6 de fevereiro de 2010 às 13:02 - Comentar
Os versos de Paulo Pontes ressoam na voz de Oiran:
Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos…
Se eu vim ao mundo, foi só para deflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada…
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Fui para a praia de Galinhos passar o fim de semana, eu e mais um grupo de amigos.
Na noite de sábado todos saíram e eu fiquei em casa. Meia noite alguém vem bater a porta com um recado para minha amiga Gerlane. Seu filho Arandu havia ligado e era para ela entrar em contato urgente que seu outro filho Oiran havia sofrido um acidente. Eu já estava à porta para ir procurá-la quando ela retorna. Eu lhe dou o recado e ela imediatamente liga para casa e Arandu pede que ela volte com urgência, pois seu irmão havia sofrido um acidente. Ela se desespera. Observo que meu celular tem inúmeras ligações, inclusive de minha filha que havia ficado em Natal. Volto a falar com Arandu sem que Gerlane veja e ele me confessa que seu irmão havia morrido. Não conto nada para ela e aí passamos a procurar o restante do pessoal. Não os encontrando, eu propus que voltássemos para Natal imediatamente. Conseguimos um barco para nos levar para a outra margem do rio onde ficara o carro. Já era em torno de duas horas da manhã. Voltamos para Natal, eu, minha amiga e seu companheiro. Dos três, só eu dirigia.
Eu havia desenvolvido no último ano uma espécie de síndrome de pânico quando se tratava de dirigir na estrada, particularmente, à noite. A última vez que isso aconteceu foi uma agonia, “fiz das tripas coração” para dirigir de Pedro Velho até Natal. Quando chegamos em São José de Mipibú eu entreguei os pontos. Minha amiga arranjou um conhecido na cidade que conduziu o carro no restante do percurso.
Saímos de Galinhos. A estrada completamente deserta e, mesmo assim, o máximo de velocidade que eu conseguia desenvolver era 60 km. A estrada em linha reta parecia não ter fim. Eu me sentia hipnotizada por ela. Não batia os olhos, não olhava de lado, os olhos fixos na estrada o tempo todo. Tudo parecia tão irreal, aquela impressão de sonho a qual se deseja acordar. Os pensamentos não paravam de vir e eu sem poder compartilhá-los. A minha amiga agoniada para chegar e eu buscando forças para vencer a estrada, suspirando, antevendo o que nos aguardava. Eu me colocava em seu lugar, como mãe sentia sua dor, pensava em Oiran, flashs de muitos momentos passados juntos, pensava nos meus filhos, pensava que um filho não era para morrer antes da mãe. Tinha decidido que eu tinha que fazer o que era necessário e, nesse momento, era levá-la para ver o filho, custasse o que custasse. E a estrada que nunca acabava. Tracei uma meta: chegar em João Câmara e, chegando em João Câmara, Ceará Mirim e lá chegando, Natal. E assim foi, suspirando e dirigindo, dirigindo e suspirando.
Em João Câmara, o celular toca é o pai dos meus filhos e isto deixa a minha amiga mais angustiada que estranha o fato dele ligar para mim àquela hora. Eu digo que é porque ele ficara sabendo do acidente. Na verdade eu ganhava tempo na tentativa de atenuar o baque.
Chegamos em Natal em torno das 5h30mim, Arandu estava esperando do lado de fora e, ao nos ver, correu para dentro de casa. Fico fechando o carro e lá dentro irrompe o choro desesperado da mãe. Mais tarde proponho irmos ao hospital ver o corpo (eu precisava desse convencimento e achava que ela também). No hospital fomos conduzidos até à assistente social e escutamos alguém mencionar: “É a mãe do hippie!” A assistente social tentava nos convencer a não entrarmos porque o corpo ficara muito machucado e sem refrigeração por toda a noite. Minha amiga não arreda o pé. Sigo atrás. No corredor sou interpelada pela assistente social e com isso perco Gerlane de vista. Aquela faz um comentário: “Eu pensei que ele não tinha ninguém, já veio tanta gente aqui!”.
Seu comentário tinha uma razão de ser: Oiran era anarkopunk e seu visual “agressivo” procurava refletir “todo o peso e imundície da sociedade em que vivemos”.
O acidente ocorreu na BR 101, próximo a São José de Mipibú, no final da tarde quando retornava de Campina Grande de bicicleta. Tinha ido participar de protesto contra vaquejadas (abuso e atrocidades cometidas com os animais). Ele era vegetariano, defendia a bicicleta como meio de transporte alternativo porque não poluía a natureza, participava de diversos movimentos de contestação social e expressão cultural: igualdade racial, antiglobalização, bicicletada, movimento passe livre, ecologismo, música e poesia. Um carro em alta velocidade o colheu covardemente pelas costas, parou ainda a uns cinqüenta metros adiante e depois arrancou, sem prestar-lhe socorro. Tem um vídeo com ele pouco tempo antes de sua morte no qual, ao ser indagado sobre a vida, ri, e meio encabulado, responde: “pra vida eu não quero falar nada não. Eu quero vivê-la somente!(AQUI)
Oiran tinha pressa! Tanta pressa que partiu cedo.
Recordo que alguns anos atrás ele queria muito um violino. Um dia eu cheguei a sua casa com um violino para ele. Antes de entregá-lo criei uma história que não recordo direito algo como: que aquele violino era especial, fora feito de uma árvore que pressentindo chegar seus anos finais, antes de tombar expressara seu desejo de continuar a cantar a natureza pelas mãos de um menino. Ele não cabia de tanta felicidade e gaguejava de alegria. Esse violino se transformou depois em um violão que se transformou em um baixo que rompeu a barreira do tempo com seus acordes.


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