Crônicas e Artigos

Da semana vivida

semana santa

Os hábitos e costumes estão mudando rapidamente. Alcançaram até a Semana Santa, tempo anteriormente tratado com maior reverência, inclusive, pelos potiguares do Seridó. Sei que em alguns lugares ainda se vivem tradições do passado, algumas das quais vale a pena recordar.

Se, por um lado, tínhamos a farra do Judas, os dias que antecediam a Páscoa eram de profundo respeito à memória da paixão e morte de Jesus Cristo. Aliás, para os mais antigos, dias que se aproximavam da tristeza, tamanho era o rol de proibições da época. Nada de bebida alcoólica, sequer vinho. Recomendava-se sobriedade no falar e no sorrir.

Tudo deveria ser, enfim, no sentido de manifestar respeito e solidariedade a Jesus Cristo que era, realmente, o centro de todas as atenções.

Na sexta-feira da paixão, em particular, o dia era de profunda serenidade. Não havia matança de animais; o leite das vacas era dos pobres ou dos bezerros; a radiola ficava parada; os homens não faziam a barba; a hora santa das 15 horas era marcada pelo respeito. Aliás, bem diferente de hoje com a invasão dos paredões de som e das letras destrutivas do forró inventado por algumas bandas…

Também no tempo santo de anos atrás era comum vermos o pedido de comida nas casas. Era, de fato, muito triste assistir ao pedido de “jejum” feito por mulheres e crianças nas ruas das cidades do Seridó, especialmente, em Caicó onde a periferia abrigava bolsões de pobreza. Era frequente ouvir na porta de casa o batido de palmas e o pedido do “jejum”. A comida era pedida e, não raro, entregue em latas e sacos. Era, para muitos, a caridade e, para os mais pobres, a forma do “jejum” da semana santa! Mesmo um ou outro grupo continuando a pedir, o número de pessoas é inferior… Talvez pelos programas sociais mais ativos ou por qualquer outra mudança comportamental, ocorre que, no período propriamente dito da semana santa, as famílias já não peregrinam tanto nas ruas em petição de miséria.

Um outro costume era o furto de galinhas. Alguém até já me disse: – tempos bons quando somente nos roubavam galinhas! O certo é que são recorrentes ainda histórias engraçadas de pessoas que se aventuravam a visitar o galinheiro do vizinho, de familiares e de amigos em busca do sabor de uma “penosa” temperada no dia seguinte.

Evidentemente que algumas não eram tão engraçadas. Havia o perigo de uma reação e ainda se escuta notícias de gente correndo acuada por estampidos de espingardas. Não havia, contudo, o desejo de prejudicar, como se vê atualmente nos crimes de toda espécie que se multiplicam assustadoramente em todos os recantos. Era um costume, apenas uma brincadeira.

Além da visita aos galinheiros, outros mais se aventuravam a “malhar o Judas”. Como ensina a história cristã o discípulo Judas Iscariotes traiu Jesus Cristo por 30 moedas de prata e o fim todos conhecem… Na sexta-feira, portanto, dia da memória da paixão e morte de Jesus Cristo, Judas, geralmente em forma de boneco, era malhado. Alguém atirava, o boneco caia e a malhação começava. Era a representação da penalidade ao traidor de Jesus.

Em alguns recantos do sertão de nossas raízes o costume era acompanhado do “testamento ou conselhos do Judas”. Em Carnaúba dos Dantas, terra de letras e música, por exemplo, eram preparadas peças poéticas para saudar o evento, dentre as quais o Conselho do Judas (1975) de Francisco Rafael Dantas (França):

Acharam Judas na ponte,
Morto, no chão estirado
No bolso esquerdo ele tinha
Um papel todo amassado…
Quem achou foi Zé Badu,
Que se juntou mais Guarú
E entregaram ao delegado!

O papel dizia assim:
Eu vinha só entregar,
A minha pequena herança
Ao povo desse lugar,
Mas por infelicidade,
Na entrada da cidade,
Me mataram pra roubar.

Tava debaixo da ponte,
Quando chegou dois menino,
O mais moço era moreno;
O mais velho, lazarino;
Fizeram a minha matança,
Carregaram a minha herança…
Ah dois moleque ladino!

Por este justo motivo,
Não posso mais ter herança,
Como era de costume,
Mas não percam a esperança,
Que pra servir de espelho,
Eu vou deixar uns conselho,
Vocês guardem na lembrança!

E os conselhos – transcritos para o livro Carnaúba dos Dantas em quatro atos do poeta Francisco Rafael Dantas – seguem falando dos personagens e da vida local com a beleza da poesia marcada pela genialidade do povo seridoense.

Enfim, em arremate, sendo assim ou assado, a semana de ontem diferente de hoje, que seja banhada pelas chuvas que tanto aguardamos e pela fé que anima a vida!

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Fernando Antonio Bezerra

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