Da vida na aldeia
14 de dezembro de 2009 às 8:14 - Comentar
Quem acompanhou os nomes que foram ventilados para vencer o Nobel deste ano deve ter esbarrado pelo menos uma vez com o israelense Amós Oz entre as apostas pra levar o título da Academia Sueca. Pode também o conhecer pelo Prêmio da Paz ganho em 1992 na Feira do Livro de Frankfurt. Ou o leitor curioso pode ter tido contato com obras famosas do homem, como ‘A caixa preta’, ‘Não diga noite’ ou ‘De amor e trevas’. Eu já tinha ouvido falar aos montes do homem, mas até então nunca havia lido nada. O primeiro livro que leio de Amós Oz é esse lançado a pouco ‘Cenas da vida na aldeia’, lido numas duas madrugadas.
‘Cenas da vida na aldeia’ é um livro de contos que pode ser lido como romance. Ou, se preferir, um romance que pode ser lido como um conjunto de contos. A possibilidade se dá no fato de personagens se interligarem nas tramas e no tema chave da obra: a solidão e a perda.
Os oito contos que compõe o livro são passados na aldeia (obviamente) de Tel Ilan, que fica em regiões montanhosas de Israel. É lá onde a médica Guili Steiner espera um sobrinho que vem de Tel Aviv e nunca chega, num ambiente tocado pela frieza e violência do contato humano. Na aldeia de Tel Ilan, o corretor de imóveis Iossi Sasson não esboça a mínima reação em um processo de infantilização e morte no final do conto ‘Os que se perdem’. O presidente do conselho de Tel Ilan só consegue perceber sua mulher quando ela desaparece. Quem lê essas linhas já deve ter percebido o clima do livro. É isso, tristeza, solidão, ocasionalmente a perda do contato. As personagens se movem com tristeza, se deslocam como animais, frios e indiferentes. A metáfora da perda de Amós Oz é uma reflexão sobre o fato de estarmos tão próximos e tão dispersos num espaço tão curto. Os tempos modernos demonstram isso. Vai-se embora aí a primeira década do século XXI, sem rosto, sem identidade. Perdida. Enfim, antes que esse texto está tomando rumos que não pretendo tomar. Vamos falar dos personagens. Ano passado já havia lido outro livro de contos em que os mesmos personagens surgem em quase todas as histórias. Chamava-se ‘King Kong e as cervejas’, de Fabrício Corsaletti. Amós Oz usa o mesmo padrão. Vira e mexe o personagem do conto anterior está participando da ação no conto posterior.
No aspecto estético, o israelense se sai mais completamente realizado nos derradeiros relatos da obra. Em ‘Os que são estranhos’, há erotismo fino, desembocando na já citada solidão e violência em que as relações ali surgem. E à lá ‘Memórias do Subsolo’ no conto que fecha a obra, ‘Longe dali, em outro tempo’, Oz se vale da sordidez intimista dos contos anteriores transportada para um pântano verde, onde meninas dão à luz aos dezesseis anos e aos vinte estão acabadas, pulgas e insetos pestilentos roem tudo que há pela frente, gente deformada ou apalermada.
Amós Oz não tem a presteza de um Philip Roth, nem a engenhosidade estética de um J.M. Coetzee. Tendo em vista que junto a Thomas Pynchon, Roberto Bolaño, Cormac McCarthy e Enrique Vila-Matas, os dois primeiros autores citados já estão estabelecidos como ‘clássicos contemporâneos’, Amós Oz já deve ter ao menos seu lugar marcado como (mais um, mas e daí?) observador das dificuldades das relações humanas.


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