Danças folclóricas do Alto Oeste Potiguar

Manoel Cavalcante
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O Rio Grande do Norte, terra de Cascudo, Deífilo Gurgel e de um folclore riquíssimo, tem, no âmbito das danças populares, grande destaque na cultura geral.

Damos partida com a ‘famosa’ Araruna, dança genuinamente norte-rio-grandense, com traços autênticos e distintos das outras danças de roda e do coco.

O Araruna existe desde 1949 quando mestre Cornélio Campina, criador da dança, organizava ensaios no quintal de casa.

Com o apoio de Djalma Maranhão e Câmara Cascudo, foi fundada a Sociedade de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna, em 24 de julho de 1956, a única do Estado com sede e estatuto próprio.

A Araruna é oriunda das danças aristocráticas europeias de salão, misturada com a valsa, polca, xote, mazurca e estilo popular de caráter folclórico. Os cavalheiros usam casaca e cartola e as damas, longos vestidos de saia rodada.

Apresentam normalmente com 8 a 10 pares de dançarinos que executam diversos números, alguns de origem folclórica e outros não: Caranguejo, Bode, Besouro, Araruna, Camaleão Jararaca, Maria Rita, Xote Sete Rodas, Miudinho Mazurca e Maria Rendeira.

Com o falecimento do mestre Cornélio Campina, em 2008, no dia 13 de agosto, aos 99 anos, a lacuna deixada foi imensa e não preenchida até hoje.

Major Sales_5Major Sales, a capital do folclore potiguar

Descendo ou pulando para o outro lado do mapa, aqui bem pertinho de Pau dos Ferros, em José da Penha, o Grupo de Xaxado Estrelas do Cangaço, viaja e se apresenta em festivais diversos, levando nossa cultura mundo a fora.

A 21ª Feira Internacional do Artesanato e o 14° Festival de Dança Folclórica do RN são exemplos de eventos que o grupo marcou presença nos últimos tempos.

A própria Prefeitura Municipal realiza a Mostra de Artes e Espetáculos Populares na praça de eventos do município, na qual se apresentam grupos de Cablocos, numa completa festa de preservação cultural e identidade.

Andando mais um pouquinho na tromba do elefante, encontramos Major Sales, praticamente a capital do folclore do RN, cidade destaque em todo o país.

Com Cablocos e o Rei de Congo, a cidade é uma bandeira de identidade cultural e de reverência ao folclore, produtora de concursos de cablocos e festividades anuais, atraindo estudiosos e entusiastas culturais.

Quem carrega esse legado nas costas é Francisco de Assis Silva, o Mestre Bebé, que mantém viva na cidade, junto com parcerias e uma equipe, a tradição oriunda do século XIX.

Rei do Congo

Tradição afro-brasileira, o congado recebe influências angolanas, congolesas e ibéricas, em que a música e a dança consagram elementos religiosos; é uma bandeira de identidade cultural em Major Sales, cidade produtora de concursos de cablocos e festividades anuais, que atraem estudiosos e entusiastas

Caboclos e Rei de Congo do Mestre Bebé

Os grupos de Cablocos e Rei de Congo do Mestre Bebé são destaques por todos os recantos. Além de concursos e certames vencidos, apresentações no Brasil inteiro são somadas no currículo.

O grupo foi cogitado para abrir os jogos da Copa do Mundo de 2014 em Natal, no estádio Arena das Dunas.

Recentemente, representou o Rio Grande do Norte no 51° Festival de Folclore, em Olímpia-SP. É de encher os olhos, bater no peito e dizer: eu tenho identidade, eu valorizo minhas raízes e minha cultura.

E Pau dos Ferros? E Pau dos Ferros? Pau dos Ferros não têm essas manifestações culturais? Existem ou existiram danças folclóricas em nossa cidade? Quem vivencia a cidade hoje imagina que não. Que não existiu, que não existe, que não existirá.

Se vê quadrilhas estilizadas com produções luxuosas que descaracterizam as tradições regionais, aqui vai um salve para o grupo do Bairro Riacho Meio, na pessoa de Mazaropi, que resistiu ao tempo e às mudanças superficiais e manteve o sertanejo e a figura do matuto vivos em sua apresentações.

Se vê até cover de Michael Jackson, se vê os Street Dance da vida, e mais e mais reproduções das culturas hegemônicas.

Mas e nós? E as nossas? Estão nos livros velhos, nos baús do esquecimento, roídas pelas traças da politicagem e dos desgovernos, ou talvez do seu lado, no olhar e no coração da pessoa mais simples, seu pai, sua mãe, seu tio ou seu avô.

Pastoril, Maneiro-Pau e Reisado

No livro Pau dos Ferros à sombra da oiticica, o autor alerta para a existência de danças folclóricas nos anos 40, como Pastoril, Maneiro-Pau e Reisado.

Dancas folclóricas.mestre bebé

Mestre Bebé do grupo de Cablocos e Rei do Congo mantém viva em Major Sales a tradição oriunda do século XIX.

O Pastoril foi liderado por seu Lindolfo Noronha e Dona Cotinha. Já o Reisado tinha como principal haste seu Tomé Anastácio, no Sítio Gangorra, hoje município de Rafael Fernandes.

Todavia, o grande destaque e a dança mais popular era o Maneiro-Pau, oriunda do cangaço, possivelmente nascida na região do Cariri Cearense. Não só em Pau dos Ferros, mas em toda região, foi a dança e manifestação artística mais praticada em meados do séculos XX, sendo a principal marca folclórica das épocas passadas.

É uma dança de roda, brincada exclusivamente por homens (isso na época), tendo como característica o uso de bastões de madeira entrechocados para acentuar a nota do canto.

Há um ‘puxador’, que precisa ter a veia poética e inventar versos e frases momentâneas para tornar a brincadeira mais dinâmica. Os que participarem da brincadeira vão entoar o coro: “maneiro-pau, maneiro-pau”, ou outros coros sugeridos pelo puxador.

Dancas folclóricas.mestre cornelio campina.2

Mestre Cornélio Campina morreu em 2008, no dia 13 de agosto, aos 99 anos, deixando uma lacuna não preenchida até hoje

Reverência ao passado

O Sítio Maniçoba, o Sítio Tigres, Várzea Alegre e até o CCP (Clube Centenário Pauferrense) eram palcos de exibições do maneiro-pau nas épocas passadas.

-Perguntem a seus pais e a seus avós…!

E é na Maniçoba, palco dos tradicionais forrós de Cicinho Queiroz, e no Sítio Poço Comprido, que o Maneiro-Pau dá seus raros suspiros.

Através de pessoas como Maria Nascimento, conhecida como Bebem, e seu João Negreiros, a cultura da dança, mesmo que timidamente, se mantém viva.

Bebem realiza todos os anos, em sua casa, a brincadeira do Maneiro-Pau. No ano passado, seu João Negreiros, 73 anos, figura muito conhecida em Pau dos Ferros por ter sido a vida inteira frentista do posto Segundo Melo, o Posto Esso, reuniu amigos e familiares para ‘jogarem’ Maneiro-Pau no Sítio Poço Comprido.

Dancas folclóricas

“Só nos resta agradecer e louvar esses abnegados que cultivam e defendem nossas raízes”.

Seu João Negreiros detalhou que chamou, junto com seu filho, as pessoas para brincar, foi sozinho à mata para cortar os bastões de violeto, madeira que produz o som característico e que dá vida à dança.

Relatou ainda que antigamente era muito comum, desde o tempo dos seus 18 anos, e existiam vários lugares em que a dança era executada com famosos puxadores, como o poeta e ex-vereador aqui já biografado, João Pereira.

Só nos resta agradecer e louvar esses abnegados que cultivam e defendem nossas raízes. Aprender com Major Sales e José da Penha e rezar, orar e invocar os deuses para que nossa cultura seja ressuscitada. Amém?!

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Manoel Cavalcante

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