Dante e a Cosmogonia

20 de agosto de 2010 às 11:59 - 2 Comentários
Por João da Mata

Ilustração: Gustave Doré (A Divina Comédia)

Na história da literatura Italiana, o séc. XIV, o “Trecento”, é quando essa literatura atinge seu ápice. Difícil reunir tantos gênios:- Dante, Petrarca e Boccaccio-, num só século e país. No “Trecento”, nenhum país podia competir literariamente com a Itália. Na obra de Dante Alighieri (1265- 1321), a literatura do medievo atinge sua culminância, a realidade mais viva é amalgamada pelo amor, e nasce um mundo poético que se adapta às mais altas harmonias das esferas celestiais.

A comédia, a Divina Comédia de tão bela e perfeita, é um dos maiores livros de toda a literatura. A obra é dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Terminando com esses versos magistrais:

“l‘amor che muove il sole e l’altre stelle”

No Paraíso (canto XXVIII), Dante expõe a sua concepção de mundo, herdada de Aristóteles-Ptolomeu e adotada pela escolástica com a anuência da igreja: A Terra é constituída por um globo fixo e imóvel à volta do qual circulam todos os outros corpos celestes, com o período de um dia para o Sol e os planetas e de um ano para as estrelas fixas; o que corresponde aos movimentos aparentes desses corpos para um observador situado na Terra ( Mauro 1999). Dante volve o olhar para Beatriz, que estava atrás dele; depois ele olha para a frente e vê um ponto brilhantíssimo em torno do qual se movem nove círculos de luz, que giram mais rapidamente e são mais brilhantes quanto mais próximos estão dele. Aquele ponto é Deus, os círculos são os coros angélicos. O primeiro círculo é ocupado pelos Serafins, o segundo pelos Querubins e o terceiro pelos Tronos, que em conjunto formam o primeiro ternário. No segundo ternário estão as Dominações, as Virtudes, e as Potestades; e no terceiro, os Príncipes, os Arcanjos e os Anjos. Ao nono céu, o “Primum Mobile” onde Dante e Beatriz estão, corresponde, em virtude, o primeiro círculo dessa esfera; ao oitavo, das estrelas fixas o segundo círculo, o dos Querubins e assim por diante até o céu da Lua, o primeiro no qual corresponde ao círculo dos anjos.

Mas Beatriz, que o enlevo meu notava
- “Daquele ponto o céu e a natureza
Estão na dependência”- me falava

“Olha o círc’lo mais próximo e a presteza,
Que tanto lhe acelera o movimento
De ardentíssimo amor punge-o a viveza”.-

“Mas no mundo sensível me parece
ser cada esfera tanto mais divina,
quanto mais longe do seu centro desce.
[...]

O círc’lo, pois do qual arrebatado
Gira o alto universo é, referente
Ao de amor e ciência dotado

A poesia do Universo

Numa rara coincidência de imaginação poética e matemática, o poeta Dante (séc. XIII) chegou a conceber uma visão de do universo que tinha notáveis semelhanças com o universo do grande matemático Bernhard Riemann ( séc. XIX). Riemann, filho de um ministro protestante, inventou uma geometria não euclidiana que podia ser aplicada a um espaço curvo com três ou mais dimensões. Essa geometria foi muito importante no desenvolvimento da matemática e da física moderna. Na divina comédia, Dante descreve o seu universo formado de duas partes. Um delas tem a Terra no centro, em torno da qual giram as esferas da Lua, do Sol, dos vários planetas e das estrelas fixas. A esfera exterior, que envolve todo o universo visível, se chama “Primum Mobile” ( nono céu). O que se encontra além dessa esfera é o “Empíreo”, que Dante representa por outra esfera, com várias ordens de anjos dando voltas em esferas concêntricas ao redor de um ponto central que irradia uma luz muito intensa, quase segadoras.
O poeta, partindo da superfície terrestre, percorre, conduzido por Beatriz, as diversas esferas do universo visível até chegar ao “Primum Mobile”. Observador ( Dante): Dante volve o olhar para Beatriz, que estava atrás dele; depois ele olha para a frente e vê um ponto brilhantíssimo em torno do qual se movem nove círculos de luz ( nove círculos angélicos), que giram mais rapidamente e são mais brilhantes quanto mais próximos estão dele. Neste ponto, Dante observa dentro da esfera do empíreo. Como não existe nenhum ponto privilegiado do “Primum Mobile”, presumidamente, de qualquer ponto que se observa vê- se o interior do Empíreo. Dito de outra forma, poderíamos considerar o empíreo rodeando o universo visível e ao mesmo tempo, também, adjacente a ele. Qualquer círculo traçado do empíreo pertence à superfície esférica Riemanniana. Se este for o caso, o universo concebido por Dante, é exatamente o que concebeu Riemann. A forma do universo Dante – Riemann, é o que os matemáticos chamam espaço esférico ou hiperesfera. É uma esfera comum, transportada para uma dimensão maior. Mais uma vez a arte e ciência se unem num canto à beleza e perfeição do universo.

Bibliografia

1- Alighieri , Dante A Divina Comédia Trad. José Pedro Xavier Pinheiro – Ed. Calçadense Ltda RJ 1956

2- Alighieri , Dante A Divina Comédia – Ed. Bilingue- Trad. e notas de Eugenio Mauro Ed. 34 1999

3- Osserman, Robert La Poesía del Universo Crítica- Barcelona Trad. Mercedes Garcia Garmilla 1997

2 Comentários

  1. Alex de Souza
    20 de agosto de 2010

    João, você se superou nessa de ligar a poética dantesca à geometria não-euclidiana de Riemann. Grande sacada. Recentemente, por mera curiosidade já que não é minha praia, estava lendo sobre a matemática dos séculos 19 e 20 e passei umas boas duas semanas tentando conceber a tal esfera tridimensional. E você explicou a danada em cinco linhas!

  2. João da Mata
    21 de agosto de 2010

    É isso ai amigo

    tenho estudado as cosmogonias em Camões, Dante, Mario de Andrade, etc

    Me fascina a relação da poesia, da literatura com a Física

    Abraços fraternos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
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    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
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