Das cartas que não escrevi

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PARA ALGUÉM ALÉM DA COSTA

Escuta… Esta carta tem o som do seu cantor predileto. Aquela voz rouca, a melodia tranquila de uma tristeza tão bonita – tão bonita quanto a expressão dos seus olhos naquele dia em que eu vi sua pupila à luz do Sol das três, o último dia da primeira vez, na verdade. Se você pudesse tocar meu braço agora, riria dos pelos arrepiados, e é assim que eu fico toda vez que ouço essas músicas. Lembra de quando eu lhe disse, naquela mesa de bar, que minha mente funciona de uma maneira curiosa com trilhas sonoras? Você riu com os olhos, e eu ri daquela sua calça de pijama colorida. Você não se trocou antes de sair – ou ainda, você já estava pronto para partir, assim como sempre esteve nos últimos dez anos e alguma coisa.

Eu estava próxima à sua casa, mas eu questionava se estaria próxima da sua morada – ou se isso seria possível em algum momento. Confesso: como e quanto desejei isso. Mas ele já tinha me avisado, antes mesmo de você, sabia? I belong with the salt and the sea and the stones…”. Contentei-me com sua cabeça descansada no meu peito, ou na minha cintura, no encaixe perfeito do ilíaco, com seus dedos brincando com meus lábios. Gosto bobo, riso frouxo… Fotografei.

Agora, ouço um barulhinho de mar. Você pode estar ensaiando os próximos versos a escrever na fumaça de seu cigarro, a enxergar nessas ondas além, muito além da última rede em que se deitou. Hoje, outros tecidos lhe cobrem à noite. Outras bebidas lhe são servidas aos goles, “smoky mouth”. Talvez, um fio de cabelo branco a mais. Uma poesia, uma canção a ser finalizada. Uma juventude ainda a ser sentida, a ser arriscada, mas sabe… Sentimentos são riscos, mas são vitais. Tem tanto dentro de você, mas tanto, tanto, tanto… Você consegue ver? Eu tentei lhe mostrar, dizer-lhe em olhares, poesias, voz e gestos. Você conseguiu ver?

Sigo curiosa e sedenta por respostas, as quais – quiçá – não alcançarei. Por que tanto receio? Por que tanta cautela em estabelecer um limite? Por que, pra quê… Escrevo isso com um ressoar de Damien Rice no peito, e desculpe se uma lágrima escorre em meu rosto agora. É que me faltou lhe dizer tanto, mas tanto, tanto, tanto, tanto… O tanto que senti falta, o tanto que lhe quis mais perto, o tanto que aqueles olhos coloridos me fizeram mal, o tanto que você poderia confiar mais em mim, o tanto que eu almejei arriscar, o tanto que quis ouvir seus sentimentos – e não apenas seus pensamentos. Eu nunca iria lhe machucar – e o por tristeza minhavocê sempre teve consciência disso. Restou-me um nó na garganta que tento compensar, resolver nessas linhas, sob a esperança de que as leia, mesmo que esta carta caia, como outrora, between the bed and the wall. Será que você ainda guarda aquela carta… Enfim. Tentei, mas alguma coisa em seu coração estava fechada, assustada… Algo no meu coração também se fechou e se amedrontou. Duas crianças encolhidas nas cobertas, no escuro: o desconhecido.

Os dias de “corpo aqui, mente acolá” aliviaram na dose. O ser humano é essa coisa esquisita que não aprende tão facilmente… Sentimento leva tempo. Significado leva uma vida. De todo o meu coração, de toda a minha alma, você foi uma das coisas mais bonitas que já me aconteceram, e está na hora de você encarar, de fato, a minha gratidão. Mais uma vez, não me leve a mal, é que eu sou, realmente, abobalhada e prolixa. Ah, por bem já nos conhecemos o bastante para repetir esses detalhes.

Se chorei, chorei. Mas poderia lhe olhar nos olhos e prometer: está tudo bem, meu bem, fomos o que tivemos de ser, demos de nós o que tínhamos de disponível, ajudamo-nos, e hoje somos outros em contribuição mútua, de um afeto que nunca caberá em todas as linhas que já escrevi. Afeto – está lembrando de algo?

Guardo você comigo.

Poesia nos olhos – para sempre.

Jangada Velha

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