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Das chuvas que ainda não chegaram

chuva

O mês de abril terminou e ficou devendo chuvas a 2017. Maio já está no fim, avistando junho, e também tende a passar para a história como mais um mês caloteiro… Prometeu chuvas e não entregou e nesta pisada já vamos marchando para o sexto ano de estiagem no Seridó que a gente ama.

Não foi, todavia, sem um completo aviso. O ano começou com perspectivas, mas a dúvida já existia. Mesmo contrariado por equívocos e imprecisões, os doutores entendidos do tempo já sinalizavam preocupação com o inverno de 17. Como é melhor uma esperança tarde a um desengano cedo, já aproveitaram também para dizer que em 18 o tempo avisa que a chuva tende a chegar. A espera é doída, sobretudo para quem planta e cria. Sem água, o que se planta não aparece; o que se cria, morre.

Enquanto não chega a água que se espera, as cidades vão amargar severo racionamento, economia que os sítios já conhecem há décadas e décadas! Nas secas de tempos atrás, o sertanejo corria para criar alternativas, desde austero consumo até a abertura de cacimbas. Não eram disponibilizadas máquinas. A abertura era no braço e, algumas vezes, com a ajuda de boi manso e carroça. A água, nem sempre limpa, servia para quase tudo… De um lado, para o gado beber; de outro, para o serviço da casa.

A propósito, Paulo Balah, meu tio-avô, me contou recentemente que em uma das secas tiranas do século passado a água de beber da Fazenda Pinturas, sob o comando de seu pai Silvino Adonias Bezerra (04/07/1891 – 21/04/1959), de quem sou descendente, vinha de fora, de uns tanques esculpidos pela natureza nas pedras da Pendanga, propriedade também encravada no Acari de nossas raízes. Para lavar a roupa da casa e da família, alguém ia com fardos até outra propriedade, longe mais de légua, para usar uma água melhor.

O percurso chegava na Fazenda Angicos, também no Acari que a gente quer bem, para que as peças fossem limpas. A água do gado era da cacimba cavada na terra seca do açude e a ração – de xique-xique a galhos de oiticicas – tinha de ser arrancada da própria propriedade, ao contrário de hoje que a comida dos animais – para os que podem pagar – chega pelas rodovias em sacos de milho, soja, torta e outras misturas.

A luta na seca se agiganta e, para quem gosta da natureza, a angústia é tão grande quanto o prejuízo. A angústia é, sobretudo, pela fome e sede que abate os animais, alguns dos quais chegam a urrar. O sertanejo, não raro, prefere vender o rebanho a conviver com o sofrimento dos animas. Não foram poucos os relatos ouvidos de sertanejos fortes, com os olhos rasos d´água, dizendo que não suportavam mais um ano pela frente convivendo com a fome dos brutos.

Não sei se maio pagará a conta que deve… Ainda faltam alguns poucos dias. No mês de junho, uma frente fria ainda pode surpreender um ou outro local. Registros para todos os gostos podem ser encontrados no sentido de mostrar açudes que receberam boas quantidades d´água mesmo no final do tradicional período invernoso. É bom que venha e, na hora que chegar, será bem-vinda! Aliás, o bom mesmo é falar sobre açudes cheios, riachos transbordantes, colheita farta, gado gordo e o contágio da alegria que uma boa chuva é capaz de promover.

Assim, mesmo o ano 17 – até agora – meio desmantelado, com chuvas rápidas e finas que não conseguiram juntar água na terra quente e seca que encontrou, não podemos entregar os pontos. O tema da água precisa entrar na pauta de todos. A prioridade precisa ser mais clara e contundente, com a vontade de colaborarmos para que tempos melhores inaugurem momentos mais felizes. O pote pode até não ter água abundante, mas não deve ficar seco de esperança.

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Fernando Antonio Bezerra

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