Crônicas e Artigos

Das lembranças de fevereiro

barragem

O mês de janeiro começou meio acabrunhado sem dizer se teríamos, ou não, as chuvas necessárias para a continuidade da vida no sertão… Foi um mês um tanto ingrato, na maioria dos lugares, mas fevereiro se apresentou mais generoso e renovou nossas esperanças.

Em Serra Negra do Norte, cidade das mais antigas do Seridó, as principais águas chegam pelo Rio Espinharas, vindas das chuvas da Paraíba. Aliás, há quem diga que o inverno chega ao Seridó por Serra Negra. Pela terra, através do Rio Espinharas que, no território paraibano, já recebe águas dos Rios da Cruz e Farinha e as entrega ao Piranhas. Pelo ar, pelas chuvas que começam no Piauí e se deslocam para cá depois de uma expectativa de meses. Não sei se é assim, mas assim já me foi dito.

Contudo, em 2017, mesmo com boa localização, Serra Negra do Norte já tinha encontro agendado com o pesadelo: no dia 15 de fevereiro, o sistema de abastecimento d´água seria desativado. A Barragem Dinamarca estava secando…

A Barragem, construída no leito do Rio Espinharas, é o coração da cidade. Foi um sonho de décadas realizado a partir de 1995 sob a articulação do então Vereador Ruy Pereira dos Santos (1949-2010) que, em 1996, se elegeu Prefeito e, a partir daí, elegeu como prioridade a conclusão da histórica Barragem Dinamarca. Ruy conquistou o apoio da Fundação Nacional de Saúde, a participação efetiva do Governo do Estado e tudo mais que conseguiu juntar na Prefeitura para concluir a obra. Sob sua liderança, com o apoio de autoridades e anônimos, a Barragem Dinamarca foi entregue em 1998 com capacidade de armazenamento estimada em 5 milhões de metros cúbicos d´água. Em 2016, por iniciativa do Vereador Damião Galvão e com aprovação da Câmara Municipal, o nome de Ruy passou a nominar a Barragem. Justa homenagem!

Ruy Pereira dos Santos tinha foco, compromisso, capacidade de liderar e, sobretudo, amor ao interesse coletivo. Quem o conheceu sabe bem: depois da primeira reunião e do contágio de sua euforia, muitos se decidiram pelas causas para as quais ele viveu e, pela quais, sua memória continua a lutar. A construção da Barragem foi um exemplo da articulação por ele exercida em torno de um propósito maior.

Ruy, filho da determinação e da simplicidade de José Pereira dos Santos e Maria Lalá, é personagem e um dos protagonistas principais da bela e rica história narrada a partir da casa inacabada da Rua de Cima da Lucrécia (RN).

Personagem que acreditou na educação, na disciplina, na defesa do interesse coletivo e no bem querer para superar a fome, a intolerância política e os horizontes das terras secas. A rica história de superação de Ruy e de seus irmãos – Jaime, Ari, Fernando e Elisa – é impressionante diante das dificuldades surgidas da pobreza, da perseguição sofrida e das agruras de um sertão, naquela época ainda isolado. Enfim, Ruy superou, venceu e viveu outras tantas belas histórias que se integram a sua vida como um enredo cinematográfico que, certamente, recebeu de Deus bênçãos de apoio e estímulo.

Das lembranças de fevereiro, portanto, uma é dolorosa: Ruy foi para o horizonte que a fé nos faz enxergar em 2010, no dia 11. Uma outra é alentadora: a Barragem cuja liderança de Ruy construiu e hoje o homenageia, transbordou novamente, cantando a alegria da cheia, ainda no último 11 de fevereiro de 2017. Sentimentos que se enfrentam; contradições que afloram, registro de uma história que continua com o encontro das esperanças: que a Barragem continue a transbordar, permitindo que a água chegue a outros recantos; que outros líderes, como Ruy, se apresentem para a realização de outros sonhos. Avante!

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Fernando Antonio Bezerra

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