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De apontamentos do passado

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Foto: Ney Douglas

Alguém pode alegar minha suspeição por laços de admiração, mas a história do Rio Grande do Norte deve muito ao Sebo Vermelho e ao editor Abimael Silva, em especial pela reprodução de obras clássicas – e necessárias – para entendermos a caminhada potiguar trilhada até aqui. Em particular, refiro-me ao resgate da obra “Breve notícia sobre a Província do Rio Grande do Norte” publicada, inicialmente, em 1877 por Manoel Ferreira Nobre.

Ferreira Nobre

Câmara Cascudo e Antonio Soares estudaram o autor. Ferreira Nobre era de Ceará-Mirim. Em síntese, foi funcionário público, Deputado provincial e rábula. Colacionou informações em uma síntese que marcou, segundo os pesquisadores, a primeira publicação sobre a história do Rio Grande do Norte e, de fato, nos traz informações interessantes e, não raro, significativas. Ferreira Nobre, pelo que produziu, é patrono de uma das cadeiras da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

No distante ano de 1877 o Rio Grande do Norte tinha 08 cidades, 15 vilas e 13 comarcas, dentre as quais a Cidade do Príncipe, hoje Caicó de todos nós! O autor faz alguns comentários sobre a terra que nos abriga e traz informações da época. Um comentário inicial é bastante interessante. Disse Ferreira Nobre há 140 anos: “as mulheres são geralmente belas, de costumes puros, sinceras nas suas afeições e fieis aos deveres de família e religião”.

Também o autor busca inserir em sua pesquisa dados econômicos e outras considerações sobre a Cidade do Príncipe. Sobre o Comércio, por exemplo, aposta que é “florescente” e registra: “além dos bons estabelecimentos comerciais, um grande número de mascates da Paraíba do Norte, se dirigem à cidade, no mês de julho de cada ano, para exercerem sua profissão”. Ora, assim continua até hoje… Caicó exerce um protagonismo regional que vem de seus primórdios, cuja vocação deve ser estimulada. Ademais, pelo que atesta Ferreira Nobre, nossa ligação com a Paraíba vem de muito longe. Os paraibanos, no contexto citado, chegavam no mês de julho, por ocasião da Festa de Sant´Ana, para venda de seus produtos, apesar do comércio promissor já estabelecido na cidade daquele tempo.

Sobre o tempo e a agricultura, pouco mudou. O relato de 1877 diz que o ano caicoense tinha – como ainda tem – apenas duas estações: meses de inverno, quando chega; meses de seca, que pode ser maior que o esperado! E desde lá a reclamação não era diferente: “dificuldades com que luta a agricultura, devido à escassez do trabalho escravo, no alto sertão da província; aos impostos opressores; à irregularidade das estações e aos embaraços no transporte dos produtos da terra”. Evidentemente que o trabalho escravo nunca deveria ter existido, mas, infelizmente, é o relato verdadeiro da época. Entretanto, decorridos mais de cem anos, os impostos continuam gigantes; as secas ainda mais agressivas e os embaraçados aos produtos da terra, de certo modo, até aumentaram, tanto pela precariedade de algumas estradas, quanto pelo aumento da burocracia. Aliás, naquela época a maior burocracia era um bilhete. De lá para cá o aumento foi além do suportável e, pelo visto, não resolveu o que pretendia e ainda atrapalhou um tanto a vida de quem planta e cria.

Outros registros são feitos pela pesquisa de Ferreira Nobre, incluindo uma menção honrosa ao Professor de Latim Manoel Pinheiro do Coração de Maia que, segundo o autor, começou seus trabalhos em Caicó no dia 02 de fevereiro de 1874. É o berço da educação caicoense!

De todo modo, no que se refere a Caicó, muita coisa boa também aconteceu de lá para cá, mas a essência da cultura e da economia parece que se mantém fiel aos fundamentos da época. Para vislumbrar o futuro, contudo, a produção precisa enfrentar novos desafios. A terra que Sant´Ana fez morada tem mais gente e menos água. Precisa encontrar a conta do equilíbrio.

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Fernando Antonio Bezerra

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