Crônicas e Artigos

De Botijas e Malassombros

rajada1

Serra da Rajada, sertão do Seridó

Quem não sonhou com uma botija ou não ficou impressionado com uma história de assombração nos alpendres do Seridó? Quem viveu o sertão rural, certamente, ouviu falar nos tesouros escondidos no piso ou em paredes de casas antigas, algumas até abandonadas. E também dos sonhos onde alguém das entranhas misteriosas do outro mundo vinha contar onde encontrar a tal botija.

De fato, as botijas existiram. Os que nos precederam nas veredas do Seridó não tinham instituições bancárias disponíveis. Nos anos de inverno, as propriedades rurais tinham o básico produzido, do feijão à boa carne; da fruta na traseira do açude ao melhor doce mexido com colher de pau. Assim, das vendas dos queijos, gado, algodão e outros produtos o que eventualmente sobrava, era guardado. E quanto mais idoso, em regra, mais seguro o sertanejo, principalmente, as mulheres quando tomavam parte nos negócios dos maridos. Por tradição, com medo do olho grande de espertos de dentro e de fora ou de bandidos, a reserva era enterrada.

Quem tinha a sorte de sonhar com o local da botija, tinha direito a ficar com o achado. Contudo, o sonho do anúncio nem sempre era bem recebido. Gente com medo de alma sempre teve. Ainda hoje se soma em carradas. E o medo era ainda maior quando a suposta alma era desconhecida. Tem história, portanto, para todos os gostos, com mais ou menos malassombro; com almas mais santas ou mais inquietas.

Luiz Pereira de Brito, seridoense de Serra Negra do Norte, mestre universitário dos mais aplaudidos em sua área de atuação, me contou que seu pai, Geovanito Pereira de Brito, gente de extraordinária qualidade, falecido em 2007 por volta de 85 anos, sabia conviver e enfrentar – com fé e serenidade – os mistérios das manifestações espirituais. Homem de reza, Seu Nitinho, como era chamado, tratava o assunto com respeito e tinha o relato de pessoas que encontraram botijas, inclusive, com o seu aconselhamento em relação a reza apropriada a fazer para que o espírito partisse em paz. Em um dos casos, a família aconselhada deixou a moradia onde encontrou a botija. Era regra comum: não ficar onde encontrou botija; mandar celebrar missa pela alma ainda presa as questões terrenas.

Helder Alexandre Medeiros de Macedo, um dos grandes pesquisadores do Seridó de todos os tempos, foi além e escreveu, em parceria com Thiago Stevenny Lopes, sobre “a botija da Serra da Rajada”, sistematizando, com riqueza, o ritual de extração e tudo o mais que ouvimos nos alpendres sobre as almas que aparecem em sonhos ou sussurram nos ouvidos de quem ainda vive por aqui. Helder, inclusive, lembrou Nilda Medeiros Dantas, filha do genial Felinto Lúcio Dantas (1898-1986) que disse ter recebido em sonho a informação de uma botija “incrivelmente recheada de riquezas na Serra da Rajada”. Pelo que entendi não sonhou apenas uma vez, inclusive, o espírito – supostamente de um alemão ou holandês – disse que viria dias depois e, de fato, apareceu com mais detalhes sobre o tesouro da Rajada. “Dona Nilda, entretanto, nos relatou em vida que acabou contando o sonho a terceiros, o que a fez perder o controle sobre a riqueza que lhe fora oferecida.”

Outras pessoas também sonharam com a botija da Serra da Rajada, inclusive, algumas relacionadas na pesquisa de Helder. Mamede de Azevêdo Dantas (1875-1956), homem simples e inteligente, historiador carnaubense, por exemplo, deixou escrito: “Naquela Serra da Rajada, tão bonita existe um mistério. Diziam os antigos, que alguém muito importante veio de longe, depositou um tesouro naquela Serra. Quantas e quantas pessoas não vieram até de longe procurar o tal tesouro e nunca encontraram. O tesouro da Serra da Rajada, um dia será encontrado por um Azevedo Dantas. Os anos vão se passando e os estudos vão aumentando. Então, um descendente dos Azevedo Dantas se formará e será ele quem descobrirá o mistério da Serra da Rajada.”

Enfim, muito mais sobre o assunto existe para contar, mas penso – se existirem – são poucas botijas ainda não encontradas. Sobre a crença da alma solicitante ou da aparição no pé da rede, cada um guarda a sua fé e assim deve ser respeitado.

Share:
Fernando Antonio Bezerra

Comentários

Leave a reply