De como se alcança o triunfo

14 de janeiro de 2010 às 11:07 - Comentar
Por Rodrigo Levino

Eu fui uma criança socialmente prejudicada. O fundo de garrafa que a miopia me presenteou já aos quatro anos de idade permitiu poucas molecagens. Obvio que por mim quebraria quantos óculos fossem preciso, de bolada e iô-iô na cara, como foi o caso num par de vezes. No entanto, cercado pelos cuidados maternos, restou dentre todas as opções de se estabacar na vida e voltar chorando para casa com o sangue dando no meio da canela, o de andar de bicicleta. Coisa que rendeu uns fracassos, mas não considerados tão nobres do que metade da cabeça de um dedo voando pelos ares num chute mal colocado, no campinho de terra da rua.

Nas cercanias do bairro Penedo, em Caicó, só saber andar de bicicleta contava uns dez pontos a menos no ranking da turma. O grande trunfo era driblar pela esquerda, invadir a pequena área e chutar a gol. Isso quer dizer que eu contava quase nada. Se não era uma vergonha para a família, devo o socrro ao meu irmão, mais novo, afeito à pelota e suas fintas.

Quando não estava com a bicicleta debaixo dos pés, me aprazia em peruzar os jogos, agourar um pênalti e coisas do tipo. Não deixava de ser uma maneira de rogar atenção e conseguir alguém que acompanhasse numas pedaladas. Um ou outro mais afobado tratava de afastar a algazarra sempre ameaçando uns chutes na minha magrela. Nisso eu pedia penico e ia exercitar a sensação de dono do mundo. Que era mais ou menos como eu me sentia descendo as ladeiras que havia por perto. Pedalar é isso, se sentir o dono do mundo.

Que o diga o escritor austríaco Thomas Bennhard, que descreveu com maestria um sentimento que parece universal, de Salzburgo a Caicó, no livro ‘Origem’ (Cia das Letras, 2005). Diz ele: Quando estamos no ápice, não há nada que desejemos mais do que um observador a nos admirar, mas esse observador-admirador não estava lá. Contentei-me em observar e admirar a mim mesmo. Quanto mais forte a velocidade soprava em meu rosto, mais eu me aproximava da minha meta, (…) e mais radicalmente me distanciava do local da monstruosidade cometida. Nas retas, quando eu fechava os olhos por um momento, podia desfrutar da bem-aventurança do triunfo. Em segredo, comungava com meu avô: naquele dia, tinha feito a maior descoberta da minha vida até ali, tinha dado uma guinada em minha existência, talvez a decisiva, rumo à locomoção mecânica sobre rodas. Era daquela maneira, portanto, que o ciclista encarava o mundo: de cima! Vai a toda, sem tocar os pés no chão, é um ciclista, o que é quase como dizer: sou o dono do mundo.

Como nem tudo é triunfo, as quedas foram igualmente memoráveis. Umas vergonhosas, diante das vizinhas fofoqueiras que se escanchavam nas calçadas já no meio da tarde. ‘Tadinho, esse menino de Miriam vive se lascando nessa bicicleta’. Miséria. Daí a identificação com parte da narrativa de ‘Mãos de Cavalo’ (Cia das Letras, 2007), de Daniel Galera: A bicicleta flutua. Ele cometeu um erro. Esqueceu do quinto ponto delicado do percurso. As lajes de pedra cobertas de limo. Aquele trecho úmido de calçada, sob um teto de copas de árvores que justificam o nome “rua da Sombra”, está sempre coberto de limo. Aderência praticamente nula. É um sabão. A bicicleta derrapa, ele pensa em se jogar no chão, mas não há tempo, porque a roda dianteira bate no murinho de tijolos que delimita um pequenino canteiro decorado com uma dúzia de amores-perfeitos e camélias e agora ele e a bicicleta estão voando, e agora estão rolando juntos pelos paralelepípedos da rua da Sombra, o pé do Ciclista preso no quadro da Caloi aro 20 de freio de pé, e rolam e se arrastam abraçados por um punhado de metros, deixando para trás um rastro de poeira.
O Ciclista Urbano permanece pelo menos uns dez segundos imóvel no meio da rua, a perna ainda enrolada na bicicleta, enquanto os cachorros das casas ao redor latem enlouquecidos. Quando seu cérebro volta a funcionar, a primeira idéia que surge é que sua cara deve estar deformada.

No fim daqueles anos, os mais saborosos de qualquer vida, a minha cara estava intacta. Não foi o caso da citada sensação de ter o mundo embaixo dos pés, que mais dia menos dia finda no passado. Hoje, com o tal do mundo atropelando a vida, resta alugar uma bicicleta num desses parques sem graça de São Paulo e tentar, se não o triunfo, ao menos uma queda. Para lembrar como era.

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    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente