De fianças e desconfianças

Colunistas

Fiar-se. Confiar é deixar que o outro nos sinta a textura, o tecido. Que o outro nos sinta até os fios. Até os fios dos quais somos feitos. Confiar é fiar-se. Pendurar-se em varais no aberto, escorrer-se. Deixar o outro ser sol. Deixar expostas as inexatidões, as fadigas, os desmanches de que também somos feitos. Deixar à mostra ossos e fraturas. Jogar-se no abraço adivinhado.

Alguma coisa está em ordem demais quando as pessoas se bastam a si mesmas. Eu desconfio das ordenanças. Das ordens me afasto. A razão me amedronta quando também ela a si mesma se basta. Desconfio das exatidões, das ciências, das marcas incontestáveis, dos índices insuperáveis. Desconfio das coisas quando não querem transformar-se.

Talvez as ordens em mim também não se fiem, no que estão certas do ponto de vista delas. Quanto a mim, dou-me às incertezas ofegantes, às que estão longe das chegadas. Se evoco um cogitar resoluto, fraturas e fragilidades me espaçam. Não raro, finalidades me fogem, não adivinho os finais. Não raro, meus refúgios degradam-se nas lâminas de instantes.

Não, não é sempre que me sinto diluída, mas às vezes. Às vezes me diluo em escapes, fragmentos, solvências. Ninguém desconfia, mas às vezes, não raro, eu me esgarço.

Até dissolvida me sinto, mas não é sempre, não.

Porém, a realidade, também não é sempre, revigora-se. Eu com ela, embora me doam estes tempos em que minguaram os rituais do amor. Do amor, desconfia-se. O amor escorrega demais, o amor se dilui e também se dissolve.

Mas igualmente revigora-se nas cacimbas da alma, pois se fia na ternura. O amor revigorado confia. E os corações trincados sobrevivem, onde o odor do viver se obstina, mesmo com os vazios que às vezes chegam e se apossam das esgarçadas afeições e nos deixam inertes.
Confiar é apegar-se ao renascer das vontades frustradas. Escorrer o mel da libido para aderir à vida, mesmo sendo essa aderência um visgo de ilusão, um véu que embaça o nada de cada acontecimento.

Poucos desconfiam, mas há mundos atrás de véus. Há mundos atrás de palavras e há palavras tecendo véus. Há véus destecendo palavras. E por trás dos véus só vêem os que se fiam.

Confio nas escuridões que atravesso, talvez não devesse tanto, mas confio. Talvez não encontre nunca a confiança que guardo e que dou. Talvez não devesse confiar nas dúvidas, nem tratá-las melhor que as certezas.

Eu sei, sou regada com a seiva do talvez. Mas há sempre em mim uma porta aberta à confiança.

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