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De heroínas e santas

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Demorei um muito para entender que muitas mulheres que conhecemos são verdadeiras heroínas e santas, mesmo sem condecorações e sem holofotes de grandes celebrações. Não precisamos recorrer a biografias de fora. Estamos cercados por exemplos dignificantes de mulheres honradas que o Seridó de todos os tempos pode relacionar. Mulheres que em março e em todos os meses devem ser homenageadas.

No Caicó de todos nós a relação é extensa, dentre as quais, uma humilde heroína, mulher deCelestino dos Santos fibra longa em longa vida. Refiro-me a Maria Celestina dos Santos, conhecida pela maioria das pessoas como “Dona Mariinha do cachorro-quente”. Ela nasceu, segundo pesquisa do historiador Manoel Tavares Neto, na Fazenda “Pedra do Sino” no já distante 8 de março de 1917. Teria feito na semana passada, se viva fosse, 100 anos de muito trabalho, dedicação a família e zelo a fé católica.

Maria Celestina, filha de Francisco Soares e Maria Soares, contraiu matrimônio em 1932 com Pedro Celestino da Costa com quem gerou nove filhos, mas somente quatro sobreviveram: Maria das Dores da Costa, José Paulo da Costa, Pedro Celestino Filho e Paulo Celestino da Costa.

Em 1947, aos 30 anos de idade, ficou viúva. Aliás, a perda de pessoas queridas foi um sofrimento presente na vida de Dona Mariinha. Ainda criança, aos sete anos, ficou órfã de mãe. Perdeu filhos e o marido ao longo da vida, mas não perdeu a fé. Foi zelosa integrante do Apostolado da Oração e dedicada mãe e avó dos que tiveram o privilégio de sua convivência.

Viúva jovem e com filhos menores para criar, Dona Maria passou a preparar comidas de milho, bolo, tapiocas e doces para vender. Conseguiu, inicialmente, um local no Mercado Público. Enfrentou a luta e encaminhou todos os filhos, mas as despesas aumentaram com a ida de José Paulo e Paulo Celestino para Natal. Ela conseguiu com muito trabalho e austeridade encaminhar os dois filhos para o concorrido curso de Medicina da UFRN. Passou, então, a vender também cachorro-quente nas portas dos principais clubes da época (Cabana, ASSEC, AABB) nas noites de festa, assim como, na tradicional Praça do Coreto a cada julho, por ocasião da Festa de Santana. A lembrança de Dona Mariinha, com um neto ou ajudante, encaminhando a pequena banca (ou carrinho) para a venda de cachorro-quente nas festas da cidade era a imagem de uma mãe dedicada que, a cada dia, entregava um pouco de sua própria vida em função dos que amava.

José Paulo e Paulo Celestino concluíram Medicina. Maria das Dores, a filha, se tornou Professora em Caicó. Pedro Celestino, poeta trovador e radialista dos melhores, com anos seguidos de dedicação à Emissora de Educação Rural de Caicó. Pelos filhos, Dona Mariinha chegou a numerosa descendência, gente ajuizada que conheceu as regras da conduta moral irretocável da avó.

Enfim, mesmo jovem, diante da viuvez e da pobreza, ela teve a sabedoria de apostar na fé, no trabalho e na educação. Não entregou os pontos e venceu. Construiu uma vida honrada e bonita, mesmo com a cruz da saudade e o peso da responsabilidade em ser a única líder. Todo o esforço do mais puro amor de mãe foi empregado nas incontáveis horas de trabalho como dona de casa, na barraca do Mercado, no carrinho das noites e madrugadas esperando clientes em frente aos clubes e festas da cidade. Tudo pela família. Como diz o poeta Pedro Bandeira “mãe é a maior figura que a face da terra tem”.

Dona Maria Celestina da Costa merecia ser lembrada pelo Poder Público de Caicó como uma das melhores nascidas neste chão. O seu exemplo deveria ser evidenciado para contagiar outros tantos a entender que cada etapa da vida exige sacrifícios – até para heroínas e santas – e pode ter alegrias próprias de cada tempo, ou seja, para cada glória, uma cruz.

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Fernando Antonio Bezerra

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