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De inimiga a mestre – Reflexões sobre a morte

Solidão.2

Contemplar a morte pode nos mostrar como a vida é um presente.

Como é difícil aceitar nossa finitude e a de quem amamos. A perda física é inevitável e preferimos, muitas vezes, evitar ao máximo o contato com a morte, ao ponto que raramente a conversa sobre o assunto ser confortável. “Para que nos debruçar sobre algo tão negativo?”- talvez nos perguntemos.

Porém a consciência da morte pode alquimicamente transformar nossa relação com a mesma, de inimiga existencial a mestre vital, e nos convidar a ter discernimento sobre o que importa ser feito neste breve tempo de existência.

A morte nos força a um encontro com o Deus-Tempo, lembrando que a vida é limitada pelo mesmo. Neste encontro com a realidade humana podemos nos permitir a sentir o luto e nos responsabilizar sobre a vida que queremos para os dias que nos restam.

Seja medo da dor ou do desconhecido, o medo com relação à morte é comum. Lidar com a possibilidade de não mais existir pode ser fonte de ansiedade e preocupação. Melhor viver o presente, é claro.

Mas não permitir uma contemplação sobre a morte, talvez a única certeza no mar de reticências e interrogações em que vivemos, pode nos impedir a viver melhor. Ao agirmos assim, desperdiçamos a chance de nos preparar para a mesma, de dar sentido pessoal à trajetória humana, e inclusive de viver mais conscientemente.

A morte nos convida a valorizar cada segundo da nossa existência passageira: cada sorriso trocado, toda lágrima sentida, cada batida no peito, todo horror do mundo e esplendor da odisseia universal. Por fim, quando acolhida, a morte pode nos oferecer a consciência de que a vida é um presente precioso.

Edward Gorey - Death and the kids

Ilustração: “Death and the kinds”, de Edward Gorey.

Morte e morrer são diferentes

Algum tempo atrás fui a um lindo show de Gilberto Gil em que ele deu um belo exemplo de acolhimento do tema morte e o quanto isso pode nos enriquecer. Gil, corajosamente, olhou para o futuro de forma curiosa e compôs a música “Não tenho medo da morte”.

Confessou à  plateia que já teve outras músicas que, de certa forma, tocavam no tema, porém não tão explicitamente. Fez crer que o envelhecimento contribui para a reflexão.

Na canção, ele fala não ter medo da morte, mas sim medo de morrer. Simples e poeticamente, letra e melodia nos conduz à constatação de que morrer e morte são diferentes.

De que o morrer é aqui, é o corpo que morre, que respira, que sente dor. Já a morte vem depois, e está aí o grande mistério, pois a desconhecemos.

Tempos depois, hoje, aqui, ainda inspirado e emocionado pela música me vejo pensando no meu fim:

“Desejo viver meus dias com a consciência deste presente em mãos, que é a vida, e que quando a morte vier me beijar, que eu esteja preparado pra soltar tudo o que não me serve. Que meus braços estejam abertos, que minhas mãos não estejam cerradas de ressentimentos, que minha mente tenha aprendido o perdão a mim e aos outros, que meu coração esteja tranquilo para se entregar ao silêncio de suas últimas batidas, e que eu me lance inteiro ao Mistério.”

Ponto final …

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Joseh Garcia

Comentários

3 comments

  1. Edmar Cláudio
    Edmar Claudio Mendes Da Silva 29 outubro, 2017 at 06:17

    Muito bom! Uma análise apaixonada da morte esteiada pelo amor à existência .

  2. Andreia Braz
    Andreia Braz 29 outubro, 2017 at 17:09

    Excelente reflexão sobre um tema que muitas pessoas preferem ignorar, como você mesmo diz, talvez por medo de encarar nossa finitude. Por isso, prefiro seguir o conselho de Sêneca, que nos diz: “Abraça todas as horas”. Afinal, “o tempo que passou pertence à morte”, arremata em uma de suas cartas a Lucílio.

  3. Diulinda Garcia 1 novembro, 2017 at 15:15

    Uma ótima reflexão a sua Joseh Garcia. Para mim difícil,mas necessária.Já me deparo com a exiguidade do tempo,portanto é tempo de encarar esse tema com uma certa maturidade,embora tema.Lembrei uma frase de um dos livros de Rubem Alves que trata de morte:”Todos os seres humanos têm o direito de morrer sem dor”.Concordo.

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