De Laura em Laura
4 de janeiro de 2010 às 15:55 - Comentar
De Laura em Laura, a galinha enche o papo
O nome “Laura” é o famoso título de uma novela policial de Vera Caspary, que Otto Preminger levou para o cinema como um dos primeiros filmes do gênero (“noir”) que pertence ao imaginário do século 20 tanto quanto um outro nome próprio feminino – “Lolita” – faz evocar uma ninfeta da pedofilia recuperada pela indústria (“que recupera tudo”, segundo G. Deleuze citado por Glauber Rocha, sem aspear).
Agora, entretanto, quando os preguiçosos do atual século 21 forem “puxar” Laura como literatura (atenção, estudantes: voltem a LER os livros e não os resumos dos livros, na Internet!), hão de vir pelo menos duas Lauras literárias, com duas auras diferentes e ambas aulas de diversas faces, estilos e épocas: a Laura de Vera e a não muito “vera” Laura de um mago da literatura que usou tantas máscaras quanto o faraó Tuta no seu sarcófago devassado como uma cama des câmaras do Big Brother.
O mago, é claro, é o russo emigré (ou, ainda, russo-americano-suiço) Vladimir Nabokov, autor da obra-prima A verdadeira vida de Sebastian Knight, escritor que o idiota do Sérgio Augusto de Andrade (intelectual que terminou escrevendo o programa dos “Aprendizes” para o zombie Roberto Justus, mais que “merecidamente”) um dia escreveu – na antiga revista BRAVO (a boa revista da época do Wagner Carelli, e não essa revista da Abril cruel todos os meses) – ser “um escritor para amadores”.
Que idiotice. Nabokov podia ser tudo, menos um “escritor para amadores” como sentenciou o gordinho SAA, aprendiz de intelectual que encontrou justo mestre no Bob-patrão, dublê de cantor, publicitário e hoje apresentador contratado pelo SBT como perguntador noturno de bobagens. Mas deixemos essa gente de lado, para voltar ao que interessa: o escritor para (rigorosos) profissionais e leitores (encantados) que é Vladimir Nabokov.
Pois ele está de volta à primeira páginas dos cadernos culturais, com obra póstuma – O original de Laura – porém inacabada e temerariamente publicada pelo espólio etc.
Que “original” é esse? O livro já se encontra nas livrarias brasileiras, lançado aqui pela Alfaguara com a rapidez própria das editoras atentas às polêmicas literárias. Acontece que o “inédito” de VN é a publicação de um rascunho que o escritor pediu para ser queimado após a sua morte (como todas as outras fichas-cartão que ele utilizava para o esboço de sua ficção).
Não foi atendido. Pelo menos as 138 fichas do esboço de O original de Laura foram ciumentamente (?) preservadas por Vera e Dmitri, respectivamente viúva e filho único de Nabokov, e, assim, a obra que o mago literário não tivera tempo de concluir adequadamente (aos menos para seus rigores de perfeccionista) se transforma, agora, em livro que permite invadir a intimidade criativa de um autor importante, na sua oficina literária no melhor sentido que eu posso encontrar para essa hoje gasta palavra “oficina” (argh!).
É verdade que Vladimir também quis queimar o original de Lolita – mas isso é outra história. Nessa ocasião, Nabokov estava “vivo- e-bulindo”, e a novela da ninfeta estava terminada, com o ponto final devidamente colocado, pelo autor, naquela sombria investigação da alma solitária de Humbert Humbert, que se parece com todas as almas atormentadas pelo amor (qualquer tipo de amor) talvez como forma de afirmar a vida no lugar da morte – mesmo que essa vida seja torta como o destino que se pode dar, eventualmente, aos originais de grandes escritores mortos.
Lembro o caso da publicação de Edgar Allan Poe & the juke-box: Uncollected poems, drafts and fragments, de Alice Quinn, a respeitada editora de poesia do “New Yorker”. Desde que o livro foi lançado por Farrar, Straus & Giroux, com cerca de 120 trechos de textos não publicados por Elizabeth Bishop, correu solta a discussão entre críticos e admiradores da poeta norte-mericana – que publicou apenas 90 poemas em vida – contra editores defendendo a publicação dos manuscritos e fragmentos (“representam uma visão importante sobre o processo criativo de Bishop, além de saciar a sede por um pouco mais da sua magra produção” , disse Quinn).
Elizabeth, famosa pelo rigor na composição de poemas – que ela queria não menos que perfeitos, recusando-se a publicá-los antes de dá-los por plenamente acabados – jamais permitiria a publicação de tais rascunhos, conforme enfatizou Helen Vendler: “Se a o poeta tivesse sido consultada sobre a publicação, 25 anos após a sua morte, de poemas rejeitados, além de alguns rascunhos e fragmentos, Bishop teria respondido, eu acredito, com um horrorizado não”.
Ainda segundo uma advertência de Vendler, “poetas contemporâneos temam uma Alice Quinn nas suas carreiras póstumas, e queimem todo o seu material ainda sem o acabamento final” – conforme foi a preocupação de Nabokov, ao delegar o ato, confiantemente, para a mulher e o filho. Bem, Vera faleceu em 1991, e Dmitri, tradutor de romances, contos e cartas do pai, decidiu-se pela publicação de inéditos como “O encantador”, um conto (escrito em russo) que Nabokov detestava e julgava ter destruído.
O que acaba de acontecer com o tal Original de Laura , entretanto, é coisa tão mais atrevida quanto mais grave para o artista que – tanto quanto Elizabeth Bishop – colocava a auto-exigência nos termos mais altos possíveis. Dmitri Nabokov desconsiderou isso e mais os conselhos de Brian Boyd, o mais aclamado dos biógrafos do seu pai, franco partidário da destruição das fichas não só para cumprir com o desejo do escritor como também para preservá-lo do olhar do leitor sobre o material nabokoviano não-acabado etc.
Em vão. O espólio (leia-se: Dmitri, atualmente) foi em frente e vendeu os direitos do Laura embrionário de um artista que escreveu, na tradução da ópera Eugene Onegin (conforme citado por Sérgio Rodrigues): “Um artista deve destruir sem dó seus manuscritos após a publicação, para evitar que eles induzam mediocridades acadêmicas a pensar erroneamente que é possível destrinchar os mistérios do gênio por meio do estudo de versões abortadas. Na arte, a intenção e os planos não são nada; só o resultado conta”.
E as falácias do mercado editorial ávido por fazer caixa – com qualquer coisa – se fizeram presentes, com o intuito de defender o rebento recalcitrante (um bom título para Nabokov, que imaginou títulos como “O asfódelo duvidoso” e “Albinos de preto”) e a ele próprio, mercado que recupera tudo e mais alguma coisa. Alexis Kirschbaum o editor da Peguin Classic responsável pela manipulação editorial dada às fichas originais do Laura, declarou que a atitude de Dmitri Nabokov “é um reconhecimento do desejo do público em conhecer Vladimir Nabokov por inteiro e de que o presente deixado por um artista mediante sua arte não pertence nem ao próprio artista, nem à família, mas a todos”.
Kirschbaum (poderia ser um cognome de Humbert Humbert) não convenceu muita gente – e pelo menos a revista New Yorker recusou publicar fragmentos dessa “Laura” quase tão fantasmagórica quanto aquela do livro/filme de Caspary/Preminger.
Em nossa opinião, não há a menor justificativa para se dar à luz editorial uma obra a que o autor não tenha dado o acabamento final e indiscutível. No caso desse livro apenas esboçado por Nabokov, não adianta dizer que ele se acha editado “com honestidade, trazendo (na edição de luxo americana) os fac-símiles das fichas cartonadas no topo das páginas acompanhadas das transcrições abaixo” etc.
Por mais comoventes que essas fichas sejam – com inúmeras correções, marcas de dedos e manchas de comida e outras manchas –, o grande borrão que todas elas representam deveria ter se tornado nas cinzas do “tudo que é para se perder”, fragmentos do fragmento que são.
Porque Nabokov trabalhava justamente sobre isso – isto é, sobre esses nadas – para conferir às confusas partículas da realidade uma coesão artística que só a sua aprovação última, pessoal e final poderia garantir como digna de ir, como a sombra de uma sombra, duplicar-se no espelho da mente também confusa dos leitores perdidos entre as dobras do que lêm e vivem, em igual confusão, nas margens enfumaçadas do Real – rio de águas turvas e claras sob manhãs e luares, Lauras e lauréis literários que, no final, deveriam restar como silêncio e interrupção de imagens, palavras, metáforas e borboletas colecionadas (“cores que voavam”)…
Vladimir Nabokov não está nessa “Laura” senão pela prova da imperfeição – e isso, para um entomólogo amador respeitado, é como deixar um espécime raro identificado com graves erros numa ficha não queimada.


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