De paz e amor

4 de abril de 2010 às 10:34 - Comentar

Por Janio de Freitas
FSP

A Dilma que vai surgir das enganações marqueteiras é um mistério; Serra já arquitetou o Serrinha Paz e Amor

O melhor a esperar da campanha que em breve começa, não mais de fato, mas enfim de direito, são duas revelações: Dilma Rousseff tal qual é e José Serra tal qual não é.

Ainda é difícil saber qual das duas, eficácia eleitoral à parte, será mais divertida aos nossos olhos e ouvidos de espectadores compulsórios. Na longa primeira etapa de sua campanha, Dilma teve a sua inexperiência de palanque remediada pelo rumo que a simples presença de Lula já insinuava, para os discursos. E, pode-se supor, havia as sugestões sopradas mesmo. Mas já vimos o bastante para a certeza de que Dilma não tem a vocação do que outrora se chamaria de mitingueira, de fazer “meeting”, aquele tipo a quem bastava um caixotinho para atrair um comício – Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Vladimir Palmeira (vivo e esgotado), o depois psicanalista Hélio Pellegrino, uma espécie extinta de oradores.

A Dilma que vai surgir das enganações marqueteiras ainda é um mistério, e, pelo que se vê, terá de ser construída de ponta a ponta. Até agora candidata sempre maquiada como se fosse para o casamento de um herdeiro paulista, até o tipo físico está por ser redesenhado. E o vocabulário também. E o gestual, idem. E ainda a medida da simpatia, para não parecer apenas obrigatória, nem, como tem sido, negada pelo excesso.

José Serra já se mostra como parte de um jogo de inversões. A inflexão de suas falas públicas não é mais a mesma, o tom e o volume da voz não são mais os mesmos. Vem aí, em vez do candidato que em 2006 explorou os temores do eleitorado, o Serrinha Paz e Amor. Produto direto da derrota didática para Lulinha Paz e Amor. Agora o ex-Lulinha do qual, como sua parte da inversão, prevê-se que se torne o Serra da campanha de 2006, para explorar os temores de extinção dos programas assistenciais, de retrocesso no prestígio internacional do país e de freio na política econômica de crescimento.

Serra já arquitetou o Serrinha Paz e Amor para conhecimento geral. Nas palavras finais de governante, citou cada um dos defeitos que lhe são reconhecidos ou atribuídos e se disse portador das características exatamente opostas, citando cada uma dessas qualidades que, se não existirem no Serra, devem compor o Serrinha Paz e Amor. Mais do que o manequim de um candidato à Presidência, surgiu ali um candidato a santo.

Mas a transubstanciação – capaz, nos casos de ambos, de causar inveja nos mais puros brâmanes – será tão difícil para Serra quanto foi fácil para Lula. Falta-lhe o traquejo do sindicalista íntimo dos truques espertos para tirar vantagem. E, em cima disso, virão as provocações do ex-Lulinha posto de volta na sua personalidade, desde 2003. Às quais o Serra mais conhecido não tende a suportar.

Não se sabe o que será da candidatura Ciro Gomes. Cabe então a Marina Silva a solidão de depositária, na campanha que se vislumbra, da sinceridade pessoal e política, e da autenticidade de propósitos. Inclusive os de paz e amor. Qualidades pessoais e políticas que valem cada vez menos nas disputas de sucessão presidencial.

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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
    • Jarbas Martins: Sai dessa, M.Couto. - À sombra da ditadura
    • Jarbas Martins: Tô contigo, Alex. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”