Decadência com elegância
23 de agosto de 2009 às 18:35 - ComentarSe o poeta grego Konstantinos Kavafis houvesse escrito apenas o poema “Ítaca”, já seria um grande poeta. Se houvesse apenas escrito “Ítaca”, já teria feito versos possuidores de algo de nossas vidas. Mas ele não escreveu apenas “Ítaca”. Embora tenha feito poucos poemas – escrevia e reescrevia até a exaustão da estética – seus versos estão entre os mais fortes já escritos.
Foi ele mesmo quem disparou o conselho: “que seus versos sejam escritos de sorte/que contenham… algo de nossas vidas dentro deles”.
E sejam assim, ou não sejam versos. Que só se escreva o que se pode dilatar para abarcar os outros. Que só se faça poesia se houver poesia a se fazer. Que se seja sério, compenetrado, amante reverente da língua com a qual se escreve.
Kavafis nasceu em Alexandria, em 1863. Aprendeu o grego, língua de seus versos e de sua paixão. Escreveu poucos poemas, cerca de cento e cinqüenta e quatro, mas muito disse da vida e do mundo no qual viveu.
Cantava um decadentismo exalado de tradições pagãs e cristãs, não o que era corrente na Europa. Era decadente e elegante, como soem ser aqueles a quem a vida distribui impossibilidades, e que acolhem com estoicismo tais presentes dessa vida. Sendo homossexual, cantou o homossexualismo quase sempre a partir de lindos corpos inalcançáveis.
Escreveu “Ítaca”, poema do qual já falei antes aqui. Falei de “Ítaca” reportando-me ao tempo do ócio. Mas falaria igualmente se quisesse dizer de coragem ou de sabedoria. Ou se falasse de ideais ou de compreensão das coisas insondáveis. Os versos de “Ítaca” contêm muito de nossas vidas. Mas, não só. Em todos os poemas de Kafavis há algo de nossas vidas esplendendo ou se escondendo na sombra.
Entre o paganismo e o cristianismo, Kavafis ficou com os dois. Sorte a dele, pois a ambigüidade lhe era necessária à liberdade para escrever. Em literatura, quase sempre a liberdade tem, não só duas, mas infinitas cabeças que, como a Hidra de Lerna*, renascem e se fortalecem quando atacadas.
No ocaso da civilização romana, Kavafis encontrou o objeto do seu poema “À Espera dos Bárbaros”. Uma cidade espera os bárbaros, prepara-se toda para defender-se deles. Se os bárbaros não vêm, quê fazer? Então quem somos nós? Se não há bárbaros, em que consiste a civilização? Ah, meus caros, os bárbaros são o parâmetro e, se não os há, contentem-se em contemplar a solidão da decadência. Sem contrários. Própria, irrestrita.
Além de pouco escrever, Kavafis nunca publicou livro em vida. Publicou alguns poemas esparsos em revistas, mas sua maior preocupação sempre foi aperfeiçoá-los. Afinal, embora não haja impedimento, mudar um poema depois de publicado é estranho ao próprio escritor. Para Kavafis, fundamental era mesmo a perfeição e ele manteve a maior parte de seus poemas consigo, até que a morte os separou.
* A Hidra de Lerna era um monstro de inúmeras cabeças de serpente, que se regeneravam quando mortas. Uma das cabeças era imortal. Derrotá-la foi um dos doze trabalhos de Hércules.


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