Delírio com coisas reais

20 de janeiro de 2010 às 22:34 - Comentar
Por Carmen Vasconcelos

As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos quase inatingíveis. Um dia, quando crianças, o algodão-doce só era visto, tocado e comido uma vez por ano. Quando vinha a festa do padroeiro, o parque de diversões e o homem do algodão-doce com a sua máquina rodopiante. E nós, avoantes e avoados, ficávamos horas “curiando” o homem e a sua máquina. Ele punha o algodão-doce num papel de embrulho e saíamos felizes a comer aquela coisa deliciosa e difícil. Aí, a gente cresce, o algodão-doce existe “a dar com pau”, dentro de sacos com uma bola de encher ao fundo. Quando crescemos, ficamos enjoados do algodão-doce que, a toda hora, nos gritam da rua.

As coisas inacreditavelmente banais são aquelas que, um dia, pensamos únicas. Quando éramos crianças, o atávico camaleão, mais antigo que a morte, só aparecia quando lhe dava na telha aparecer. Fascinados, esperávamos por ele entre as folhas de bananeira. Delirávamos à mais rápida visão do bicho adorado. Com cabeça de dinossauro, escamas reluzentes de peixe abissal e corpo colorido de serpente gorda, ele se estendia um pouco ao sol e desaparecia, deixando-nos com a melancolia da sua essencialidade.

As coisas inacreditavelmente banais são os lugares que pensamos muito distantes. Alguns brinquedos, quando éramos crianças, acumulavam-se em lugares que não existiam perto de nós e muito pouco visitávamos. Gangorras, balanços, escorregos, pedalinhos. Uma vez a cada tempo incalculável, brincávamos lá naquelas lonjuras. Então exultávamos de felicidade com o que, quando crescemos, às vezes entedia.

A caixinha de música com a bailarina rodando em cima era o objeto mais raro existente na face da terra. Todos os sonhos de consumo se conduziam para ela. Toda a capacidade de fascinação se concentrava na música mal tocada por uma geringonça incompreensível. Toda a beleza do mundo estava na caixinha que, quando nos tornamos adultos, se multiplica nas vitrines que olhamos sem interesse.

Delírios cumprem a lei da relatividade, no tempo e no espaço. Uns só deliram com coisas mirabolantes ou, pelo menos, com o que imaginam ser coisas mirabolantes. E aí é que está: mirabolante, delirante, é aquilo que acreditamos ser capaz de nos fazer delirar. Inclusive, as coisas reais e até as coisas banais. Canta Belchior, na música “Alucinação”: “A minha alucinação é suportar o dia a dia/ E o meu delírio é a experiência com coisas reais.”
Desejávamos ardentemente algo, para depois senti-lo tornar-se banal, inacreditavelmente banal. Às vezes até indesejável. O algodão-doce, os brinquedos das lonjuras, a caixinha de música, nada disso fascina mais. De todos os desejos, restou a espera pela visão fugaz do camaleão entre as folhas. Esse que se mantém inalcançável. Intenso, atávico, súbito, como esses desejos intensos e atávicos que, inacreditavelmente se desfazem num relâmpago…

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AGENDA

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    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste