Desconstruindo o sonho americano

Milena Azevedo
ColunistasLiteratura
Milena Azvedo_Hubert Selby Jr

Hubert Selby Jr. (1928-2004) pegou emprestado maneirismos de Kerouac e criou um estilo particular (colecionando fortes polêmicas principalmente na Grã-Bretanha e na Itália), ao converter contos em capítulos de seu primeiro romance Última Saída para o Brooklyn (1964)

Após todo o horror vivenciado na II Guerra Mundial, a década de 1950 despontava com a promessa de dias melhores para o ‘bloco capitalista’, onde os Estados Unidos eram o exemplo a ser seguido.

A partir de então, o american way of life e o american dream andaram de mãos dadas, vendendo para o mundo os benéficos efeitos da democracia e dos valores norte-americanos.

Na contramão dessa propaganda ufanista, a literatura norte-americana das décadas de 1950 e 1960 expôs boa parte da sujeira varrida pra debaixo do tapete: escancarou o preconceito étnico e religioso, a homofobia, o alto consumo de drogas, a realidade dos guetos, e o dia-a-dia cinzento da classe trabalhadora da periferia, em especial dos white trash, os brancos lascados.

Escritores como J.D. Salinger e Jack Kerouac empregaram um estilo narrativo e uma inovadora escrita coloquial, repleta de gírias, que de tão orgânicos, diretos, críticos e sarcásticos feriram os olhos dos conservadores e daqueles que faziam apologia ao termo ‘home of the free’, primeiros a quererem censurar seus livros, enquanto ganhavam prestígio entre adolescentes e universitários.

Hubert Selby Jr. pegou emprestado maneirismos de Kerouac e criou um estilo particular (colecionando fortes polêmicas principalmente na Grã-Bretanha e na Itália), ao converter contos em capítulos de seu primeiro romance Última Saída para o Brooklyn, publicado em 1964, mas cujas tramas se passam na década de 1950.

Retratando uma parte do cenário de sua juventude no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque, Selby Jr. traz prostitutas, gays, travestis e jovens arruaceiros como protagonistas, desvelando ainda misoginia, violência doméstica e homossexuais enrustidos dentro de famílias desestruturadas, tudo isso em meio a uma extensa greve dos trabalhadores de uma fábrica, colocando em xeque o corporativismo dos sindicatos ao mostrar como acordos eram feitos bem mais em prol dos sindicalistas do que dos trabalhadores.

Realidade arisca, pessimista, deprimente e cruel

Em todas as tramas, os sonhos e desejos dos personagens sãos corrompidos por uma realidade arisca e pessimista, deprimente e cruel. O único ato heroico, para Selby Jr., é continuar a encarar o Brooklyn, deixando-se morrer um pouco a cada dia na América de tantas oportunidades.

Última Saída para o Brooklyn é a cara do cinema da Nova Hollywood (os chamados ‘filmes de autor’, realizados entre meados da década de 1960 até o início dos anos 1980).

Milena Azevedo_Last Exit to Brooklyn_3E bem poderia ter sido dirigido por William Friedkin (Operação França), mas só ganhou uma adaptação de fato em 1989, com o título de Noites violentas no Brooklyn, pelas mãos do cineasta alemão Uli Edel (pasmem, o animador Ralph Bakshi chegou a comprar os direitos do livro para fazer um live-action, com Robert De Niro no papel do sindicalista e homossexual enrustido Harry Black).

Oito anos antes de filmar Noites violentas no Brooklyn, Edel já havia polemizado meio mundo ao roteirizar e dirigir a adaptação do livro Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, deixando despontar uma habilidade singular em trabalhar personagens problemáticos, que passam por pesados conflitos internos e extra-pessoais, tratando-os com dignidade e respeito.

Os personagens mais marcantes do romance de Selby Jr. são Georgette (gay viciado em benzedrina e heroína, totalmente apaixonado pelo valentão Vinnie), Tralala (prostituta que vive de pequenos golpes) e Harry Black (pai de família que se encanta com o travesti Regina, descobrindo-se homossexual).

Todos eles têm finais trágicos, sem chance alguma de redenção, como se recebessem um castigo por todos os excessos que cometeram.

Milena Azevedo_Last Exit to Brooklyn_2A dor ganha áurea poética

Na adaptação para as telas, Edel traz uma bela áurea poética para embalar a dor de cada um desses três personagens, interpretados de forma ímpar por Alexis Arquette (Georgette), Jennifer Jason Leigh (Tralala) e Stephen Lang (Harry Black).

Enquanto Georgette queria ser amada por seu adorado Vinnie e também ser aceita por seu irmão homofóbico, Edel poupa o personagem dos cruéis acontecimentos que rolaram na festinha com os travestis, calando de vez suas súplicas delirantes pelo amor impossível de Vinnie.

Tralala, que se achava altamente descolada por enganar jovens oficiais, com a ajuda da gangue de Vinnie, não entende que uma carta de amor sincera é mais valiosa do que uma carteira gorda, e ao ir à desforra por não ter recebido o pagamento que achava que merecia, acaba desmoralizada da maneira mais cruel possível por vários oficiais e civis. Porém, Edel lhe dá uma redenção tocante no amor puro do sensível Spook.

Já Harry Black, que fazia um esforço hercúleo para atender aos desejos de sua esposa, na cama, sente-se completamente livre ao experimentar dar e sentir prazer com o sofisticado travesti Regina.

Apesar de bronco e falastrão, Harry se deixa envolver de cabeça por Regina, sem saber que ela está interessada no dinheiro fácil que vinha do Sindicato durante o período da greve; quando a greve acaba, o dinheiro volta a ficar escasso, e a diversão com Regina já não é mais possível.

Completamente atordoado, Harry alicia um adolescente do bairro, e termina levando uma surra daquelas. Edel finaliza a sequência com Harry sangrando e dependurado numa armação de madeira, de forma a quase emular uma crucificação.

LAST EXIT TO BROOKLYN, Jennifer Jason Leigh, 1989, (c)Cinecom Pictures

Núcleo feliz da trama

Em contrapartida, os personagens Big Joe, Donna e Tommy representam, no filme, a esperança de uma vida feliz entre pessoas que fazem ‘coisas erradas’, mas as consertam a tempo.

Donna é uma adolescente rechonchuda, filha de Big Joe e irmã de Spook, que engravida do simpático Tommy. Ao tomar conhecimento de que sua filha havia sido desonrada, Big Joe vai acertar as contas com Tommy, que a princípio só deseja fugir da responsabilidade.

Tudo se acerta após o nascimento do bebê, com a festa de casamento bancada pelo sindicato, e nela todos tomam conhecimento de que a greve finalmente chegou ao fim.

Edel termina o filme dentro da perspectiva ‘dias melhores virão’ (chegando a inserir uma cena de comédia pastelão dentro da festa de casamento), contrastando com a prosa de Selby Jr., onde não há final feliz para nenhum personagem, pois todos estão presos à crua realidade da periferia, escondendo-se atrás da fachada dos conjuntos habitacionais e das famílias imperfeitas, com suas vidinhas medíocres, onde a felicidade (momentânea) só existe “do lado de fora das cercas embandeiradas que separam quintais”.

Share:
Milena Azevedo

Comentários

Leave a reply