(Des)esperança

9 de junho de 2010 às 14:56 - 7 Comentários
Por Carmen Vasconcelos

“… tive a vantagem de conhecer pessoas que se mostraram capazes de me tirar a ingenuidade, de me fazer corar pelas minhas ilusões; foram essas pessoas que realmente me educaram.” E.M.Cioran

Finalmente me encontro face a face contigo, desesperança. Descanso, enfim! Enfim eu te possuo, inteira e estirada, aberta e escassa como eu mesmo. São palavras do anjo.

A primeira vez que o anjo tomou consciência daquela palavra foi quando leu um texto de Clarice Lispector, um trecho de “Água Viva”. Claro que já sabia o que era desesperança, mas naquele dia leu a palavra com apetite, sentiu a força dela: “…inquieta e áspera e desesperançada…” Daí para cá o anjo cada vez mais constata a semelhança da palavra desesperança com a palavra liberdade. São irmãs siamesas. Desesperançar-se, perder a esperança de… É libertar-se da angústia de não poder, de não ter, de não conseguir.

A esperança é, em certa medida, uma prisão. Diante do impossível, o melhor é perdê-la. Não foi à toa que Machado de Assis referiu-se a ela como um demônio. O demônio da esperança é mesmo um demônio obsedante, o último a morrer nos campos de batalha, nos hospitais e nas camas moribundas. O que não larga a vida, mesmo que a vida não valha a pena de viver.

Quando a caixa de Pandora foi aberta, deixando escapar os males para o mundo, percebeu-se uma luzinha no fundo: era a esperança. Ela estava na mesma caixinha dos tormentos. E que diabos fazia ela por lá? Ora, “diga-me com quem andas e te direi quem és”.
O desespero é sádico e cruel, mas a desesperança é balsâmica. O desespero é irracional, a desesperança vê o mundo com uma clareza a toda prova. O desespero dá medo, a desesperança dá calma. O desespero é dor, a desesperança é cura.

Quando quer muito alguma coisa, o anjo põe a esperança de lado. Sai desguardado, vai à luta. Não fica esperando deus nem Chico Buarque darem bom tempo. Mas se a coisa está no terreno dos impossíveis, não faz cerimônia, bate as asas e comete a desesperança. Com a cara e a coragem de dar a cara à tapa para a turma da auto-ajuda que nada tem de auto e muito menos de ajuda.

E se recupera. O anjo é humano, quando se trata de ser pródigo em regenerações. Não é só o rabo da lagartixa que cresce de novo não. Há um visgo de libido que nos adere à vida e ele é muito mais forte que a esperança. Sabe-o o anjo. Para experimentar algumas vivências, é preciso desesperançar-se daquelas que não nos foi dado viver.

Soube disso desde que leu “Água Viva” e vivenciou a palavra desesperança. Desesperançou-se muitas vezes então, com gosto, com apetite. Mas outras vezes não consegue desesperançar-se. É muito mais fácil sucumbir à esperança do que livrar-se dela. A esperança é um demônio poderoso. Difícil de ignorar, como um canto de sereia. É a penúltima que morre. Depois dela, só as baratas.
Mas o anjo sabe, vez ou outra é preciso experimentar a salvação da desesperança.

7 Comentários

  1. Jarbas Martins
    9 de junho de 2010

    carmen, flor de desesperança, dá pra se acreditar mesmo no que os grande poetas, como você, dizem ? sedução, teu nome é mulher. teu estilo também tem nome: carmen. você é uma estilista, como poucos, em nossa literatura. e pensar que certa vanguarda falou tão mal do estilo.
    voltando a falar de esperança, tenho uma confissão a lhe fazer: tenho sessenta e sete anos e continuo a esperar…a esperança.

  2. 9 de junho de 2010

    pois eu ainda espero o dia em que a esperança durará apenas um dia. palavra que será desinventada pra nos desamarrar e agirmos.

    belo texto.

    olha, partindo de um poemeto seu na agenda da adurn:

    CARMEN

    uma tarde com ela e pronto:
    anoiteço.
    *

    beijos.

  3. 9 de junho de 2010

    Beleza Carmem.

    Ninotschka. Esse poema da Carmem foi selecionado por mim quando organizei essa agenda com muito gosto

  4. 9 de junho de 2010

    eu sei, querido damata, mais uma vez agradeço sua existência socializadora da beleza :)

  5. Carmen Vasconcelos
    9 de junho de 2010

    Nossa, pessoal, quanto carinho, obrigada. Nina, Jarbas, mais ou menos dá para acreditar neste texto, que foi feito para tecer loas, não exatamente à desesperança, mas à lucidez. Eu adoro o “demônio da esperança” que está num conto de Machado de Assis, do qual não me recordo o título agora. Demônio que não se despega. No fundo de mim, caixa de Pandora que sou, também a guardo. Ou solto no mundo. A leitura de vocês recriou o texto, e fico grata por isso. Beijos.

  6. Joana Carolina Paro
    7 de agosto de 2010

    BELÍSSIMO TEXTO, REALISTA E POÉTICO COMO POUCOS PODEM SER!
    GRATA!

  7. Wanderil Santos
    16 de setembro de 2010

    Ao ler o seu texto lembrei-me de quando consegui perceber a exata dimensão da expressão “nunca mais”, que tantas vezes já ouvira, que outras tantas vezes já dissera. Foi quando faleceu o meu irmão mais novo aos 42 anos. Ali, olhando os seus olhos cerrados, suas mãos imóveis e o seu peito como que petrificado, minha alma repetia baixinho: nunca mais nos falaremos ou nos tocaremos, ao menos nesta dimensão. Como você pode perceber, cabe sim, aqui o seu conceito de desesperança. Gostei imensamente do seu texto…

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POESIA

    Vento nordeste
    10-02-2012 às 7:14 - Comentar
    Por Oreny Junior

    sopra
    meu vento nordeste
    sou todo seu
    feito de sol e sal
    visto as velas
    desse cais cansado
    que tanto me espera
    levado pelas caiçaras
    nos lemes canguleiros
    sopra
    meu vento nordeste
    a amada me aguarda
    o rancho está vazio
    aproveita a baixa da maré
    e me atraca
    joga essa âncora
    onde o tempo
    por uns dias
    será meu amigo
    sopra
    meu vento nordeste
    sopra
    sopra
    ..

    COMENTÁRIOS

    • Marcos Silva: Certamente, existem ONGs sérias. Infelizmente, a desqualificação geral tende a se tornar corriqueira. Lembro que ela aparece com todas as letras no filme Tropa de elite (I). - Brado retumbante
    • Marcos Silva: No diálogo de 2010 sobre esse tema aqui, SP, considerei o direito do feto como especialmente frágil, uma vez que é uma vida ainda sem voz. Prefiro que haja debate sobre esse e outros temas. Não procuro convencer ninguém. Apenas considero fundamental ocupar o espaço público com argumentos em confronto, evitar a política de cada macaco em seu galho. Sou homem, não engravido. Mas posso engravidar uma mulher. Para evitar isso, tomo as providências necessárias (camisinha, em especial). Se engravidasse alguém, defenderia o feto, sim - parte de mim, parte do direito ao meu corpo. Melhor conversar. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Marcos silva, discordo. O tema do aborto é tão absurdo que nem sequer deve ser debatido. Você não percebe que isso é exatamente o que os abortistas desejam? Eles desejam pôr em discussão um assunto que até então é evidente: a vida humana ganhou um valor intrínseco com o Cristianismo (todos são filhos de Deus, todos são irmãos), mas agora os que querem erradicar Cristo da sociedade estão querendo justamente questionar esse valor, "discuti-lo". Seria o mesmo que você propor que o tema da pedofilia é muito sério e precisa ser debatido, ou então que como alguns seres humanos têm tendência homicida, deveríamos debater o homicídio. A discussão em si já questiona o valor, e eu te asseguro que as pessoas que propõem isso sabem o que estão fazendo, porque eu estudei com essa gente que quer manipular a linguagem para mudar a sociedade. Elas nunca vão apresentar suas reais intenções, porque tais intenções não atrairiam ninguém, causariam repugnância. A propósito, desculpem-me: nos comentários anteriores errei o endereço. Querem ver se o aborto é algo a ser discutido? Assistam a esse vídeo: abort67.co.uk Abs - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Yuno Silva: Pelo visto dá para ver que o assunto é polêmico, cultural, um tabu histórico, e abordado com o lado emocional da racionalidade. Deixemos a cristandade de lado para um debate amadurecido. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Carmen Vasconcelos: Grata, Anchieta. - Avoengo
    • Marcos Silva: Walter: Entendo que o grande equívoco foi terem implantado uma ditadura no país. Objetivamente, os guerrilheiros do Araguaia e outros não tinham poder de fogo para o enfrentamento com um Exército regular e minimamente equipado, que sustentatava o regime. Mas a guerrilha anunciou, tragicamente (porque muita gente morreu e sofreu - e não só os guerrilheiros propriamente ditos), que nem tudo era ditadura. Não anunciou sozinha, claro. Parte da produção artística (música popular, artes visuais, teatro, cinema, literatura) também o fez. A mesma situação se observou nos movimentos sociais que foram se estruturando contra o regime. A "milicada" não precisava de treinamento, já era bem treinada e o demonstrou desde o começo do regime, oprimindo os adversários. É possível que a guerrilha tenha servido como álibi para o regime. Mas uma ditadura, quando não tem álibi, inventa, como o Nazismo o fez em relação aos judeus. - À sombra da ditadura
    • Clarissa Torres: Paiva, texto incrível! Que alma atormentada e corajosa. Realmente, a imagem é igualmente perturbadora e por isso belíssima. Me lembrou Ego Schiele. - Rita louca
    • Jarbas Martins: Seja apocalíptica, não, Paglia.Tenha medo não. De hora em hora Deus melhora. - Camille Paglia, em entrevista recente
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