Dez tesouros do pop nacional à espera de reedição

19 de outubro de 2009 às 13:58 - Comentar
Por Alexis Peixoto

Dia desses Kid Vinil, em sua coluna no portal Yahoo, ao dar notícias do mercado de relançamentos que toma conta da indústria fonográfica gringa levantou uma bola interessante: por que as gravadoras brasileiras não fazem o mesmo? A resposta talvez não seja tão simples, mas o efeito seria imediato. Nos porões da música pop brasileira encontra-se uma quantidade considerável de álbuns e artistas – muitos inéditos em formato digital – que há tempos pedem por um relançamento decente. Como tudo é motivo para fazer lista, eis uma seleção de dez álbuns + 1 que, abstraindo a burocracia das gravadoras, não fariam feio em versões “deluxe” nas prateleiras nacionais.

Ronnie Von - A Misteriosa Luta...

Ronnie Von – A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais (1969)

Misteriosamente esquecido no pacote que relançou A Máquina Voadora e o mítico disco da capa amarela de 1968, A Misteriosa Luta… é um capítulo essencial na saga psicodélica de Ronnie Von. Embora a sonoridade seja mais pop que o disco amarelinho, a lisergia não é domada. Já abre de sola com a absurda (tomou fôlego?) “De Como Meu Herói Flash Gordon Irá Levar-Me de Volta a Alfa-Centauro, Meu Verdadeiro Lar”. Como se pirações desse naipe fossem pouca coisa, ainda há versões para “Dindi” de Tom Jobim, “Atlantis” de Donovan, aqui convertida em “Atlântida”, e “I Started A Joke” dos Bee Gees que na versão de Ronnie virou “Comecei uma Brincadeira”.

Jards Macalé (1972)

Jards Macalé – Jards Macalé (1972)

Compositor já tarimbado e, na época, já gravado por Gal Costa, Macalé estreou em disco próprio da maneira mais roqueira possível: em formato power trio, com Lanny Gordin no baixo e no violão e Tutty na bateria. O resultado não é samba, nem rock, nem jazz, nem bossa nova, mas um pouco disso tudo. O hit “Vapor Barato” aparece aqui como uma vinheta fantasmagórica, à capela. “Revendo Amigos”, “Mal Secreto”, “Movimento dos Barcos” e “Farrapo Humano” (de Luiz Melodia) são pérolas tortas, apresentadas em versões acústico-garageiras, pontuadas pelos improvisos de Gordin e pela interpretação singular de Macalé. Como bônus, a hipotética edição especial do disco poderia trazer as quatro faixas do compacto de estreia do artista, lançado em 1970: “Só Morto”, “Sem Essa”, “Soluço” e “O Crime”, mais “Gotham City”, composição de Macalé mais conhecida na versão d’Os Brazões, os favoritos de Mark Arm.

Marcos Valle - Previsão do Tempo

Marcos Valle – Previsão do Tempo (1973)

Lançado sob a barra pesada da ditadura militar, Previsão do Tempo é considerado pelo próprio  Marcos Valle como um dos discos mais importantes de sua carreira. Sofisticado no uso de pianos Fender Rhodes e sintetizadores e espertíssimo nas letras do irmão Paulo Sérgio Valle, Previsão do Tempo é um disco de pop classudo, não por acaso cultuadíssimo na Europa. Abre com “Flamengo Até Morrer”, sutil sacaneada futebolística nos militares, e segue com um repertório de clássicos como “Samba Fatal”, “Nem Paletó, Nem Gravata” e “Mentira”, sampleada pelo Planet Hemp na faixa “Contexto”. Para incrementar o produto, bônus especial com faixas compostas pelos irmãos Valle para as telenovelas globais da época, como Pigmalião 70, O Cafona e Os Ossos do Barão.

Impacto 5 - Lagrimas Azuis

Impacto Cinco – Lágrimas Azuis (1975)

Banda calejada nos bailes potiguares da década de setenta, o Impacto Cinco tirou a sorte grande e foi bater nos estúdios da CBS no Rio de Janeiro para gravar seu segundo álbum. Com o chapa Leno nos botões e emprestando composições como “Carmem, Carmem”, “Tudo Vai Mudar” e “Sentado A Beira do Arco-Íris”, o resultado não poderia ser mais certeiro.  Lágrimas Azuis permanece até  hoje um misterio mal solucionado na discografia do rock nacional. A existência de sobras de estudio do período é discutível, mas a qualidade da tracklist original  já é suficiente para entender o porquê do disco figurar no topo das listas de mais procurados pelos colecionadores e arquivistas da psicodelia latina.

Ave Sangria

Ave Sangria - Ave Sangria (1975)

Espécie de Stones (fase Satanic Majesty…) do Nordeste o Ave Sangria até hoje tem viúvas chorosas lá pelos lados do Recife. A pintura psicodélica da capa não faz mistério quanto ao conteúdo de pérolas como “O Pirata”, “Georgia, a Carniceira” e “Sob o Sol de Satã”. Mas o grande anti-hit do disco é a polêmica “Seu Waldir”, sambinha de temática homoerótica levado no pedal fuzz (“Seu Waldir, o senhor magoou meu coração/Fazer isso comigo, seu Waldir/Isso não se faz não”).  Uma vez que todos os envolvidos na feitura do álbum ainda estão vivos e de bem com a vida, um multirão poderia ser organizado em buscas de raridades, sobras de estúdio ou gravações ao vivo. Mas uma edição em CD simples já valeria a pena.

Arnaldo & Patrulha do Espaço - Elo Perdido

Arnaldo & Patrulha do Espaço – Elo Perdido (1988)

Depois do elogiado documentário de Paulo Henrique Fontenelle e do relançamento de Lóki? em CD bem que podiam dar uma chance a fase hard pop de Arnaldo com a Patrulha do Espaço. Tecnicamente, Elo Perdido nem chega a ser um álbum: na verdade, são as rough mixes das sessões de gravação do mutante com a Patrulha do Espaço, que ficaram engavetadas por dez anos até ver a luz do dia em formato de LP,  pelo selo paulistano Vinil Urbano. A maior parte das faixas aparece  também em versões soturnas no solo Singin’ Alone (1982), mas é aqui, com  Arnaldo assumindo o posto de band leader ao piano, que canções perfeitas como “Sunshine”, “Trem”, “Corta Jaca” e “Sexy Sua” podem ser degustadas em sua total plenitude. Na internet circula também um piratinha da mesma época, apelidado de Vice-Versa Studio, com as faixas “Sr. Empresário”, “Sanguinho Novo”, “Cowboy”, “Imagino a Minha Morte” e “Singin’ Alone” que ficariam perfeitas como bônus.

Killing Chainsaw (1992)

Killing Chainsaw – Killing Chainsaw (1992)

Quem viu garante que não tinha para mais ninguém. Durante os poucos anos que permaneceu em atividade, o Killing Chainsaw fez barulho suficiente para ganhar o título de melhor banda independente brasileira e ainda arrancar elogios de Kurt Cobain. O sucesso subiu rápido e um contrato malaco com a Roadrunner fez a banda ir pro saco dois anos depois deste álbum de estreia, lançado pelo selo/loja Zoyd Music. A capa, sacada do clássico Akira de Katsuhiro Otomo, não é enganosa quanto ao conteúdo, filhote direto de Sonic Youth, Jesus & Mary Chain, Mudhoney e outros barulhos saudáveis. Qualquer banda que tenha uma música chamada “Fuck You Gently (With a Chainsaw)” merece ser preservada para posteridade. Como bônus, vale a inclusão na íntegra de Early Demo(ns), estreia em fita do Killing com os petardos “Evisceration”, “Lollypop” e a versão pervertida de “Paperback Writer”, dos Beatles.

Graforréia Xilarmônica - Coisa de Louco II

Graforréia Xilarmônica – Coisa de Louco II (1993)

Lançado pelo extinto selo Banguela – capitaneado por integrantes dos Titãs e pelo hoje jurado Carlos Eduardo Miranda – a estreia oficial da Graforréia saiu de catálogo praticamente na mesma semana de lançamento. Disputado a tapa em sebos e leilões virtuais (outro dia, um cidadão ofereceu R$ 200 no Mercado Livre), Coisa de Louco poderia voltar incluindo como bônus a demo Com Amor, Muito Carinho, lançada ainda nos anos 80 pelo selo Vortex, dos Replicantes. Pronto: estariam lançados os alicerces para a segunda vinda do culto graforrélico no terceiro milênio.

Little quail and the Mad Birds (1994) Lírou quêil en de méd bãrds

Little Quail & the Mad Birds – Lírou Quêiol en de Méd Bãrds (1994)

O primeiro disco da segunda banda mais querida de Brasília é tão raro que nem o vocalista Gabriel Thomaz tem. Mais uma pérola lançada via Banguela Records, a bolachinha traz a tosqueira e lesação do trio em toda a sua plenitude. Desde o fim da banda  já saíram duas compilações de raridades, o que limita um pouco as possibilidades de acréscimo de faixas extras ao disco original. Mas, quem se importa? “Berma Is A Monster”, “Aquela”, a versão porrada para “Samba do Arnesto” e – claro – “1, 2, 3, 4” são clássicos incontestáveis do underground brasileño e merecem um tratamento à altura de sua importância, com direito a execução semanal nas escolas  da rede pública e na abertura de eventos oficiais. Doa a quem doer.

Júpiter Maçã - A Sétima Efervescência (1997)

Júpiter Maçã – A Sétima Efervescência (1997)

Divisor de águas no indie nacional, a estreia solo de Flavio Basso (então conhecido apenas como ex-vocalista do Cascavelletes) é uma profusão de arranjos lisérgicos com letras amalucadas. Saiu em tiragem mínima pelo selo gaúcho Antídoto e hoje é objeto de desejo de 11 entre 10 garimpeiros discográficos do Oiapoque ao Chuí. O próprio Júpiter já acenou mais de uma vez com a possibilidade de relançar o álbum em uma edição especial caprichada, com encarte retrabalhado e faixas bônus. Recentemente, ele colocou toda a sua discografia para download gratuito em sua página na Trama Virtual, incluindo algumas raridades da época de A Sétima Efervescência, que provavelmente fariam parte dessa suposta edição especial.

Faixa bônus:

Tim Maia -  Tim Maia Racional Vol. 2 (1975)

Tim Maia – Racional Vol. 02 (1975)

Não muito há o que dizer sobre os discos da fase Racional de Tim Maia que não tenha sido dito antes. Pedra filosofal da soul music nacional, o primeiro disco ganhou uma merecida edição em cd em 2007, pela Trama. Porém, devido a uma mal explicada treta familiar, o volume 2 permanece inédito em formato digital. Muitos fãs consideram este o melhor disco da fase Racional, o que se justifica pelo repertório irrepreensível que inclui “O Caminho do Bem”, “Quer Queira ou Não Queira” e “Que Legal”. A reedição do segundo volume poderia ser uma boa desculpa para reeditar os dois discos Racionais num pacote só, com um box caprichado, com encarte carregado de textos e fotos. Alô, Trama? Alguém?

*Texto publicado no site O Inimigo.

Comentários fechados.

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”