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4 de agosto de 2009 às 16:09 - Envie para o twitter

Diário de bordo

Por Carlos de Souza

Memória

A memória é uma coisa mágica. Não me admira que Proust tenha escrito páginas e mais páginas só com a fugaz lembrança de um aroma. A obra de Proust é um calo no meu sapato. Eu já comecei a lê-lo uma série de vezes e nunca passo da metade do segundo livro de Em Busca do Tempo Perdido (ou À Procura do Tempo Perdido, como queiram), À Sombra das Raparigas em Flor. Só o título já é suficiente para despertar inumeráveis lembranças para qualquer um com o mínimo de sensibilidade. Até agora eu só li todo O Caminho de Swann, que é uma delícia e nos diz muito sobre certas paixões que nos ilude por um bom tempo. “E pensar que ela nem era o meu tipo”, a frase de Swann é lapidar.

Música

O mesmo me ocorre agora ao ouvir O Verão de 42, de Michel Legrand, no meu canal de música. Quanta lembrança uma coisa dessas pode despertar… A juventude, as tardes chuvosas ouvindo o rádio no meu quarto, as leituras do gibi Mortadelo e Salaminho (eu tinha a coleção completa que se perdeu nas muitas mudanças de casa. Quanto deveria estar valendo agora?). A música me faz lembrar também de um comercial de TV, acho que de perfume ou cigarro, a imagem de um trem percorrendo uma paisagem européia ou era a imagem de um quarto bem sofisticado e o perfume derramava um pouco na mesa, sei lá. Lembranças da Sessão Coruja, da Globo, que passava tantos filmes bons…

Vinil

Eu tinha um LP de Michel Legrand que mostrava na capa uma sapatilha bem usada e um ramo de camélias. Nos anos 70 a gente não tinha receio de ouvir música orquestral. Depois foi se confundindo com música de elevador e ficou difícil separar o joio do trigo. Quando eu vendi grande parte os meus discos de vinil, para comprar um toca-cds, lembro que foi junto também um disco de num cara que tocava órgão acompanhado de uma orquestra. A capa era bem brega, daquelas que mostram um pôr-do-sol alaranjado, mas o disco era muito bom. Nunca mais vi igual. Perdi também um LP com um concerto para violoncelo de Brahms.

Cinema

Quem se lembra de Theme From a Summer Place, da Mistic Mood Orchestra? As sessões do Cine Miramar, em Areia Branca, eram sempre precedidas desta música. Eu gostava de chegar cedo para escolher o melhor lugar e ficar escutando o repertório de orquestras do cinema. Agora vem à memória o cheiro de hortelã e balas que eram vendidos na entrada. Engraçado, não me lembro do cheiro de pipoca. Toda semana eu ia umas duas ou três vezes ao cinema (porque em Areia Branca havia dois cinemas e a programação era alterada várias vezes na semana) e ia sempre sozinho. Meus amigos iam ao cinema para namorar, eu ia para ver o filme. No final dos anos 70 veio a decadência e os cinemas foram sendo fechados. Deram lugar às novelas na televisão.

Natal

Quando cheguei a Natal por essa época, os cinemas Rio Grande e Nordeste ainda lotavam suas salas. O Cine Cid, na Rio Branco, ainda exibia bons filmes. Havia uma sessão de arte lá, do Sindicato dos Bancários, que depois mudou para O Rio Grande. Mesmo sem filmes de arte dava para ver grandes sucessos do cinema nessas salas. Mas não lembro mais das músicas antes das sessões. Creio que ainda tocavam os Bee Gees de vez em quando, não sei.

Passado

Difícil esquecer os tempos em que os cinemas tocavam o Tema de Lara , do filme Doutor Jivago, antes das sessões. O público era educado e silencioso. Não iam lá para fazer suas refeições. Alguns amigos reclamam que eu não vou mais ao cinema. Não vou. Prefiro ficar em casa no meu silêncio vendo só o que gosto.

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