A difícil viuvez de Eduardo Seabra

Demétrio Diniz
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Antes de cair numa vida sem regra, Eduardo Seabra era um marido exemplar e pai de duas meninas gêmeas, Tainá e Tainara, a quem costumava chamar de meu tesouro. O imprevisto da vida, porém, o pegou de cheio no escritório da fábrica quando uma pessoa não identificada lhe falou ao telefone:

—Eduardo Seabra?

—Sim, pois não.

—O senhor é o que de Rosália Gomes Seabra?

—Marido, sim.

—Então… Sinto muito. A sua esposa faleceu na BR 304, na entrada de Macaíba … acidente de trânsito.

Com a morte da mulher Eduardo perdeu o juízo e o rumo, e sua vida virou de cabeça para baixo. Tornou-se irreconhecível para os familiares e para quem o conhecia enfiado no trabalho, administrando a fábrica de azulejos herdada do pai com uma centena de empregados. O despropósito se iniciou um ou dois meses depois da tragédia, e Eduardo já havia atirado no lixo o pano com que todos os dias enrolava o rosto para chorar. Teve começo com as prostitutas, a via por onde começam a se perder os desgarrados. E nessa via infelizmente ingressou de um modo extravagante e exagerado, inaugurando em Triunfo uma forma nova de prostituição.

Naquela tarde, no Brisa del’Rio, o motel da cidade, Eduardo vai se encontrar com amigos, seis ao todo contando com ele, e dividir a carga que viajou por dois dias e duas noites vinda de Teresina. Carga era o nome que eles davam à caravana de mulheres que um agenciador trazia de lugares distantes, ou como Eduardo e os amigos gostavam de dizer, de Marabá, no Pará, a Morro do Chapéu, na Bahia. A essa altura as mulheres já tomaram banho, trocaram de roupa e estão prontas para a partilha.

Eduardo foi quem assumiu todas as despesas com a viagem e se sente, por isso, no direito de fazer a divisão: duas mulheres para cada um. Toma o cuidado de escolher as que lhe parecem melhores, uma morena com cara de índia e olhar zangado e uma loura bonita que floresceu entre os mestiços no calorão do Piauí. As dez restantes ele as entrega ao grupo que, à conta de uma amizade amaciada com palavrões, chega facilmente a um acordo.

Logo os quartos do Brisa estarão ocupados, as mulheres correndo despidas e aos gritinhos pelos corredores, e a água da piscina a se perder pelas bordas com tanta gente querendo se banhar. A farra iniciada na tarde da sexta-feira se estenderá até a noite do domingo, quando o ônibus, adquirido por Eduardo para esse trânsito, irá deixá-las de volta, e os homens retornarão a casa falando de uma viagem de negócio que fizeram no final de semana.

Eduardo e os amigos, nesse período, queriam explorar as diferenças físicas, raciais e as atribuídas às diferentes regiões, concentrando-se nas mulheres do Norte e Nordeste, porque a pobreza dessas regiões facilitava a procura e também porque as mulheres dali eram pessoas dadas e dançavam forró bem. Não passava pela cabeça deles encomendar meninas do Sul, porque as imaginavam brancas da cor de vela e duras como uma vara de cerca. Assim mesmo, circunscritos apenas a essas duas regiões, tiveram de receber, devido à grande diversidade, uma anã que se movia faceira sob as mesas com uma bandeja na mão, e também Tupinambá, uma negra com mais de dois metros de altura, vinda de Teixeira, na Paraíba, e logo evitada porque souberam que na cama sacava um canivete de seis polegadas, cuja lâmina reluzia até no escuro, e o encostava na carótida de quem estivesse por baixo dos seus cento e vinte quilos.

Foi na fase do fastio, no segundo ano da viuvez, quando não sentia mais nenhuma emoção com a chegada das caravanas, que Eduardo Seabra conheceu Chocolate. Abandonou a fábrica, mudou-se para Natal, e contratou-o como seu caseiro e motorista, empolgando-se com as apresentações a travestis que o crioulo passou a lhe fazer. Seabra achava-os mais bonitos que as mulheres, mais sensuais e melhor preparados para os jogos eróticos. Todas as noites, na companhia de Chocolate, deixava a mansão da Rodrigues Alves e saía em direção à Bernardo Vieira com a avenida 7, onde ficava o ponto dos travestis, convidando-os para um drinque em sua casa.

Apegou-se a Jonathan, um guri recém-saído da infância que dançava rumba e salsa no teto de uma Kombi, exibindo sapatilhas cor-de-rosa, meias soquete e óculo azul, e sabia como nenhum outro levá-lo às culminâncias do prazer. Mas este, tão logo ganhou de Eduardo um carro de presente, sumiu e nunca mais foi visto no ponto. Chocolate procurou Jonathan por toda Natal, e a última notícia dele é que se juntou com um português e foi morar em Moçambique.

Com as dezenas de garotos com quem andou, Eduardo descobriu uma nova forma de prazer, que não deixou de ser mais uma distorção do seu caráter. Submetia Magal, que celebrara os vinte anos pintando os cabelos de verde, para vê-lo curvado chorando à penetração de seu membro descomunal, suportando vencido a dor porque logo pressentia a chegada de um prazer maior que o sofrimento. A farra com os travestis foi até então a melhor forma encontrada por ele para afastar a lembrança de Rosália, pois no dia seguinte acordava muito tarde, e com ajuda de alguma bebida aguentava as poucas horas que faltavam para os entretenimentos da noite. Não raro acordava pela manhã ainda com o parceiro em casa, os dois surpreendidos por Luzinete, a empregada, que os encontrava dormindo nus à beira da piscina.

Um dia Eduardo Seabra se demorou em frente ao Cine Rio Verde enquanto aguardava a chegada de um dos rapazes. Não se lembrava mais da existência dos filmes, e naquela tarde, olhando distraidamente da janela do carro os cartazes, deu-se de frente com Ghost — Do outro lado da Vida. E ao ver o filme decidiu-se pela realização de um outro onde pudesse rever e falar com Rosália. Procurou uma produtora de filmes e encomendou um videocassete com fotos da falecida, pedindo para utilizarem as imagens em que Rosália aparecia de biquíni na piscina ou na praia, ou só de calcinha tomando banho de chuva no quintal da casa. Envergonhado repassou à produtora uma foto guardada em segredo — Rosália completamente nua, os cabelos loiros em caracóis, os seios tímidos, e o púbis recoberto por uma penugem dourada, que era o que mais gostava nela.

A partir do dia em que a produtora lhe entregou o vídeo numa lata como as de bombons, com desenhos de gueixas e raminhos de cerejeira pintados na tampa, Eduardo, que já não suportava mais os encontros que sem Jonathan ficaram vazios, tão somente de prazer, trancava-se num quarto escuro para assistir ao filme. Edu, como gostava de ser chamado, experimentava de sua parte a ternura e o prazer negligenciados nos anos todos do casamento, articulava palavras de carinho por ele nunca pronunciadas, frases comuns, mas carregadas de afeto e saudade — Por que te foste, luz dos meus olhos?, Por que me deixaste só, estrela do meu céu?, abraçava Rosália como se ela ali estivesse, e partes do filme ficavam anuviadas pelos beijos sem conta com espuma de cerveja. O último ano de sua viuvez, até o dia em que seu carro a 200 quilômetros por hora bateu de frente com um caminhão, Eduardo gastou bebendo e fumando no quarto escuro, insistindo em trazer de volta sua amada, e com ela recuperar o amor esquecido no cotidiano banal.

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Demétrio Diniz

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