Dinheiro não

9 de janeiro de 2011 às 16:04 - 2 Comentários

Por Caetano Veloso
O GLOBO

Bethânia estourou no Opinião em 64. Guilherme Araújo logo me procurou para convidá-la a gravar na Elenco. Vianinha aconselhou-nos a preferir a proposta da RCA: apesar do prestígio, a Elenco era um selo tateante. O jovem comunista nos convenceu a optar por uma sólida multinacional. Eu não entendia nada do assunto. Claro que, no coração, preferia a Elenco. Mas não estava capaz de seguir o coração. Deu tudo certo. Por linhas tortas, Bethânia gravou na RCA um disco com características profissionais que pouco me agradavam (a mestria de Cipó brilhava mas não era o gosto que eu imaginava que nossa chegada ao Rio sugeriria), o primeiro compacto virou hit e ela se tornou a estrela de primeira grandeza que nunca mais deixou de ser. E até hoje corrige o gosto vigente em discos finos que produz na Biscoito.

O compacto de estreia tinha de um lado o “Carcará” de João do Vale e, do outro, meu “De manhã”. Entrei na profissão sendo o lado B de um megassucesso. Ganhei pouco por isso. Sem ideia. Comecei a ouvir conversas de que éramos todos roubados.Sentia imenso cansaço à mera menção dos problemas de direitos autorais. Voltei a viver na Bahia e esqueci o assunto. Quando voltei para o Rio, em fins de 66, acreditei que tinha sido arrastado por Alex Chacón, um chileno que vive no Brasil e me ofereceu morada num apartamento na Nossa Senhora de Copacabana. Foi Alex quem me passou um sabão ao perceber meu desprezo pelas questões relativas a proventos. Ele me disse que eu tinha obrigação de atentar para o assunto, que este não dizia respeito só a mim, mas a todos os meus colegas. Se eu não recebesse o que me era devido e me calasse eu estaria prejudicando uma classe inteira. Fiquei envergonhado. E passei a me esforçar para me interessar pela questão. É ainda com vergonha que confesso que nunca cheguei a ser bem-sucedido nesse esforço.

Saudei a entrada de Ana de Hollanda no ministério Dilma por um sentimento imediato de familiaridade. Eu tinha escrito o nome do avô dela um pouco antes, para ironizar minhas características cordiais de brasileiro. Era uma saudação cordial. Mas neste caso conteúdos importantes de outra natureza se impõem. Tratei-a pelo apelido de família, num exagero de intimidade que nem sei se lhe agradaria. Mas era expressão de alegria genuína. Eu a conhecia da casa de seus pais no Pacaembu, como irmã do meu justamente adorado colega Chico, e sabia que esse ambiente de origem significava compromisso de dignidade, selo de confiança. Não medi a importância de sua chegada ao posto por contraposição ao ministério de Gil, que tinha continuidade em Juca Ferreira. Gil era também um selo de confiança. As posições contrastantes que Ana possa ter, como ministra, com as do grupo que a precedeu não pesam tanto quanto o fato de saber que a função segue em mãos honradas.

No entanto, o problema dos direitos, que me traz sempre de volta a cara de Alex Chacón, apareceu no centro da troca de titulares do MinC. Pouco quero dizer sobre a horrenda matéria de “Veja” sobre Ana: apenas alertar os brasileiros para o fato de que nem na Inglaterra nem nos Estados Unidos (ou na Alemanha ou na França) um veículo equivalente à “Veja” publicaria a respeito de alguém de importância pública equivalente à de Chico Buarque nada em tom nem remotamente tão desrespeitoso. É uma questão de educação. Cabe a cada um perguntar-se se isso é sintoma de nossa promissora originalidade ou mera mostra de desejo neurótico de autodepreciação.

Já Ronaldo Lemos, na “Folhateen”, e Hermano Vianna, aqui, escreveram de modo a dar lição a publicações como “Veja”. Deram as boas-vindas à nova ministra, contando desde já por que discordariam dela: se ela recuasse na questão da reforma da Lei do Direito Autoral.

Com esse exemplo de bom jornalismo eu desejaria poder dialogar. Não me incomodaria de ocupar o precioso espaço que tenho neste caderno nem o ainda mais precioso tempo de quem me lê. Só não me alongo em decisivas argumentações porque não estou meticulosamente informado sobre como funciona o Ecad hoje. Mas é o que temos e detentores de direitos devem ser ouvidos.
Eu precisaria também ter uma ideia clara sobre o que é melhor fazer no mundo da reprodutibilidade digital e da difusão cibernética. A pirataria e a internet mudaram a cara do negócio da canção. Há propostas para fazer a legislação acompanhar essas mudanças.

Mas o direito de autor ainda é sagrado em toda parte no mundo capitalista.Orgulho- me por Gil ter acolhido
o tema.O Brasil está ligado. Hermano Vianna é pioneiro na discussão. Meus queridos colegas Fernando Brant e Ronaldo Bastos são defensores dos autores que veem seus direitos ameaçados. Sempre me posicionei mais ao lado destes últimos (talvez como tardia homenagem a Alex mas também pelo repúdio instintivo ao sonho de “morte do autor” dos libertários dos anos 60). Assim como Vianna, Ronaldo Lemos se sente atraído pelo mundo novo da internet e do tecnobrega. E eu com eles. Mas não gosto de ler projetos de lei em que direitos do autor são confundidos com os do consumidor (já disse isso aqui). Ana só declarou que quer reconsiderar o projeto de lei. Colegas meus odeiam o Creative Commons (um sistema de licenças americano que flexibiliza o direito autoral, segundo o desejo de cada autor). Vianna e Lemos gostam. Eu não sei. Só não pode é a gente parecer moderno e virar otário. Posso desprezar o dinheiro. Mas tenho que saber que ele não é somente meu.

2 Comentários

  1. Paulo Antunes
    13 de janeiro de 2011

    Não entendo por que motivo Caetano se dá ao trabalho de escrever 8 parágrafos de um tema que, assumidamente, não domina. Quer opinar? Vá ler o projeto de Lei e entender o barato. Do contrário, é só bla bla bla.

  2. 22 de fevereiro de 2011

    [...] continuar lendo essa matéria, acesse: http://www.substantivoplural.com.br/dinheiro-nao/       999 pessoas curtiram isso. Seja o primeiro entre seus [...]

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OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar