Diploma, por André Forastieri
18 de junho de 2009 às 13:40 - Comentar“Agora que a profissão de jornalista está acabando, derrubaram a obrigatoriedade do diploma. Seria de rir se não fosse de chorar.
Mas, enfim, antes tarde. Como já repeti inúmeras outras vezes, abandonei a faculdade, porque era uma porcaria e chata (ECA-USP, entrei em 83 e larguei de vez em 88). Trabalho com muita gente formada faz pouco tempo ou ainda estudando. Percebo que continuam uma porcaria e chatas, todas, sem exceção.
Tento convencer todo mundo a largar, sempre sem sucesso. Agora finalmente não há mais justificativa para ninguém estudar jornalismo. Vão fechar todos os cursos ou quase, espero, o que é bom para o futuro jornalismo brasileiro. Nem tão bom para os meus colegas que viraram professores, mas a vida é assim.
Se você tem um blog, é escritor. Ponto final e acabou o assunto. Eu defendo que é jornalista, ou tão jornalista quanto eu. Reportagem é outra coisa. Exige técnica de redação, simples, capacidade de investigação e rigor na apuração, complicadíssimo e caro.
Um amigo que trabalha em TV garante que quase todos os repórteres só lêem o texto que os outros escrevem, inclusive vários bem famosos. Aí entram os jornalistas. Mesmo que você seja repórter de televisão e tenha sido contratada pelo belo sorriso e voz sedutora, o trabalho sujo tem que ser feito, se não por ti, por alguém mais feio e pior remunerado que você.
Supostamente jornalismo exige “independência financeira”, o que empresas de comunicação alegam que só pode ser conseguido através da venda de publicidade. Balela. O que grandes empresas de mídia querem é drenar o máximo da grana de publicidade, o que conseguem remunerando as agências de publicidade exatamente por concentrar o dinheiro dos anunciantes em cada empresa.
É a chamada bonificação de volume, BV, prática de mercado corriqueira no Brasil (e nem um pouco em outros países). É tão certa ou tão errada quanto adicionar 10% na conta para o garçom, independente do valor do jantar. É o dia a dia de veículos e agências e anunciantes (estes estão cada vez menos felizes com isso; os gringos, especialmente).
O BV está na bica de ser regulamentado. Eu acho que é tarde, tanto quanto acabar com a obrigatoriedade para o diploma de jornalismo. Desconfio que o modelo de BV está com os dias contados. E quem vai pagar os publicitários? Assunto para daqui a alguns dias.
Existem outros modelos, velhos – BBC, alguém? E precisamos criar novos. Que viabilizem financeiramente tantas vozes novas e independentes que nascem na internet, fazendo jornalismo em texto, foto, áudio e vídeo. E que viabilizem também, sim, a sobrevivência do velho e bom repórter.
Porque não basta ter uma opinião sobre o quebra-pau no Irã. Alguém tem que ir lá ao vivo e a cores e reportar os acontecimentos, para que os outros possam opinar sobre os fatos. Não basta repetir o que o banco disse no release. É preciso entender de verdade o que é um derivativo de crédito, saber fazer as perguntas certas para os banqueiros, cut through the bullshit. E ainda explicar depois em português claro o que está acontecendo de verdade na economia.
Esse tipo de trabalho de reportagem investigativa / analítica custa uma grana preta. E vai continuar custando. Quem vai pagar?
Bem, eu pagaria minha parte para mandar Ivan Lessa para o São Paulo Fashion Week, Chris Hitchens para o Capão Redondo ou mesmo Sabrina, Vesgo e Ceará para o Oscar. Quanto custa? Cem mil reais? Eu entro com R$ 10.00. Mais 9.999 amigos e está feito.”


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