Crônicas e Artigos

A ditadura do orgasmo

Ditadura do orgasmo

Falar sobre sexo, para mim, é fácil, mas sem imposição do orgasmo a qualquer preço, com qualquer pessoa, em qualquer situação; perdi a virgindade com 16 anos e, na hora, senti que o gozo não veio; mas tinha a noção exata daquele momento fulgurante

Sempre tive necessidade de falar sobre esse assunto, tanto que, nas conversas entre amigos e amigas, não tenho pudores quanto a expor minha verdade com relação a essa deliciosidade, presente dos céus, mimo de Deus, que é o Orgasmo.

Dia desses, conversei sobre isso com duas amigas, em ocasiões diferentes, nas quais ambas divagavam sobre a necessidade de gozar em cada relação sexual que tivessem. E, como outras amigas que tenho, ficaram estupefatas com a minha grande dificuldade de alcançar o orgasmo com pessoas que não me são íntimas cotidianamente, a bem dizer: sexo casual.

A surpresa delas não me surpreende, pois, quem me conhece, sabe que sou uma pessoa entusiasmada pelo prazer, gosto de falar sobre prazer, viver o prazer, dar prazer: prazer, Iara.

O que elas talvez não recordem, em meio às lembranças que colecionam dos muitos orgasmos arrancados delas pelos homens (perfeitamente compreensível, eu viveria anestesiada) é que a realidade da maioria das mulheres é a mesma que a minha, por diversos motivos, seja em virtude de um parceiro que não se esforça pra agradá-la, por questões hormonais ou equivalentes, ou como reflexo da velha e triste marca que a sociedade patriarcal nos impôs a ferro e brasa sobre a mente, segundo a qual a mulher não merece ter prazer.

Ditadura do orgasmo.2A primeira vez

Há pouco mais de 20 anos, perdi minha virgindade. Lembro-me exatamente do final, quando meu namorado perguntou se eu gozei. Eu, com 16 anos na época, já adepta da masturbação, sabia perfeitamente que não tinha gozado (essa sacada incrível da criação divina que não nos deixou na mão, ou melhor, deixou).

Eu já brincava comigo mesma há uns três anos, portanto tinha a noção exata daquele momento fulgurante em que somos invadidos pela eternidade. Por isso, eu sabia sim que não tinha gozado; mas como, com a pouca maturidade de uma adolescente, eu teria coragem de admitir para o meu grande amor (diga-se de passagem, possessivo e abusivo) que eu tinha fracassado?

Quem aqui já viveu isso, entre mulheres e homens, sabe dessa sensação. Fico imaginando como isso é para o sexo masculino, nessa hora eu me compadeço de vocês, homis! Menti pra ele. Ainda umas 2 ou 3 vezes.

Mas fiquei com um peso na consciência e, quando resolvi revelar-lhe a verdade, ele acabou o namoro e me escreveu uma longa carta perversa, com os piores adjetivos que se poderia escrever pra uma pessoa que, teoricamente, se ama. Imagine como me senti!

Foram quatro anos de relação e ele, enfim, aprendeu como era meu jeito, e gozei muitas e muitas vezes – não esqueço a primeira vez com ele, foi num sábado de aleluia (pausa pra ouvir Hallelujah, com Leonard Cohen).

Depois disso, casei duas vezes e, da mesma forma, ‘domestiquei’ os meus rapazes no trato específico do meu prazer. Eles foram bons alunos.

Ditadura do orgasmo.3Por que toda essa intimidade exposta?

À Ditadura do Orgasmo. Aplaudo as mudanças que estamos vivendo na sociedade, com mulheres empoderadas e alguns homens tentando se adequar a esse contexto, abrindo a mente para explorar possibilidades e reconhecer que ali, no espaço da cama ou qualquer outro que o valha, existe outro ser humano tão desejoso por prazer quanto ele. Aplausos.

Mas o que decorre disso? Exigências de adequação a uma nova caixa social e certo hedonismo deturpado, uma vez que concentra possibilidades de prazer em um único momento.

O hedonismo é característico de quem se dedica ao prazer como estilo de vida. Ao ler essa definição, fico refletindo: então eu não sou hedonista, já que não faço lá tanta questão de alcançar o “gozo absoluto”? Faz-me rir!

Ao longo do tempo, e com minhas épocas de solteirice, aprendi a me reinventar e a atribuir significados muito amplos às coisas. Nesses processos de ressignificação, percebi que eu posso completar um álbum de figurinhas inteiro com todas as sensações orgásticas que eu coleciono durante uma transa; sim, porque sensação orgástica faz tudo ficar divertido e nem um pouco entediante quando estamos a dois (ou a três, ou a quatro, você escolhe).

Ditadura do orgasmo.3De que adianta um final apoteótico, se a naturalidade das sensações não acontece?

Eu também entendi que intimidade, ainda que casual, não é pra todo mundo. E se tem uma coisa que eu adoro é construir intimidade, em questão de pouquíssimo tempo – sabe, não ter vergonha de ser ridículo na hora H, rir das posições mal arranjadas, fazer carinho no depois, conversar bobagens e coisas profundas, desculpar um excesso de dente aqui, outra falta de língua acolá, e seguir na tranquilidade.

Nesse processo de reinvenção, me tornei convicta de que eu sou linda, de rosto e de corpo, que me orgulham todas as marcas e descaminhos da minha pele, que, se eu quiser parar o trânsito, eu paro.

Sou gorda desde que me entendo por gente e, se tem uma coisa que eu não faço é me sentir diminuída por isso; pelo contrário, sou uma gigante quando vou à caça e os 30 anos só me trouxeram mais segurança e poder!

Tem um vídeo de Viviane Mosé em que ela diz que ser gostosa não é “ser magra, ter a bunda dura e peito grande”. Ser gostosa é ser sensual. E ser sensual é querer comer e ser comido pela vida. Eu tô viva é pra isso! Comer e ser comida pela vida! Sem restrições.

E não é porque o orgasmo em companhia de outra pessoa não rola em toda relação, que a experiência da plenitude não está sempre presente. Foram anos em busca do autoconhecimento, permitindo-me aceitar determinadas limitações (em vários aspectos da vida) reconhecendo minhas peculiaridades, meu modo de ser e estar no mundo, livrando-me dos estereótipos e das prisões, para de repente me sentir enclausurada num outro tipo de ditadura, de que, por vezes, o feminismo se reveste.

SexoLonge de ser domesticada e oprimida

Entendo que processos para mudança de paradigmas são muito complexos e os exageros acontecem, mas não vai ser por um movimento que busca a libertação da mulher que serei mais uma vez “domesticada” e oprimida.

Não sou obrigada a gozar sempre que faço sexo (mas, se tiver uma relação consolidada, gozo). Não sou obrigada a me revoltar quando ouço uma cantada na rua (inclusive, gosto). Não sou obrigada a expor minha sexualidade (mas faço). Não sou obrigada a obrigar um homem me fazer gozar (mas também não sou obrigada a querer repetir a dose). Não sou obrigada a não assistir pornografia por causa da objetificação da mulher. E, sim, sei que há outros problemas nisso, mas também não sou obrigada a refletir sobre esse assunto agora.

Queremos liberdade, liberdade para ser quem somos. E, se tem uma coisa que eu sou, é gostosa e sensual, porque aceito a vida e sua carga de lirismo, entre dores e prazeres, me entrego absoluta numa bandeja, e que venha a vida e seus delicados orgasmos múltiplos em forma de auto aceitação, ausência de julgamento e muita, muita fome.

Bem, é o que tem pra hoje. Foi bom pra você?

Share:
Iara Carvalho

Comentários

Leave a reply