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Do amor

Gosto muito de conversar com pessoas idosas, e acho incrível como a maioria delas sempre tem uma história (ou muitas) para contar.

Ontem, por exemplo, eu estava esperando o circular que nos leva até a UFRN, quando um senhor de meia-idade puxou conversa, perguntando qual era o meu curso. Depois que respondi, ele disse: “eu me arrependo de não ter estudado, minha filha; só tenho o primário, a universidade me deu tantas oportunidades”… “Hoje estaria ganhando melhor se tivesse aproveitado as chances que a universidade oferecia aos funcionários que quisessem estudar”, disse ele num tom pesaroso.

Depois desse papo nostálgico em torno de sua vida como funcionário da UFRN, ele começou a falar de relacionamentos e coisas do gênero. Nesse meio tempo, falou de seus porres homéricos, das semanas inteiras que passava sem trabalhar, das inúmeras mulheres com quem havia namorado… Agora, está cuidando da separação oficial para acertar os detalhes do seu casamento com uma moça de 18 anos. Detalhe: a moça é irmã de sua ex-mulher, com quem ele foi casado durante 15 anos, o que, por si só, gera uma situação bastante conflituosa sob diversos pontos de vista.

Ele está com 65 anos e diz que algumas pessoas não acreditam nesse amor, geralmente sob a alegação de que tudo não passa de interesse financeiro por parte da moça. Foi justamente isso que me fez continuar pensando na sua história depois que nos despedimos. Lembrei de uma outra história parecida, contada por uma amiga: um homem de meia-idade que também está apaixonado por uma moça de 18 anos. Mas essa história é bem diferente da primeira, pois a família da moça apoia o relacionamento.

Depois de tanto refletir sobre essas duas histórias, me pergunto: por que não acreditar que duas pessoas podem se amar independentemente da idade, do sexo, da condição social ou qualquer outro que seja o aspecto que os diferencie/aproxime? Afinal, “Quem um dia irá dizer que existe razão / Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer / Que não existe razão?”. É o que indaga Renato Russo em sua canção-crônica “Eduardo Mônica”, que fala justamente de um casal superdiferente que se apaixona e vive uma linda história de amor. “Eduardo e Mônica eram nada parecidos /

Ela era de Leão e ele tinha dezesseis / Ela fazia Medicina e falava alemão / E ele ainda nas aulinhas de inglês / Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus / De Van Gogh e dos Mutantes / Do Caetano e de Rimbaud / E o Eduardo gostava de novela / E jogava futebol-de-botão com seu avô […]” .

Sinceramente, acredito que ninguém ama outra pessoa pela sua idade. O amor acontece sem maiores explicações. “Amor é estado de graça / e com amor não se paga […] Amor foge a dicionários e a regulamentos vários”, como escreveu Drummond em seu poema “As sem-razões do amor”, título bem apropriado, aliás, para a infinidade de discussões que o tema pode gerar. O amor tem a ver com afinidades, e estas nem sempre estão relacionadas com a faixa etária, mas sim com valores, posicionamentos ideológicos, profissão, gostos literários, musicais…

Para o escritor português José Saramago, referindo-se a sua esposa Pilar, 28 mais jovem que ele: “Amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como fator de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério” .

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Andreia Braz

Comentários

1 comment

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 9 setembro, 2017 at 12:28

    Adorei o texto! Há muito preconceito sobre o assunto e sua escrita nos convida a refletir sobre o amor em sua forma natural, pura, sem barreiras, parabéns!

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