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5 de outubro de 2009 às 10:49 - Envie para o twitter

Do chão poético do livro “Resina”

Por Nelson Patriota

A exemplo do que Zila Mamede fez com Navegos e Paulo de Tarso Correia de Melo com Talhe Rupestre – poesia reunida e inéditos, Diva Cunha aproveita a escritura de Resina para nele reunir quase toda a sua poesia até agora. A exceção é Armadilha de vidro (2002), com certeza por se tratar de uma obra por demais recente.

A edição de Resina, feita com o habitual cuidado que cerca os livros da Una, da poetisa Marize Castro, resgata com vantagens editoriais os primeiros livros de Diva Cunha, colocando-os outra vez em circulação dentro de padrões gráficos modernos, apresentados em tipos gráficos mais adequados à escrita poética contemporânea, vazados sobre um pólen não menos adequado aos mesmos fins.

Mas como ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, como reza o adágio de Heráclito, no trabalho de recolha dos velhos livros Diva Cunha não resistiu à tentação de uma mudança aqui, um retoque mais adiante, de forma que findou por revisar, em certa medida, algumas das suas obras. Confrontando-se, por exemplo, Coração de Lata (1996) com a sua reedição no corpo de Resina, observam-se algumas dessas “revisões”. Os poemas “Lençol branco”, “Formiga no supermercado” e “Auto-retrato com direito a retoques” foram suprimidos. Outras mudanças, de natureza mais sutil, aparecem aqui e ali. Por exemplo, a crase do poema “Bates à minha porta” desaparece em sua reedição, enquanto a forma verbal “são”, do poema “Outros são os dias” é suprimida, resultando em “Outros os dias”. A repetição do poema “De prata é meu coração de lata” nas páginas 113 e 232, de Resina, parece, contudo, ser fruto de um lapso editorial.

A leitura dos inéditos de Resina, por sua vez, revela-se um exercício instigante pela repetição de alguns temas, que indicam um propósito ou uma preocupação (ou convicção) contemporânea da autora, e menos a possibilidade de mera coincidência.

A poética da vida cotidiana explode em cada verso desses poemas, como a cumprir o credo drummondiano de que ao poeta cabe cantar “a vida presente, o mundo presente”. Daí porque a poetisa confirma mais uma vez sua preferência pelas formas breves do poema, resvalando não raras vezes no hai-kai e na poesia minimalista, como a indicar que a leveza da forma deve coincidir com a leveza do conteúdo.

Essa é a regra, mas não tem exclusividade sobre o amálgama de palavras que resulta no poema. Entre o amorfo e o poético descortina-se um percurso de incertezas, e novos motivos podem ser acrescidos aos incorporados em outros livros. Será por isso, talvez, que o motivo “Deus” ganhou especial relevo na poesia nova de Resina. Pelo menos em três poemas se fazem presentes motivos religiosos em variados contextos: na relação poeta & Deus, em “Quando Deus me habita”; na reflexão poética sobre Deus em “Leio a Bíblia”, e na certeza metafísica manifesta em “Deus me mantém”. Num quarto poema novo, “O corpo contém” a poetisa volta a mencionar o nome “Deus”, como a indicar que esse é um tema recorrente de suas reflexões hodiernas, embora o faça num sentido não específico. Ainda assim, não lhe subtrai atributos divinos: o pequeno mundo de cada dia enquanto morada de um D(d)eus.

As questões de gênero, porém, têm seu lugar em Resina. Um espécime dessa poesia de ranço feminista e tonalidades androfóbicas emerge em “Homem bicho frouxo”, poema no qual a autora supõe o homem feminilizado. Escreve Diva: “Imagina o mundo/ crescendo redondo/ na barriga de um macho desses”. E conclui: “Nem nascia o novo/ nem se fundava a História”. No fundo, o poema é um elogio à confortável separação natural dos sexos, sob a interface ácida da generalizante afirmação do título.

Mesmo as filhas do segundo sexo não passam incólumes pelo crivo de Resina. No poema “Certas mulheres catam coisas pequeninas”, elas são comparadas aos homens, que “não contam nada/ ocupadas com coisas incontáveis”.

É com poemas desconcertantes assim que Diva Cunha poetiza do alto de Resina, no qual a simples poética do cotidiano ficou um tema estreito em demasia para tantos dizeres.

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