Geral

Do choro de inocentes

Violencia

Não tinha aproximação com Antonio Cândido, o sargento que tombou falecido depois de receber tiros de armas empunhadas por gente que nunca tinha visto na vida. Conheço parte de sua família e com ela tenho laços firmados de amizade. Há uma semana, no dia 5 de junho, como sabe a maioria, na calçada de um hospital em Natal, o caicoense Antonio foi mais uma vítima da violência que abate o Rio Grande do Norte e suas famílias.

A história foi repetida durante os primeiros dias da semana… Antonio foi a Natal acompanhando o pai que faria, no dia 5 de junho, um tratamento na Liga contra o Câncer. Pelos relatos de amigos comuns, fez o que um bom filho faria: proporcionou ao pai, no final de semana, a alegria de um passeio, associado à solidariedade de se fazer presente ao acompanhamento médico na segunda-feira. Coisa de gente que honra pai, mãe e reconhece valores que evidenciam a família como célula de amor e educação, indispensável ao equilíbrio social.

Os que abateram covardemente Antonio Candido, lamentavelmente, são movidos por outros valores. Aliás, eles e outros estão declaradamente em guerra contra as vidas dos potiguares… É um quadro gravemente assustador. Deveria ser causa de uma grande comoção social que, em decorrência, motivasse ações estruturadas, veementes contra a violência, inclusive, com a conscientização ainda maior da sociedade acerca do valor e da necessidade da paz.

Mas, colocando o assunto em proa, apenas para uma ordem de grandeza, vale destacar que o terrorismo, que impacta o mundo inteiro com atentados, resultou – segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – em 3.349 pessoas mortas nos primeiros cinco meses de 2017. Segundo o Observatório da Violência já são mais de 1030 potiguares assassinados em 2017.

E, antes o que parecia distante, está cada vez mais próximo… Já conseguimos relacionar as pessoas de nossa convivência que foram vítimas da violência, inclusive, assassinadas. A vida humana, para alguns humanos, não se apresenta com qualquer valor e, para eles, ainda se ouvem vozes e normas – talvez até com boas intenções – que desestimulam a ação repressora do aparelho policial. Infelizmente estamos, sem querer, diante de um conflito onde a escolha precisa ser a favor do bem e contra o mal.

Agora, o choro dos inocentes tem o endereço da família de Antonio Candido, um de nós no meio dos policiais. Alguém que tinha uma história de superação parecida com tantos outros jovens do Seridó que a gente ama. Acalentava os mesmos sonhos que outros mais com apenas 37 anos cultivam. Certamente, como todos nós, era formado por esperanças, acertos, erros, planos, retas e curvas que pautam a vida e tinha a perspectiva de uma caminhada que, naturalmente, tendia a ser bem maior.

Não lanço, por derradeiro, o olhar sobre as causas da violência, muito menos para as estratégias do combate. São motivações para outros textos e debates. Contudo, além de lamentar profundamente o fato ocorrido com Antonio Candido, imaginando a dor que sufoca o coração dos mais próximos, espero que a indignação dos primeiros dias contagie os seguintes e que não tenhamos qualquer conformismo diante da violência.

Não é normal que famílias honestas estejam presas em casa; não é justo que idosos não possam mais residir na zona rural, no leito de suas raízes; não é aceitável que crianças e jovens sejam recrutadas para o crime sem a nossa inquietude; não é tolerável abandonar as ruas – ladrilhadas de pedrinhas de brilhante para o nosso amor passar – porque o mal está fazendo o bem recuar. Não é! Não pode ser assim!

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Fernando Antonio Bezerra

Comentários

1 comment

  1. Tânia Costa 13 junho, 2017 at 09:44

    Muito bom texto. Só para colocar uma pimentinha no seu texto: tem sido corriqueiro pessoas as mais diversas atacar entidades como a dos Direitos Humanos como se estes se preocupassem unicamente em defender os direitos dos “bandidos”, digamos assim. No que discordo veementemente. É mais fácil jogar pedras. Ao meu ver omite-se uma questão crucial que remete à própria estrutura de como está organizada a sociedade. Esta forma de organização liquefaz todas as relações, fragiliza todos os laços, banaliza_se todas as relações em função de um projeto excludente, onde não cabe o humano, mas somente mercadorias. O próprio homem reduzido à mera mercadoria. Ele próprio produto. E se esse produto que é o homem não carrega valor enquanto mercadoria ele é reduzido a lixo. É isso o q produz essa sociedade, lixo humano que quer ser alçado a condição de mercadoria com valor. Abraços

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