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Do eterno retorno

ribeira

Em janeiro deste ano, publiquei aqui no SP um pequeno artigo sobre o jornal O Parafuso, semanário humorístico escrito e editado na Ribeira (mais precisamente na Rua Dr. Barata) e que neste ano de 2016 completou seus primeiros cem aninhos.

Este jornal foi responsável por desencadear em mim o desejo de conhecer e investigar a imprensa de humor de Natal no início da República, num momento em que por aqui ainda se aspiravam aos modelos franceses de sociedade e materializados pelo discurso da civilidade. Aquele meu desejo se transformou em um projeto de pós-doutorado e dois anos depois ele agora toma forma de livro – “Notícias da Jerimunlândia: a imprensa de humor em Natal na Belle Époque” – a ser lançado no próximo sábado, dia 17, no stand do Sebo Vermelho durante a FLIN.

Com este “parto”, sinto que preciso voltar ao tema. Porque neste ano de 2016, ao tempo que um ciclo se fecha, outro se inicia e isso não diz respeito só ao meu mundinho delirante, mas para muita gente também. Com o golpe e queda de Dilma, com as PECs temerosas que vão sendo aprovadas, com a morte de Fidel e a vitória de Trump, acho que não dá pra negar essa descontinuidade histórica.

Neste ano emblemático, dou por encerrada essa pesquisa que me consumiu nos últimos dois anos, depois de fuçar livros e artigos e de me deleitar com jornais/ colunas de humor (do período de 1880 a 1930). Durante dois anos, os fantasmas de boêmios e poetas daquele novo tempo que se instaurava alucinaram meu juízo. “Ouvindo” versos e bandalheiras de Segundo Wanderley, Ferreira Itajubá, Pedro Lopes Jr. e José Pinto, por exemplo (ou melhor, Abelha Mestre, Stela Romariz, Sá-Poty e Lulu Capeta), fiquei me perguntando como teria sido viver na cidade que se modernizava e de cujo cenário “civilizado” surgiam e proliferavam cafés e confeitarias, como também escritórios de redação e tipografias.

Até que chego a uma conclusão, ainda que parcial. Para isso contribuiu um episódio, o “encantamento” de Leo Sodré, um exemplo que reatualiza, mais uma vez, o intenso encontro entre letras e boemia. Infelizmente, somente agora me chegou às mãos seu livro “Crônicas do Beco da Lama”. E ao tempo em que leio suas páginas e desfruto de uma cerveja gelada no bar de Nazaré, percebo que aquela cidade ainda resiste. A Natal dos embates entre A República e o Diário do Natal de algum modo permanece nos senhores e senhoras que hoje se divertem e também se digladiam. Se Abelha Mestre zombava de Machadinho, do mesmo jeito Abigail é malhada por Cabrito. E principalmente por meio da zombaria maledicente.

Evidentemente Natal mudou muito também. As modestas tipografias da rua da Conceição não se comparam às inúmeras lan-houses e gráficas off-set espalhadas por todos os cantos. Mas, para além do bem e do mal, Natal ainda é palco de ardorosos (des)encontros de jornalistas e poetas, de escritores e editores, de seresteiros e músicos, de artistas e boêmios, “bagaças” de ontem e de hoje que se confraternizam por meio do riso e celebram o trágico da vida em pequenas guerras.

Tal como disse, certa vez, lá n´O Parafuso, o Dr. Seboso: “Dano-me… com essa mania de Mendes querer ser poeta. Vai estudar, jumento!”

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Cellina Muniz

Comentários

2 comments

  1. Ruben G Nunes 14 dezembro, 2016 at 18:51

    Brau, profa Cellina, brau!
    Seu artigo dá vontade da gente mergulhardware nos tempos e lembruxas dessa Natal querida
    Brau!
    Ruben G Nunes

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